A nova “Comunhão Anglicana Global” (GAC, na sigla inglesa), implantada predominantemente na África subsariana, propõe-se ser o grande movimento reformador de natureza conservadora do Anglicanismo, ao reafirmar a rutura com os quatro instrumentos da unidade da Comunhão Anglicana fiel ao arcebispado de Cantuária. Não se trata, porém, segundo alguns observadores, de um corte radical que possa ser considerado um cisma.
O documento “Afirmação de Abuja”, a cidade nigeriana onde decorreu na última semana o G26, sigla da Conferência do ex-Gafcon (Global Anglican Future Conference, no original em inglês), é perentório: “Rejeitamos os chamados Instrumentos de Comunhão, a saber, o Arcebispo de Cantuária, a Conferência de Lambeth, o Conselho Consultivo Anglicano (ACC) e a Reunião dos Primazes.”
As razões para o movimento saltar fora das instituições que sustêm a tradicional Comunhão Anglicana são várias, mas resumem-se na convicção de que a liderança dos Instrumentos de Comunhão de Cantuária falhou ao não exercer disciplina, ao não manter o testemunho bíblico e não defender a doutrina anglicana fundamental.
“Em vez disso, enfatiza a Afirmação de Abuja, esses Instrumentos procuram manter uma comunhão institucional confusa, baseada na ficção de caminhar juntos com aqueles que se estão a afastar da verdade do evangelho e dos ensinamentos de Jesus”.
Este movimento, até agora designado Gafcon (Global Anglican Future Conference), afirma ter apelado, ao longo de mais de duas décadas, às lideranças seniores da Comunhão Anglicana a que se arrependessem de terem “negado a fé ortodoxa em palavras e ações”.
Explicitando a respetiva posição, observam ainda: essas lideranças quiseram “normalizar o pluralismo hermenêutico, exaltar a capitulação cultural e reformular a rejeição da autoridade e clareza das Escrituras como discordância boa e não como aquilo que realmente é: falso ensinamento”.
O documento passa, depois a enunciar pontos em que os diferentes Instrumentos da Unidade falharam. Denuncia os recentes arcebispos de Cantuária, referindo que Justin Welby acolheu favoravelmente a bênção de pessoas que contraíram matrimónio civil entre pessoas do mesmo sexo e que a recém-eleita arcebispa, Sarah Mullally, “liderou o projeto Vivendo em Amor e Fé”, que produziu recursos litúrgicos para essas bênçãos, na Igreja da Inglaterra. Insurge-se igualmente contra a Conferência de Lambeth por ter tratado o assunto das relações homossexuais como “uma questão sobre a qual os cristãos podiam discordar, mas permanecer em comunhão”.
“A verdadeira comunhão é confessional, e não definida por uma história compartilhada ou estruturas institucionais”, acentua, a dado passo, o texto, para tornar claro que a chamada Declaração de Jerusalém, de 2008, constitui, a par dos textos originais fundadores da Comunhão Anglicana, o documento de referência para a reforma que o movimento se propõe defender e promover, sendo a declaração de adesão a esse texto que exprime também a adesão à GAC.
Na sequência destas decisões, quando muitos setores conservadores que dão corpo ao movimento reformador esperavam a designação de um primaz como primeiro entre iguais (primus inter pares), em certa medida um homólogo da arcebispa de Cantuária, a decisão tomada foi diferente: em substituição do Conselho de Primazes da Gafcon foi criado o Conselho Anglicano Global.
Este órgão, constituído por primazes, conselheiros e garantidores (bispos, clero e leigos) como membros votantes, elege a sua presidência, “zelará e fortalecerá a fé dos anglicanos em todo o mundo”, reconhecerá e acolherá as províncias e dioceses existentes que desejarem participar da Comunhão Anglicana Global ou recém-formadas que buscarem reconhecimento como anglicanos globais.
Comprometida que se diz estar com a “ortodoxia anglicana”, a Comunhão Anglicana Global diz estar a “reformar a Comunhão Anglicana por dentro, deixando para trás os Instrumentos de Cantuária”. Salienta também que aqueles que se desvinculam desses Instrumentos “não são cismáticos”.
As próximas semanas e meses conhecerão certamente desenvolvimentos, a começar já, em 25 de março, pelo ato solene de início do ministério da arcebispa de Cantuária, eleita no último outono e nomeada pelo rei Carlos III.
Um dos Instrumentos da Unidade da Comunhão Anglicana, o seu Conselho Consultivo, promove de 27 de junho a 5 de julho próximo, em Belfast, uma reunião que contará com representantes de toda a Comunhão Anglicana (certamente não das dioceses que integrem o novo GAC), para debater as Propostas de Nairobi-Cairo, que visam renovar e reformar os Instrumentos de Comunhão.
O atual secretário geral da Comunhão Anglicana manifestava recentemente a esperança de que, com esses trabalhos, se possa ainda “procurar e encontrar concordância na Fé”, se bem que, cautelarmente, fosse dizendo ser preciso “cultivar a paciência e o amor quando os membros do Corpo precisam de se distanciar uns dos outros para melhor procurar e servir a verdade e a unidade”.










