O vice-presidente dos Estados Unidos, católico confesso, postou na rede social X, em 31 de janeiro de 2025, uma mensagem em defesa da atual política migratória do seu país: “Basta pesquisar ‘ordo amoris’ no Google. Além disso, a ideia de que não existe uma hierarquia de obrigações viola o bom senso básico” (tradução nossa). Ora, a hierarquia que ele refere é expressa nos seguintes termos: “Há um conceito cristão em que a prioridade é que tu ames a tua família, depois o teu vizinho, depois a tua comunidade, depois os teus concidadãos e, só então, o resto do mundo” (tradução nossa). Dias depois, na extraordinária carta aos bispos estadunidenses, J.D. Vance receberia uma resposta clara do Papa Francisco: “O verdadeiro ordo amoris que é preciso promover é o que descobrimos meditando constantemente na parábola do ‘bom samaritano’ (cf. Lucas 10, 25-37), isto é, meditando no amor que constrói uma fraternidade aberta a todos sem exceção” (10 de fevereiro de 2025).
A doutrina do ordo amoris é atribuída a Santo Agostinho, tendo sido depois retomada e desenvolvida por São Tomás, na Suma de Teologia. Nas suas mensagens, é possível que o vice-presidente J.D. Vance estivesse a fazer referência a duas passagens do bispo de Hipona: no livro Sobre a Doutrina Cristã, Santo Agostinho diz que todos se devem amar igualmente, mas, quando não se pode socorrer a todos, se deve olhar “para o bem daqueles que, conforme as circunstâncias de lugares e tempos de cada coisa, se encontram mais unidos a ti como por uma espécie de sorte” (I, 28, 29); e, na Cidade de Deus, quando afirma que os antepassados, no tocante aos bens temporais, distinguiam os filhos dos escravos (XIX, 16). No entanto, quando ele define o amor ordenado, num e noutro livro, sublinha sempre ou a primazia de Deus (Cidade de Deus, XV, 22), ou de Deus e do próximo (Sobre a Doutrina Cristã, I, 23, 22 a 29, 30), e fica claro, no último caso, que no amor ao próximo não há quaisquer exceções, são mesmo todos!
O amor como critério

‘O Papa Bento XVI, na sua encíclica Deus caritas est (2005), recordava que Jesus, ao contar a parábola do Bom Samaritano, revolucionou o conceito de “próximo” (…)’ Foto © Vatican Media.
Aquilo que o Papa veio reafirmar na sua carta aos bispos estadunidenses é algo constitutivo da doutrina social da Igreja mais recente. O Papa Bento XVI, na sua encíclica Deus caritas est (2005), recordava que Jesus, ao contar a parábola do Bom Samaritano, revolucionou o conceito de “próximo”: até então, o conceito era referido aos concidadãos e aos estrangeiros já estabelecidos em Israel/Judá, ou seja, “à comunidade solidária de um país e de um povo” (DCE, n.º 15); na parábola, porém, Jesus abole todos os limites, o próximo é qualquer um que necessite de mim/de ti/de nós. O conceito, diz ainda o Papa Bento XVI, “universaliza-se, sem deixar de ser concreto”. E mais: “o amor torna-se o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade de uma vida humana” (ibidem). Ora, o amor, assim entendido, é o fundamento para uma verdadeira fraternidade universal (cf. DCE, n.º 25). Precisamente, na encíclica Fratelli tutti (2020), o Papa Francisco retoma a mesma reflexão, para sublinhar a necessidade da construção de um novo vínculo social: “que a sociedade se oriente para a prossecução do bem comum e, a partir deste objetivo, reconstrua incessantemente a sua ordem política e social, o tecido das suas relações, o seu projeto humano” (FT, n.º 66). Fratelli tutti é uma encíclica social, e o Papa coloca o projeto humano no âmago da prossecução do bem comum: “Diante de tanta dor, à vista de tantas feridas, a única via de saída é ser como o bom samaritano” (FT, n.º 67).
Talvez já antevendo dificuldades na aceitação da sua proposta, o Papa alertava: “Todavia há crentes que pensam que a sua grandeza está na imposição das suas ideologias aos outros, ou na defesa violenta da verdade, ou em grandes demonstrações de força. Todos nós, crentes, devemos reconhecer isto: em primeiro lugar está o amor, o amor nunca deve ser colocado em risco, o maior perigo é não amar (cf. 1ª Carta aos Coríntios 13, 1-13)” (FT, n.º 92).
Talvez não baste pesquisar apenas no Google. E este problema não concerne apenas os Estados Unidos.
Porfírio Pinto é investigador no Centro de Estudos Globais da Universidade Aberta e participa na paróquia católica do Montijo.










