A incapacidade de nos ouvirmos em comunidade é um dos dilemas do nosso tempo. Ouvir implica, desde logo, uma ponte: exige abertura ao outro, mesmo quando essa abertura não implica concordância absoluta. A escuta não pode ser subserviente nem pretensamente neutra, porque quem escuta traz consigo convicções, história e legitimidade para também ser ouvido. O problema surge quando a voz que é escutada é diminuída por redes de poder que privilegiam determinados alinhamentos e pretendem silenciar outros. Por isso, é essencial discutir quais são, afinal, os critérios que moldam a escuta e quem os define.

Um dos pórticos da Basílica de Santa Maria Maggiore onde está sepultado o Papa francisco e bem ilustrativo do seu pontificado. Foto © Filipe Moisés
Serve esta pequena nota introdutória para falar da sinodalidade, num tempo em que já começo a senti-la arrefecida e um tanto travada. Todos sabemos que o processo não decorreu de igual forma em todas as igrejas locais e conhecemos, muito em particular, a resistência e o atavismo do clero português na sua implementação. Reparemos que era suposto que as conclusões da primeira Assembleia Sinodal voltassem às bases, para que todos pudessem ler, discernir e pronunciar-se, e isso não aconteceu. Aliás, se já na primeira recolha de contributos a audição das bases foi parca, muito mais se notou na preparação da segunda Assembleia Sinodal.
O documento “A sinodalidade na vida e na missão da Igreja”, aborda um ponto fundamental que aqui transcrevo: “Ainda que o termo e o conceito de sinodalidade não se encontrem, explicitamente, no ensinamento do Concílio Vaticano II, pode-se afirmar que a instância da sinodalidade está no coração da obra de renovação por ele promovida. A eclesiologia do povo de Deus sublinha, de facto, a comum dignidade e missão de todos os batizados no exercício da multiforme e ordenada riqueza dos seus carismas, das suas vocações, dos seus ministérios. O conceito de comunhão exprime, nesse contexto, a substância profunda do mistério e da missão da Igreja, que tem na reunião eucarística a sua fonte e o seu cume. Esse designa a res do Sacramentum Ecclesiae: a união com Deus Trindade e a unidade entre as pessoas humanas que se realiza mediante o Espírito Santo em Cristo Jesus.”
Quero destacar aqui três expressões fundamentais: renovação, eclesiologia do povo de Deus e unidade. Sem este trinómio, a sinodalidade perde consistência e torna-se apenas um slogan. É por isso fundamental refletir sobre o papel concreto de cada um destes elementos e sobre a forma como se articulam na vida real da Igreja.
Quando se fala em unidade, é importante lembrar que esta nasce do sentido de pertença, não da uniformidade. As experiências, contextos e trajetórias dos crentes são tão diversas que é ilusório impor um padrão único que os torne iguais perante a fé. Por isso, a Igreja não pode exigir que alguém se anule em nome de uma unidade que, na verdade, não é vivida de forma recíproca. E, no entanto, é isso que acontece com frequência, sobretudo quando a vontade dos grupos mais influentes, em particular o setor conservador dominante, se impõe sobre a vida concreta dos fiéis.

O autor do texto entrega ao Papa Leão XIV uma carta em que solicitava que continuasse o legado de Francisco. Foto © Filipe Moisés
Mais do que qualquer celeuma interno, a questão da unidade é um tema bastante mais complexo e o Papa Leão XIV não encontrou ainda a melhor forma de o abordar. Tem preferido tomar partido pela ambiguidade silenciosa e pouco disruptiva, posição historicamente eficaz para amainar as animosidades dos conservadores mais reacionários, mas que corre o risco de acabar por progressivamente se afastar do espírito evangélico de proximidade e serviço. É uma trajetória que volta a Igreja para dentro, em que os sucessivos apelos à harmonia interna acabam a transformar-se numa espécie de conformismo podre, que agrada à maioria influente. A imagem do Bom Pastor, que abandona as noventa e nove ovelhas para procurar a que se perdeu, torna-se aqui particularmente reveladora: quando a unidade falha por ser substituída pela uniformidade, falham também a eclesiologia do Povo de Deus e a capacidade de renovação.
Falha a eclesiologia porque não é respeitada a ideia de uma comunidade universal que caminha em conjunto e à qual pertencem todos os batizados, acima de visões hierárquicas e a par e passo com a realidade concreta de cada um. Uma comunidade que prefere parar e mudar a trajetória para ir ao encontro daquele que saiu fora, em vez de o marginalizar. Falha a renovação porque se fecha a porta de abertura da Igreja à realidade plural do Mundo, enclausurando-a em posições que oscilam entre avanços e recuos, que não alcançam os mais básicos padrões éticos e que contribuem para o seu afundamento, à medida que o tempo passa e se acentua o desenquadramento com a realidade.
Chegamos, assim, a uma Igreja que avança a duas velocidades. De um lado, a Igreja do Evangelho: viva, atual, capaz de iluminar o presente e de oferecer respostas para o futuro. Do outro, uma Igreja que tenta controlar consciências, guiada por grupos que se colocam num patamar moral superior e que se julgam guardiões exclusivos da verdade com base nas suas crenças e preceitos paralelos. Esta tensão não é apenas institucional; é uma tensão espiritual e pastoral. Revela o conflito entre uma fé que liberta e uma estrutura que, por vezes, aprisiona. E é precisamente neste ponto que a sinodalidade se torna urgente, não apenas como método, mas como um apelo à coragem da disrupção dialogante, isto é, à coragem de um compromisso comum com a renovação, que recentra a Igreja no essencial: o reconhecimento da dignidade de todos e a coragem de se deixar transformar para responder aos tempos atuais com autenticidade.
A disrupção dialogante exige mudança de mentalidades e, por isso, é especialmente exigente com quem viveu desde sempre conformado com o status quo. Mas a vida em comunidade é assim mesmo. Traz consigo a abertura à capacidade de acolher a diversidade como riqueza e não como ameaça. Aliás, diga-se de passagem, o Evangelho nunca nos mostra o próximo como ameaça, mas sim como aquele a quem Deus habita. Não poderá nunca ser de outra forma. É, por isso, um processo que nos obriga a abandonar a lógica do ‘sempre se fez assim’, que coloca os batizados como meros espectadores do que se decide nas hierarquias, e nos convida a recuperar a frescura do “e vós, quem dizeis que Eu sou?”, onde cada pessoa encontra ativamente lugar, voz e missão na forma como experiência Deus na sua vida. Só assim a Igreja poderá “ser sal e luz”. Só assim poderá manter a sua trajetória de credibilidade e ser sinal de esperança num mundo marcado pela fragmentação e pela sede de sentido. Se não damos testemunho deste princípio humanista basilar, como pretendemos ser exemplo cívico para quem quer que seja?
Um Feliz 2026 a todos, mesmo àqueles que, dizendo-se crentes, ainda insistem em ver o próximo como ameaça e não como aquele a quem Deus habita. Se há pedidos a fazer e votos a desejar para este novo ano, que o do Humanismo seja um deles.
Filipe Moisés é engenheiro do ambiente pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Atualmente, é estudante de doutoramento e investigador na mesma faculdade, no Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente, Biotecnologia e Energia (LEPABE).
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