“Ágora”: Inquietação de Deus, poesia que emerge da arte

| 9 Abr 20

There is only one answer to destructiveness and that is creativity

(Sylvia Ashton-Warner)[1]

Ágora, o novo livro de poemas de Ana Luísa Amaral, é uma combinação da bela poesia que lhe conhecemos com imagens de obras de arte. Melhor diria, são poemas que emergem da contemplação de obras de arte. Ana Luísa Amaral oferece-nos num lindíssimo livro um conjunto de poemas que falam de uma “inquietação de Deus”, que pressinto desde sempre em toda a sua poesia. Visitando algumas obras de arte, deixa-se possuir por elas. Um livro magnífico da editora Assírio e Alvim.

Vivemos um tempo de destruição, sobretudo dos parâmetros em que nos habituámos a ser e ter.  Vivida esta sucessão de “quarentenas” que não sabemos por quanto tempo se prolongará, alimentamo-nos da esperança que qualquer obra de arte representa: a possibilidade de reinventar o mundo. Ler e contemplar este livro de poesia pode ser um momento único e um bálsamo para os tempos que estamos a viver.

Da contracapa do livro, retiro o fragmento de um poema que sugere o que vivemos em dias de covid-19:

(…) E o oriente lhe foi destinado:

terra de mil castigos

de difíceis colheitas; mais

suor

Só depois descobriu

que lá o sol nascia

e que podia falar das coisas

todas (…)

 

Partilho a mensagem que recebi de um bom amigo:

No Carnaval, uns amigos (…) ofereceram-me “Ágora” de Ana Luísa Amaral. Uma edição fabulosa! Lembrei-me logo de si, porque já me ofereceu um livro dela (…). Este livro só pode ser de uma mulher de fé .

Tem razão o meu amigo. Ana Luísa Amaral é uma mulher de fé. Ela vive e acredita no “para além de”, ela propõe a sua imensa criatividade em alternativa à destruição e à morte. Ana Luísa Amaral possui uma inquietação de mulher-mística.

No passado mês de novembro estive presente no lançamento do livro. Lídia Jorge fez a apresentação. Afirmou nessa ocasião, citando Luis Garcia Montero: “A escrita poética deve conviver com a dor; o mau poema suja o mundo”. Ana Luísa Amaral escreve, desde sempre, belos poemas. É considerada uma das grandes poetas da língua portuguesa. Segundo Lídia Jorge, neste livro, “Ana Luísa Amaral cria fábulas contemporâneas sobre as fábulas antigas”. No final da sua apresentação Lídia Jorge propôs um novo título para o livro: “Praça da Misericórdia”. Sim, trata-se de um livro sobre a misericórdia. No entanto, pessoalmente, prefiro a largueza da Ágora (a praça pública, lugar de reunião, o espaço livre), onde há tempo e lugar para tudo. Ágora como simbólica dos braços abertos que acolhem, onde a misericórdia – com a benevolência, o perdão e a bondade – se inscreve.

O que me pareceu surpreendentemente belo é que, ao contemplar reproduções de quadros, mosaicos ou gravuras que se estendem do século VI (ou mesmo do século III antes de Cristo) ao século XIX, Ana Luísa Amaral apresenta-nos poemas que, partindo do passado, abordam o presente de uma forma compassiva e… derramam o futuro, aquilo que pode ser, o fruto do nosso desejo.

As mulheres da Bíblia, numa poesia claramente escrita “no feminino”, estão presentes: Maria, mãe de Jesus mas, também, Eva, Salomé, Naomi, Rute, Verónica, Maria Madalena, a mulher de Lot transformada em estátua, a mulher adúltera, etc. Nos poemas aparecem como mulheres fortes, contraditórias e complexas. Vejam-se os três poemas à volta da figura de Salomé – “e deu-me/ uma tristeza assim/partida a meio” ou “dizem luxúria só/onde houve amor/e um crime tão enorme de luxúria:/ mas eu quis-te indefeso/ como festa (…)”: Herodíades e Salomé são apresentadas nos seus pensamentos contraditórios e ambíguos diante da figura de João Baptista.

Detenho-me em seis poemas que se me tornaram especialmente próximos porque incidem em quadros de pintores de que gosto muito.

Em Caravaggio, “A ceia de Emaús”, com tonalidades de claro-escuro, faz sobressair a luminosidade dos versos de Ana Luísa Amaral:

Caravaggio, A Ceia de Emaús

(…) Tenho a mão soerguida

e o dedo em paciente e costumeiro gesto,

esse com que me vestem

tantas vezes.

(…) Como fui visto

sem ser visto eu?

(…) Ah, poder despir-me

dos meus trajes

aqueles que em divino me transformam

e comer só o pão, em fome e paz,

encaixilhado à luz

deste retrato –

Cristo Ressuscitado aparece aos discípulos de Emaús (Lucas 24, 13-35) reavivando-lhes a história da Salvação. Estes reconhecem-no pelo partir do pão. Mas, nas palavras de Ana Luísa Amaral, trata-se de um Cristo simples que apenas deseja comer o pão “em fome e paz”, mas um Cristo que tem a consciência da missão divina de ser Mestre até ao fim dos tempos. Esta necessidade tão simples de pão e paz lembra um Cristo cansado que não tinha onde repousar a sua cabeça (Mateus 8, 20).

O quadro de Madalena penitente pintado por Georges La Tour, aparece também num claro-escuro em que o centro é a chama de uma vela refletida num espelho. Maria Madalena, numa postura discreta, contempla o reflexo da vela no espelho. A sua silhueta, na zona escura do quadro, tem uma caveira ao colo na qual pousam serenamente as suas mãos cruzadas. Ana Luísa Amaral diz apenas, em jeito de um haiku japonês:

Georges la Tour, Madalena Penitente.

ainda assim,

tentar

rectificar

o sol:

um agasalho interno

para o coração

Contemplamos também, pela mão de Ana Luísa Amaral, Verónica, a figura da mulher compassiva que “é uma lenda/ que não cumpre as histórias/ eleitas para o Livro”. Gosto de lhe chamar santa, Santa Verónica, aquela que teve compaixão pelo sofrimento de Cristo na subida para o Calvário: o quadro de Hans Memling mostra uma Verónica em espanto, mas reverente e ajoelhada, segurando o véu onde Cristo deixou inscrita a sua face dolorosa. Sobre este gesto espontâneo de profunda misericórdia diz Ana Luísa Amaral:

Hans Memlin, Santa Verónica

(…) A minha arca

era pequena, tinha perfume de sândalo

e incenso, dela tirei o lenço

e enrolei-o em mim, e fui –

Fui pelo meio

à multidão gritante, e vi-O ali, de encontro

à exaustão e ao suor, à inquietação de alma

mais cruel

Outras mulheres nos viram e jurarão por mim:

que eu encostei o lenço à Sua face,

e que ela ali ficou, a Sua face, impressa

como lei (…)

No final o poema afirma a veracidade deste gesto de uma mulher misericordiosa, infelizmente tornada apenas lenda pelos “donos da palavra” que escrevem o Livro em que frequentemente as mulheres estão ausentes:

 (…) e o seu rosto agora não era já o rosto

em espelho no meu véu

nem o rosto do deus dos justos e dos donos

da palavra, mas o rosto de todos os

que habitam os restos

e o rasto da justiça

Todos somos então esse rosto.

Os segundo e terceiro poemas do livro referem-se à Anunciação de Maria. O quadro de Gerard David (1500) aparece a duas vozes: a voz de Maria e a voz do Anjo dialogando entre si em dois distintos poemas:

Gérard David, Anunciação (pormenor).

Eu? ela perguntou

Mas diz-me como

se trago sobre mim

pano de linho

tingido de mil céus

(…) Mas sobretudo

se não ecoa em mim

o nome que me dás

nem o meu sim

ressoa

em nitidez de sino?

Mas o Anjo Gabriel interpela uma Maria estupefacta:

Tu! disse a voz sem tom (…)

Olha os meus dedos:

não sou eu que peço:

é Ele

que te ordena

O eco que não sentes:

nada vale,

resta-te só dizer

em mim se faça (…)

Gérard David, Anunciação (pormenor).

 

Maria só pode dizer sim ao convite de Deus. A voz sem tom assim a interpela. Mas conhecemos sobejamente o cântico de Maria quando visita sua prima Santa Isabel, o Magnificat que representa a sua total aceitação (Lucas 1, 46-65).

Estas notas bem pessoais que escrevi ao reler Ágora são apenas um aperitivo para quem me ler. Para entendermos a dimensão artística e mística deste livro há que o ler do princípio ao fim e do fim para o princípio, há que contemplar as imagens e saborear vagarosamente todos poemas e cada poema.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior (aposentada), participante do Movimento do Graal; t.m.vasconcelos49@gmail.com

Nota

[1]  Só existe uma resposta para a destruição e essa resposta é a criatividade. Sylvia Ashton-Werner (1908-1984) foi uma das fundadoras do Movimento de Educação pela Arte na Nova Zelândia e tornou-se conhecida mundialmente pelo trabalho desenvolvido com crianças mahori.

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