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A fraternidade na Igreja Católica

A fraternidade na Igreja Católica

by | 3 Dez 19 | Entre Margens, Últimas

Não faz muito ou até mesmo nenhum sentido uma Igreja Católica densamente hierarquizada como ainda hoje a Igreja se apresenta. Muito pouca gente acredita nisso. O mundo despojou-se e os formalismos felizmente perderam terreno.

Mesmo que venham muitas explicações sobre essa necessidade, muito bem fundamentadas na Tradição, esforçadas a partir do Evangelho e pior ainda no seu «caráter sagrado», há cada vez mais gente que não acredita nessas explicações. Por isso, fica apenas o espetáculo e o entretenimento de uma Igreja que devia gastar-se totalmente ao serviço da vida e do mundo.

Bem vejo o esforço que muita gente faz para se justificar perante o mundo sobre a «investidura sagrada» que recebeu ou o quanto tem de «vontade de Deus» essa dádiva ou esse rebuçado eufemisticamente chamado de «serviço».

Os títulos honoríficos na Igreja não passam de anacronismos, muitas vezes ridículos, que alimentam vaidades, pois implicam ter que carregar vistosas vestimentas e muita gente gosta de mostrar-se com isso. Não fora saber-se que há sempre uma claque que os admira e os bajula à sua passagem. Tudo tão fora da simplicidade de Cristo, que «não tinha onde reclinar a cabeça». Por isso, tudo tão fora da simplicidade, da igualdade e humildade que se deseja para o mundo de hoje, para que este se livre dos perigos fascistas que promovem a intolerância religiosa, cultural e racial.

O arcebispo de Paris pronunciou uma frase lapidar que é bem reveladora da necessidade que temos de apresentar uma Igreja de irmãos, pronfundamente igualitária na dignidade e nas oportunidades. Disse assim Michel Aupetit, citado no La Croix: «Mais do que uma Igreja de títulos, precisamos de uma Igreja que serve. Mais do que padres com títulos, precisamos de servidores e de pessoas disponíveis. Os títulos só desmobilizam, dividem e afastam, não fazem crescer. Só dos ministros que servem e não se servem é que a Igreja necessita. Os títulos são vaidades de egos pueris. Os servidores fazem crescer a semente do Evangelho.»

O exemplo da fraternidade devia vir da Igreja. O tempo urge para que o gelo do machismo que a congela em pedra de anacronismo devia ser derretido e deixar-se aquecer com o calor da fraternidade onde cabem homens e mulheres em igualdade de circunstâncias. Uma Igreja-Evangelho só pode ser de irmãs e irmãos, este foi o sonho de Jesus e devia também hoje ser a nossa principal tarefa nos caminhos da evangelização.

O machismo que a hierarquia católica ainda propala com os títulos honoríficos para alguns não entra nos cérebros do nosso tempo. Os jovens de hoje são livres, despojados e totalmente desprendidos de formalismos. As roupas que ostentam são bem um sintoma dessa simplicidade e todos os outros ornamentos que colocam sobre os seus corpos são sinais identificativos de proximidade, nunca estandarizados, mas sempre cheios de novidade. Tristemente não percebemos esse pulsar e obviamente que esse não querer ver prejudica a Igreja e remete-a para as calendas do passado, falando sempre para si mesma e para os mesmos…

Os cargos que implicam títulos na Igreja muitas vezes não selecionam os melhores nem muito menos os mais competentes. Por isso, muitas vezes temos pessoas com altas responsabilidades, mas vazias, sem a mínima sensibilidade para compreender a realidade e capacidade para se adapterem aos contextos. As importâncias fazem-nos juízos ou funcionários frios da «alfandega da fé».

Neste sentido, importaria muito que a Igreja se detivesse em encontrar verdadeiros servidores e gente solta, íntegra e limpa nas ideias e com consciência apuradíssima quanto ao valor do serviço, essa luz essencial que proclama o Evangelho de Jesus de Nazaré.

 

José Luís Rodrigues é padre católico da diocese do Funchal e autor do blogue O Banquete da Palavra.

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