A vibração dos hindus em Fátima, numa tese universitária de Joaquim Franco

| 29 Out 19

Ramnical Dave, shastri (sacerdote) hindu do templo de Radha Krishna, em Telheiras (Lisboa), em 2004, na Capelinha das Aparições em Fátima. Imagem reproduzida da reportagem da SIC exibida na altura.

 

“Sempre que aqui venho, sinto uma vibração especial”, dizia em 2004 Ramnical Dave, o shastri (sacerdote) hindu do templo de Radha Krishna, em Telheiras (Lisboa), ao jornalista Joaquim Franco, referindo-se a Fátima. Esse foi um dos pontos de partida para o trabalho de mestrado sobre Devotos Improváveis – Hindus e muçulmanos numa visão de Fátima, defendido nesta segunda-feira, 28, na Universidade Lusófona, em Lisboa.

O percurso da investigação levou o jornalista da SIC, colaborador ocasional do 7MARGENS, a explorar a relação devocional de alguns hindus portugueses com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, recorrendo a trabalho de campo com testemunhos e pesquisas nos arquivos do santuário.

Não há uma interpretação única sobre a forma como estes devotos hindus vêem Fátima, conclui a investigação, podendo esta ser a presença de um elemento sagrado diante do qual fazem orações auspiciosas, uma força protectora a quem pedem auxílio, a “santíssima mãe” acima de todas as outras divindades femininas, ou uma presença de shakti – energia e poder que os hindus relacionam com a dimensão feminina. Para estes hindus, a fé e a forma como a devoção se concretiza é sobretudo pessoal – assim também sucede no caso de Fátima, sem qualquer compromisso da comunidade enquanto tal.

Para esses hindus, há ainda pormenores reveladores dessa “vibração”: a 30 de Julho de 1982, Morari Bapu, um guru indiano hindu de visita a Portugal, esteve em Fátima com outros hindus de Lisboa, deixando no livro de honra do santuário uma referência ao carácter “especial” do lugar, também na perspectiva hindu. Na mesma página, ficou inscrita a saudação de alguém com o apelido Vasco da Gama e também a assinatura de Madre Teresa de Calcutá. Na página anterior, está a de João Paulo II…

“Os hindus sentem ali uma presença indiscutível do sagrado”, concluiu o jornalista na sua investigação académica. Entendem que, tal como Brahman – Deus –, a “santíssima mãe” está acima de todas as representações, é “o poder de Deus”, a “energia que faz a nossa alma funcionar”.

Como muitos hindus se preocupam mais com a experiência vivenciada e a linguagem do sensível do que com a dimensão teológica, notou o jornalista e investigador, acabam por inculturar também “valores religiosos do país de acolhimento, como este símbolo mariano, dando-lhes um novo sentido” que não passa necessariamente pela conversão, mas atua também como mecanismo de integração e legitimação religiosa.

Defesa da tese de mestrado de Joaquim Franco na Universidade Lusófona, em 28 de Outubro de 2019, sobre a relação dos hindus com Fátima. Foto © António Marujo

 

Joaquim Franco verificou assim, como hipóteses de interpretação desta devoção hindu, que “o simbólico sagrado feminino hindu pode convergir com sistemas simbólicos da devoção mariana em Fátima” e o modo como a “multiculturalidade em liberdade religiosa potencia também adopções simbólicas e implicações sincréticas na experiência religiosa concreta, emotiva e sensível”.

O investigador entende que há novas possibilidades de diálogo entre religiões a partir da “transversalidade da experiência religiosa” proporcionada em Fátima, como devoção agregada à dimensão maternal, salvaguardando a identidade católica do espaço, e recorda os novos estatutos do santuário, aprovados pela Santa Sé, nos quais se pede o “acolhimento conveniente” de não-cristãos, evitando “ambiguidades”.

O júri foi presidido por José Brissos-Lino, director do mestrado em Ciência das Religiões da Lusófona. Os arguentes foram Eugénia Magalhães, presidente do Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização, Adelino Ascenso, padre e presidente dos Institutos Missionários Ad Gentes, José Eduardo Franco, co-orientador da dissertação, e Marco Daniel Duarte, director do Centro de Estudos do Santuário de Fátima, que destacou a importância, para a investigação, da abertura dos arquivos do santuário aos investigadores.

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