Há momentos na história em que o mundo parece entrar num crepúsculo. Não um colapso repentino, mas uma acumulação de sinais: guerras que se multiplicam, fronteiras que se fecham, sociedades que se dividem. Vivemos um desses momentos.
Neste instante, estamos envolvidos em dezenas de conflitos armados ativos. Leva uma semana de duração a Guerra dos EUA e Israel contra o Irão. A guerra entre Rússia e Ucrânia prolonga-se no coração da Europa. No Sudão, duas facções militares disputam o poder num confronto brutal. No Myanmar, a guerra civil fragmenta o país. No Iémen, na Etiópia, na Síria e em várias regiões de África, combates persistem muitas vezes longe da atenção internacional. O Paquistão está em guerra com o Afeganistão.

Cemitério das 175 alunas mortas pelo bombardeamento norte-americano da Escola Preparatória de Minab, em Teerão. Foto © Iranian Foreign Media Department/WANA
Ao mesmo tempo, o mundo está cada vez mais cheio de barreiras físicas. Em 1989, quando caiu o Muro de Berlim, existiam 16 muros fronteiriços no planeta. Hoje há mais de 65 barreiras e muros internacionais, erguidos para travar migrações, terrorismo ou rivalidades territoriais. Aquilo que parecia ser o início de uma era de abertura acabou por produzir o inverso: um mundo cada vez mais compartimentado.
Em 1989, a Queda do Muro de Berlim pareceu encerrar um capítulo da história. O liberalismo ocidental tinha vencido. Muitos pensaram que era o verdadeiro “fim da história”: a democracia liberal tornar-se-ia o destino natural de todos os países.
Em 2026 o mundo está cheio de movimentos antiliberais, fronteiras reforçadas e tensões políticas. A pergunta inevitável é simples: como é que uma vitória que parecia tão definitiva acabou por produzir tanta contestação?
No início dos anos 1990, o otimismo era enorme. Imaginava-se algo parecido com a história de Pigmalião: a aluna aprende com o mestre e transforma-se numa versão refinada do modelo. O mundo deveria tornar-se uma cópia bem-sucedida do Ocidente.
A realidade acabou por parecer mais próxima da história de Frankenstein. A criatura percebe que é apenas uma imitação imperfeita e revolta-se contra o criador. Esta metáfora resume bem a dúvida que surgiu nas últimas décadas: e se a premissa central da ordem pós-Guerra Fria estivesse errada desde o início?
O problema, como argumentam Ivan Krastev e Stephen Holmes, no seu livro de 2020, não foi o liberalismo em si. O problema foi o imperativo da imitação, denunciado por René Girard. Depois de 1989 instalou-se a ideia de que todos os países tinham de copiar o modelo ocidental para serem considerados “normais”.
Essa pressão criou ressentimento. Em vários países surgiu a sensação de viver como imitadores culturais dentro da própria casa. A historiadora húngara Maria Schmidt exprimiu bem esse sentimento: muitos passaram a dizer simplesmente “não queremos ser uma cópia”.
Aqui surge uma distinção importante. A China escolheu recolher e roubar técnicas – tecnologia, investimento, crescimento económico – mantendo a sua identidade política. A China é uma superpotência que compete por tecnologia, recursos e influência global. Mas, ao contrário do Ocidente nos anos 1990, não exige que outros países se tornem cópias do seu sistema político.
Líderes populistas souberam explorar esse mal-estar. Na Hungria, Viktor Orbán construiu grande parte do seu discurso prometendo uma identidade nacional autêntica e rejeitar a tutela de União Europeia.
A reação da Rússia seguiu o mesmo caminho. Nos anos 1990 tentou parecer uma democracia para aliviar pressões externas. Depois, sob Vladimir Putin, passou para a estratégia do “espelhamento” hostil. O que significa isso? Basicamente, imitar os comportamentos criticados no adversário para expor a sua hipocrisia. Um exemplo foi a interferência russa nas eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2016. O objetivo não era apenas influenciar o resultado, mas mostrar aos americanos como é sofrer interferência externa.
A reação mais paradoxal surgiu no próprio modelo: os Estados Unidos. Muitos americanos começaram a temer que os imitadores estivessem a tornar-se demasiado fortes. Rivais como a China ou fluxos migratórios passaram a ser vistos como ameaça.
Esse medo foi explorado por Donald Trump. A sua mensagem central era simples: a globalização liderada pelos próprios Estados Unidos prejudicou a América. Empregos, tecnologia e indústria estariam a ser apropriados pelos imitadores. E o liberalismo em Trump veio a ser contaminado pelo fundamentalismo dos evangélicos
O paradoxo é evidente: o modelo passou a sentir-se vítima do seu próprio sucesso.
Estas três reações – ressentimento na Europa de Leste, confrontação estratégica da Rússia e ansiedade interna nos Estados Unidos – mostram o esgotamento do mundo unipolar que surgiu depois de 1989.
Por isso, muitos analistas consideram que a era da imitação terminou. A competição internacional já não gira em torno de um único modelo universal. O mundo tornou-se novamente plural: várias potências, várias formas de organização política, vários caminhos possíveis.
Fica uma pergunta: se já não existe um modelo liberal único a imitar, como reforçar politicamente a democracia com o respeito cada vez maior pela individualidade humana?
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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