
“O Papa Francisco, nesta sua preocupação constante de “uma Igreja pobre e para os pobres”, frequentemente, apela a que a relação com eles seja mais interpessoal e socorrendo-se, mais uma vez, do Livro de Tobite pede-nos que esse relacionamento no agir seja «com e pelos pobres».” Foto Daniel Zgombic
São muitíssimo diferentes as causas que estão na origem das condições em que vivem as pessoas em situação de pobreza. Já não é suficiente o critério dos três “Ds” – desemprego, divórcio e doença. Na verdade, não é bem assim. Basta vermos que 1/3 dos trabalhadores vivem no limiar da pobreza e o crescente número de famílias monoparentais, que não resultam de divórcios, assim como o risco em que se encontram os grandes agregados familiares e, ainda a baixa escolaridade de muitos portugueses. Estou convencido de que a taxa de pobreza no nosso país, hoje, ultrapassa os 20%, devido a causas, mesmo que nos atinjam indiretamente, e que o próprio Papa Francisco identifica no número 7 da sua Mensagem para o Dia Mundial dos Pobres deste ano (que se assinala no próximo dia 19):
«Mais uma vez, infelizmente, temos de constatar novas formas de pobreza que se vêm juntar às outras descritas já anteriormente. Penso de modo particular nas populações que vivem em cenários de guerra, especialmente nas crianças privadas dum presente sereno e dum futuro digno. (…) Não posso esquecer as especulações, em vários setores, que levam a um aumento dramático dos preços, deixando muitas famílias numa indigência ainda maior. Os salários esgotam-se rapidamente, forçando a privações que atentam contra a dignidade de cada pessoa. Se, numa família, se tem de escolher entre o alimento para se nutrir e os remédios para se curar, então deve fazer-se ouvir a voz de quem clama pelo direito a ambos os bens, em nome da dignidade da pessoa humana.
Além disso, como não assinalar a desordem ética que marca o mundo do trabalho? O tratamento desumano reservado a muitos trabalhadores e trabalhadoras; a remuneração não equivalente ao trabalho realizado; o flagelo da precariedade; as demasiadas vítimas de incidentes, devidos muitas vezes à mentalidade que privilegia o lucro imediato em detrimento da segurança…».
Mesmo assim, no número seguinte o Papa, considerando dramática esta situação, não deixa de chamar a atenção que se tratam «apenas de modo parcial das situações de pobreza que fazem parte da nossa vida diária.». E passa a referir-se a um problema que também afeta o nosso luso território que está relacionado com a pobreza juvenil.
Na verdade, 25% dos jovens portugueses vivem no limiar da pobreza. Mas, Francisco avisa-nos que: «É fácil cair na retórica, quando se fala dos pobres. Tentação insidiosa é também parar nas estatísticas e nos números. Os pobres são pessoas, têm rosto, uma história, coração e alma. São irmãos e irmãs com os seus valores e defeitos, como todos, e é importante estabelecer uma relação pessoal com cada um deles.»
Estou totalmente de acordo com o Papa, até, porque há muitos dados estatísticos, dado que são publicados com indicadores que podem já estar desatualizados ou partem de pressupostos diferentes. Mas, mesmo assim, não deixam de ser importantes, pois só assim se conseguem incomodar os poderes instituídos e sensibilizar os que andam mais distraídos destas funestas realidades. Sempre insisti, e torno a fazê-lo, que é a deceção que sinto ao saber que a Igreja, a partir dos grupos paroquiais de ação social (vicentinos, cáritas paroquiais, …) ou das suas instituições sociais têm na sua posse dados, que disponibilizados, tratados e difundidos, seriam uma fonte mais credível, mais atempada e realista da pobreza em Portugal. Não seria difícil. Foram até criados instrumentos para tornar isso possível. Mas há resistências, porque continuamos a confundir esta divulgação com a publicidade do que fazemos, ou seja, a não cumprir o preceito evangélico de “que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita» (Mt 6, 3).
Não me parece que esteja em causa este pedido de Jesus, porque todas as informações seriam anonimizadas e, pelo contrário, por vezes, este preceito é violado nos procedimentos sobranceiros na relação pessoal com o pobre ou na divulgação “boca-a-boca”, do que damos. Estou convencido de que, prestaríamos um bom serviço aos pobres se denunciássemos as causas que os levaram para a situação em que se encontram e o modo indigno como vivem.
O Papa Francisco, nesta sua preocupação constante de “uma Igreja pobre e para os pobres”, frequentemente, apela a que a relação com eles seja mais interpessoal e socorrendo-se, mais uma vez, do Livro de Tobite pede-nos que esse relacionamento no agir seja «com e pelos pobres». Eis o grande desafio que se coloca à nossa Pastoral Social. Não é fácil, mas não é impossível, se formos capazes de sermos criativos e tentarmos, progressivamente, ir pondo em prática determinados procedimentos e iniciativas que façam das pessoas em situação de pobreza protagonistas da sua própria mudança.
Podem-me considerar um sonhador ou até mesmo um utópico. Chamo a atenção que esta metodologia não é uma novidade para a Igreja, nem mesmo para a que está em Portugal. Há evidências disso. Não as identifico para não correr o risco de me esquecer de alguma. O agir com os pobres e por eles, para o Papa: «É uma questão de justiça que nos obriga a todos a procurar-nos e encontrar-nos reciprocamente, favorecendo a harmonia necessária para que uma comunidade se possa identificar como tal. Portanto, interessar-se pelos pobres não se esgota em esmolas apressadas; pede para restabelecer as justas relações interpessoais que foram afetadas pela pobreza. Assim «não afastar o olhar do pobre» leva a obter os benefícios da misericórdia, da caridade que dá sentido e valor a toda a vida cristã.». Temos que deixar de fazer mais vezes a pergunta: “De que precisas” e passar para “Que é que ambos podemos fazer?”.
É óbvio que há muitas situações que, dadas as circunstâncias institucionais em que estamos, teremos de fazer mediações, apelando a terceiros que entrem também na (re)construção dos projetos de vida das pessoas com quem fazemos esse caminho. Já me referi, no último texto, socorrendo-me da recomendação de Bergoglio, à necessidade da corresponsabilização. Agora, damos um passo mais e pede-nos que se concretizem relações interpessoais. Como gostaria de ver nas nossas paróquias ou instituições sociais canónicas a criação de grupos de “Entreajuda para a Erradicação da Pobreza”, constituídos por pessoas que já passaram por esse flagelo, ou não, e por outras que o vivem e estão motivadas a libertarem-se dele. Nunca esqueçamos: nenhum ser humano é desprovido de alguma capacidade. Seria uma injustiça divina. Compete-nos não enterrar os talentos, mesmo poucos, de quem nos procura, mas potenciá-los. Assim, se manifestarão «os benefícios da misericórdia, da caridade que dá sentido e valor a toda a vida cristã.»
Eugénio Fonseca










