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As pinturas murais da Capela do Senhor da Fraga, em Castro Vicente, Mogadouro. Foto © DR

Associação de Municípios

A Rota da Pintura Mural irá estender-se pelo Baixo Sabor

| 08/04/2024

As pinturas murais da Capela do Senhor da Fraga, em Castro Vicente, Mogadouro. Foto © DR

As pinturas murais da Capela do Senhor da Fraga, em Castro Vicente, Mogadouro. Foto: Direitos reservados

 

A História a Fresco – Rota da Pintura Mural é o mais recente projeto de cariz cultural da Associação de Municípios do Baixo Sabor. Envolve quatro municípios, Alfândega da Fé, Macedo de Cavaleiros, Mogadouro e Torre de Moncorvo e contempla 23 igrejas e capelas do território dos Lagos do Sabor com pintura mural a fresco dos séculos XVI e XVII. As obras já estão concluídas, faltando alinhavar um ou outro pormenor.

Esta é a primeira vez em Portugal que um projeto supramunicipal consegue ter toda a pintura mural a fresco conhecida totalmente recuperada, cuidada e visitável, o que o torna diferenciador na “aposta cultural do território”, refere ao 7MONTES Lília Pereira da Silva, 45 anos, licenciada em história da arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e técnica superior do património da Associação de Municípios do Baixo Sabor.

O contexto para avançar tem que ver com o “plano estratégico e a visão dos quatro municípios para o território dos Lagos do Sabor, aliado à oportunidade proporcionada pelos fundos do Portugal 2020”, destaca Eduardo Tavares, 48 anos, bacharel em gestão agrícola e presidente da Câmara Municipal de Alfândega da Fé.

Eduardo refere ainda que a historicidade, a preservação da cultura e as tradições podem ser muito importantes para criar os “alicerces” e reforçar a “identidade” do território. “Conseguindo esses objetivos, poderá haver maior capacidade de retenção e atração de pessoas, combatendo o flagelo do despovoamento”, diz.

Alavancar o turismo cultural do território dando a conhecer, a quem visita, um ativo patrimonial secular que esteve, na sua grande maioria, durante os dois últimos séculos, oculto por estruturas retabulares ou por várias camadas de cal é uma das missões deste projeto.

“Assenta, sobretudo, numa matriz identitária, histórica e artística que importa salvaguardar, proteger, conservar, valorizar e divulgar”, acrescenta Lília.

Durante muito tempo, a história da arte e os estudiosos de pintura mural pensaram que as manifestações deste tipo de arte no território eram escassas, pontuais e até algo pobres. O trabalho levado a cabo pela Direção-Geral do Património Cultural, pela Diocese de Bragança-Miranda e pela Associação de Municípios do Baixo Sabor, permitiu perceber que a realidade era totalmente diferente.

 

O prazer da descoberta

Alguns desses murais encontravam-se degradados. Foto © DR

Alguns desses murais encontravam-se degradados. Foto: Direitos reservados

 

“Percebeu-se não só que existiam vários núcleos de pintura mural, como também ficou claro que, pela sua qualidade artística, era essencial recuperar, estudar e dar a conhecer ao público em geral estas manifestações artísticas”, continua Lília.

A maioria das pinturas encontrava-se num estado de conservação “semelhante entre si”.

Por um lado, devido ao facto de a sua técnica de execução ser comum – pintura a fresco executada sobre uma camada de reboco pouco espessa – e, por outro, pelas condições a que a maioria delas estavam sujeitas desde o seu abandono, escondidas atrás de retábulos de madeira e apresentando alguns danos.

“Boa parte das intervenções consistiu, sobretudo, na remoção mecânica das camadas de cal, de reboco ou de repintes que cobrem as pinturas, na consolidação e fixação do reboco ao suporte, na remoção das madeiras de fixação do retábulo, na limpeza e na reintegração cromática das lacunas da camada pictórica”, explica Lília.  Neste tipo de projetos “não há lugar para facilitismos”. Tudo é pensado ao pormenor, envolvendo equipas multidisciplinares com vários pontos de vista e várias sensibilidades.

“Há um prazer imenso na ‘descoberta’ e na pesquisa, pois, a maioria destas pinturas, têm entre 400 e 500 anos e estiveram ocultas durante os últimos 200. Estão agora, novamente, a ocupar o espaço e a função para que foram criadas, estamos verdadeiramente a ‘desenterrar’ a arte”, afirma Lília.

O processo de restauração, feito por equipas especializadas. Foto © DR

O processo de restauro, feito por equipas especializadas. Foto: Direitos reservados

 

Uma das principais dificuldades passou por explicar às comunidades a necessidade de desmontar os retábulos que estavam a tapar as pinturas murais a fresco. A maior parte da população não tinha sequer conhecimento de que as pinturas murais existiam, o que tornou a tarefa complicada. Mas, depois de muito trabalho e de várias reuniões com as comunidades, conseguiu-se um consenso sobre o potencial do projeto e, acima de tudo, foi entendido que as duas manifestações artísticas, retabulística e pintura mural, mesmo sobrepostas e desfasadas no tempo, podem coexistir sem desprimor de nenhuma.

A médio prazo, o objetivo é alargar a rota a todo o distrito de Bragança onde existem mais de 30 manifestações de pintura mural a fresco conhecidas. A longo prazo, pretende-se alargar a rota a toda a zona Norte de Portugal, onde se calcula existirem mais de 100 manifestações de pinturas murais a fresco dos séculos XV e XVI. Ainda a longo prazo a ambição é criar uma Rota Ibérica da História a Fresco incluindo Salamanca e Zamora, regiões já com muito trabalho feito nessa temática, quer de estudo, de preservação e de divulgação.

Mas, neste momento, o foco é outro: “Com a criação do Centro de Interpretação da Pintura Mural queremos congregar conhecimento e difundir a Rota da Pintura Mural, através de novas tecnologias intuitivas que proporcionem, ao visitante, uma experiência dinâmica sobre a pintura mural e o território. Assim, podemos explicar o que é a pintura mural, contar a sua história, decifrar os significados da arte cristã dos séculos XVI a XVIII, estudar gestos e símbolos iconográficos e visionar filmes sobre as intervenções de conservação e restauro das pinturas murais.”, termina Lília.

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