
Embora alguns canonistas usem a expressão “falso misticismo” em relação a casos de abuso, não há crime classificado como “falso misticismo” no Código de Direito Canónico, assinala o cardeal Victor Fernández. Foto © Vatican Media
O “abuso espiritual” poderá passar a ser um crime formalizado na lei da Igreja Católica, em vez de apenas uma circunstância agravante de outros crimes, como acontece até ao momento. Os dicastérios para a Doutrina da Fé (DDF) e dos Textos Legislativos (DTL), estão a constituir um grupo de trabalho que irá “analisar essa possibilidade e apresentar propostas concretas”, anunciou esta semana o Vaticano.
De acordo com uma nota assinada pelo prefeito do DDF, cardeal Víctor Manuel Fernández, e aprovada pelo Papa Francisco, o termo “falso misticismo” é atualmente uma “expressão excessivamente ampla e ambígua” que precisa de ser refinada em certos contextos da Igreja”.
O termo aparece nos regulamentos da DDF relacionados com “problemas e comportamentos ligados à disciplina da fé, como casos de pseudo-misticismo, supostas aparições, visões e mensagens atribuídas a uma origem sobrenatural”, assinala a mesma nota.
Neste contexto, diz Fernández, refere-se a “abordagens espirituais que prejudicam a harmonia da compreensão católica de Deus e o nosso relacionamento com o Senhor. É neste sentido que a expressão aparece no Magistério.”
A expressão surge ainda no documento de 2024 do dicastério, as Normas para proceder no discernimento de supostos fenómenos sobrenaturais, em que se especifica que “o uso de supostas experiências sobrenaturais ou de elementos místicos reconhecidos como meio ou pretexto para exercer domínio sobre pessoas ou para cometer abusos deve ser considerado de particular gravidade moral” (art. 16).
Mas embora alguns canonistas também usem a expressão “falso misticismo” em relação a casos de abuso, não há crime classificado como “falso misticismo” no Código de Direito Canónico, assinala Fernández.
O grupo, que será presidido pelo Prefeito do Dicastério para os Textos Legislativos (arcebispo Filippo Iannone), surge no momento em que cresce a lista de indivíduos acusados de atos de abuso que incorporam elementos de falsas experiências místicas e espirituais, incluindo casos proeminentes como o do padre esloveno Marko Rupnik, fundador do Centro Aletti, ou de Luis Fernando Figari, fundador do Sociedade de Vida Apostólica Sodalitium Christianae Vitae, mais comumente conhecida como Sodalício de Vida Cristã (SVC), sediada no Peru.









