As igrejas cristãs, o trumpismo e o assalto ao Capitólio (1)

| 9 Jan 21

O que se passou nesta semana, com o assalto planeado ou pelo menos induzido ao Congresso dos Estados Unidos, do ponto de vista da “invocação do nome de Deus” e da instrumentalização da fé para uma missão definida pelo ainda atual ocupante da Casa Branca? Uma análise do 7MARGENS que, numa segunda parte, procurará dar a conhecer diferentes leituras sobre os dramáticos acontecimentos por parte de algumas confissões e responsáveis religiosos. Recorrendo, basicamente, a trabalhos jornalísticos, confessionais ou não.

Marcha pró-Trump, antes da invasão do Capitólio. Foto: Direitos reservados

 

O cerco e tomada do Congresso dos Estados Unidos, o “santuário” da democracia do país, é reconhecidamente um ato da maior gravidade, incentivado explicitamente pelo Presidente Trump que preferiu fazer valer os seus interesses pessoais esquecendo o juramento que fez há quatro anos, de mão sobre a Bíblia, de servir o bem comum do povo e cumprir a constituição. Há certamente muita investigação a fazer sobre o que se passou e o seu significado. Mas há factos e sinais que nos ajudam nesta aproximação aos acontecimentos do Dia de Reis.

A marcha oriunda de diferentes pontos dos Estados Unidos foi organizada de modo a coincidir com a data da reunião das duas câmaras legislativas que se destina a certificar os votos do colégio eleitoral e reconhecer o Presidente e vice-Presidente eleitos, Joe Biden e Kamala Harris. Na verdade, tratava-se de um somatório de movimentações e de iniciativas (Maioria Silenciosa, Mulheres pró-Trump, a Marcha de Jericó, entre muitas outras), todas com o mesmo destino e o mesmo objetivo.

Trump e seus apoiantes conferiram-lhe uma missão de cunho quase religioso: “Salvar a América”. Acicatados pela contestação do Presidente aos resultados eleitorais, muitos marcharam para Washington no fim de semana para combater o que consideram “as instituições corruptas de governo”, rezando, ao mesmo tempo, para que Deus intervenha na eleição e se reponha o resultado que desejavam.

Um dos grupos de apoiantes radicais de Trump designou a iniciativa como a “Marcha de Jericó”, que incluía mesmo o ritual mágico de dar sete voltas ao quarteirão onde se encontra o edifício do Supremo Tribunal, no dia 5, e fazer a mesma coisa com o do Capitólio, no dia 6, seguindo o que diz o Livro de Josué (do Antigo Testamento), para simbolicamente limpar a corrupção. Um grupo de “patriotas, crentes e todos aqueles que desejam retomar a América” a viajar para Washington nesses dias para “derrubar a recente eleição presidencial”.

Várias outras organizações e grupos com e sem cunho religioso se fizeram representar, incluindo o célebre Proud Boys, que já em dezembro, numa iniciativa pró-Trump, tinha feito estragos em igrejas de Washignton, que consideraram pactuar com o movimento Black Lives Matter (“As vidas negras importam”). Voltaram, desta vez, para fazer reverter as coisas, de modo a assegurar que Trump, e não Biden, inaugurasse um segundo mandato, a 20 de janeiro.

A manifestação que culminou a Marcha teve lugar ao fim da manhã de quarta, dia 6, perto da Casa Branca. Trump oficiou, falando por mais de uma hora, não se cansando de estimular os seguidores a não ficarem quietos, a acreditarem nos vários senadores e mais de cem deputados de confiança que tinham no Congresso e amaldiçoando o vice-Presidente Pence, caso este não atirasse a toalha ao chão, na hora de validar os votos, na qualidade de presidente do Senado. O caminho apontado aos convocados não era, segundo Trump, ficar na Casa Branca, mas andar umas centenas de metros até ao Capitólio. O seu advogado Giuliani encarregou-se de espicaçar os manifestantes.

Entretanto, tornou-se público aquilo que Trump já sabia pelo menos desde a véspera: Mike Pence recusava-se a invalidar votos, por entender que tal ato extravasava as suas competências. Tornava-se, assim, óbvio, para que a Marcha não fosse em vão, que a multidão teria de ir fazer pressão em torno do órgão legislativo. O que se seguiu já deu a volta ao mundo, em imagens que deixaram toda a gente estarrecida, que mostram como são frágeis as democracias, inclusive as mais velhas.

Não foi apenas Trump que antes, durante e depois das eleições, criticou a narrativa da falsidade dos resultados eleitorais e do roubo dos votos e que propalou as histórias mais fantasiosas, que nunca foram confirmadas nos múltiplos pronunciamentos judiciais. De facto, diferentes media e confissões religiosas amplificaram e alimentaram até à exaustão as narrativas do Presidente, mesmo que contra toda a evidência dos factos. E fizeram-no destilando ódio, fazendo de Trump o exemplo e o arauto dos valores cristãos, acirrando as hostes e criando o caldo de onde, sem grande surpresa, surgiu a insurreição de 6 de janeiro.

É oportuno recordar aqui a intervenção de um arcebispo católico, escondido em parte incerta e inimigo figadal do Papa Francisco, que promoveu novenas e fez protestos de adesão à presidência de Trump e que voltou, nestes dias mais recentes, a entrar em ação.

Referimo-nos a Carlo Maria Viganò, aquele que foi até 2013, núncio do Vaticano nos Estados Unidos, e que quis deitar lama sobre o Papa acusando-o de encobrir abusos sexuais, nomeadamente do cardeal McCarrick. Viganò promoveu novenas de oração pela vitória de Trump e deu, no último domingo, dia 3, uma entrevista a Steve Bannon, em que lhe é atribuída a certeza – que ele não nega – de que “Deus quer a vitória de Trump” (assim mesmo, com o verbo no presente). Ele responde diplomaticamente, como que dando uma cobertura implícita aos que invadiram o Capitólio:

“Se os Estados Unidos perderem esta oportunidade, serão eliminados da história. Se permitirem a ideia de que o veredicto eleitoral dos cidadãos, expressão primeira da democracia, pode ser manipulado e frustrado, serão cúmplices da fraude e merecem a execração de todo o mundo, que vê a América como uma nação que conquistou e defendeu a sua liberdade”.

Mesmo que em versões menos fundamentalistas, muitos membros do clero instrumentalizaram a fé e o próprio nome de Deus e, desse modo, tornaram-se co-responsáveis pelo que veio a acontecer. E houve imagens em que se viam freiras, com os seus hábitos, embrulhadas em cachecóis com slogans pró-Trump, participando na manifestação. O National Catholic Reporter, que não esconde nem nunca escondeu de que lado está, entendeu, em editorial publicado no dia 7, “chamar os bois pelos nomes:

“Isso deve parar. Se a Igreja deseja viver de acordo com os ensinamentos do seu fundador e se deseja ser uma testemunha no campo da cultura, não pode e não deve fazer parte daquilo que aconteceu no Capitólio da nossa nação. Não deve haver um nacionalismo católico branco. E um movimento pró-vida que adota o nacionalismo branco não é um verdadeiro movimento pró-vida. Ponto.”

facilitar:

Fonte: Edison Research for the National Election Pool, um consórcio que junta ABC News, CBS News, MSNBC, CNN, Fox News e Associated Press. A sondagem é feita à boca das urnas, envolvendo 15.590 votantes, presencialmente ou por telefone (mais informação aqui).

 

Abolir as armas nucleares

Abolir as armas nucleares novidade

Dinâmicas colectivas mobilizadoras, pronunciamentos de líderes políticos, insistência nos apelos de dirigentes religiosos, são marcos que ajudam a explicar o facto de, a 7 de Julho de 2017, a Assembleia Geral da ONU ter adoptado, numa decisão histórica, o Tratado de Proibição das Armas Nucleares, votado por 122 países, com a ausência dos países detentores de armas nucleares, bem como dos membros da Aliança Atlântica.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Semana pela Unidade dos Cristãos: Aplicação disponibiliza orações em árabe novidade

Pela primeira vez, os cristãos de língua árabe podem acompanhar as orações e meditações bíblicas da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (que se assinala entre 18 e 25 de janeiro) no seu próprio idioma, graças à tradução assegurada pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), em parceria com o Conselho de Igrejas do Médio Oriente (MECC) e a aplicação bíblica You Version – The Bible App.

Diocese espanhola vende bens patrimoniais para ajudar os pobres

O arcebispo de Valencia (Espanha), cardeal Antonio Cañizares, anunciou a criação da fundação diocesana Pauperibus, através da qual a sua diocese irá vender bens patrimoniais próprios “para aliviar as necessidades dos mais pobres e vulneráveis”, acentuadas pela pandemia de covid-19.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Bispo Manuel Martins evocado nos 94 anos do seu nascimento novidade

Naquele que seria o dia do 94º aniversário do primeiro bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, um grupo coordenado por Eugénio Fonseca promove uma sessão de evocação e homenagem, durante a qual intervém Manuel Malheiros, da Liga Portuguesa dos Direitos Humanos/Civitas.  

Indonésia: Paróquias acolhem 15 mil desalojados após terramoto

Na sequência do violento terramoto que atingiu a Ilha de Sulawesi, na Indonésia, na noite de quinta para sexta-feira, dia 15, a Cáritas local criou um centro de emergência para apoio à população afetada, tendo acolhido em duas paróquias um total de 15 mil pessoas que ficaram sem casa. A Conferência Episcopal Italiana (católica) doou, por seu lado, 500 mil euros para ajudar as famílias mais atingidas.

“Pelo amor de Deus, enviem-nos oxigénio”, apela o arcebispo de Manaus

Com o aumento vertiginoso de casos de covid-19 no Estado do Amazonas (Brasil), particularmente na capital Manaus, e com as principais unidades de saúde já sem oxigénio disponível, o arcebispo da diocese, Leonardo Ulrich Steiner, gravou um vídeo apelando à solidariedade de todos. “Pelo amor de Deus, enviem-nos oxigénio”, pediu na mensagem divulgada esta sexta-feira, 15 de janeiro, pelo Vatican News, sublinhando que a região se encontra “num momento de pandemia, quase sem saída”, em que as pessoas estão a morrer “por falta de oxigénio, por falta de camas” nas unidades de cuidados intensivos.

Bangladesh: Incêndio em campo de refugiados rohingya deixa 3.500 sem casa

Um incêndio devastou esta quinta-feira, 14 de janeiro, o campo de refugiados da cidade portuária de Cox’s Bazar, no sul do Bangladesh, tendo destruído mais de 550 casas que abrigavam cerca de 3.500 pessoas da minoria rohingya. Não são conhecidas até ao momento quaisquer vítimas mortais ou feridos graves, mas este incidente “terá roubado a muitas famílias o abrigo e dignidade que lhes restava”, afirmou o diretor da ONG Save the Children no país, Onn van Manen.

Entre margens

“Re-samaritanização” na “Fratelli Tutti” novidade

O Papa Francisco entendeu por bem dedicar o segundo capítulo da encíclica Fratelli Tutti (FT) à parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37). E a maneira como aborda o tema permite-nos falar de “re-samaritanização”, por dois motivos: primeiro, porque vem recordar que este modelo tão antigo de caridade e de ação-intervenção social mantém plena atualidade; e, em segundo lugar, porque interpreta a parábola de maneira diferente da mais comum e tradicional.

A fraude do nacionalismo cristão novidade

A secção de língua inglesa da International Bonhoeffer Society (fundada em 1973), um grupo de teólogos e académicos dedicados a estudar a vida e os escritos deixados pelo pastor luterano alemão e resistente antinazi Dietrich Bonhoeffer, executado em 1945 num campo de concentração, juntou-se ao crescente coro de autoridades eleitas, académicos e líderes religiosos que pedem a destituição do Presidente Donald Trump.

Euforia, esperança ou amnésia coletiva

2020 foi um ano em que, em boa parte, nos perdemos. Alguns arriscaram, mas, perante as consequências do destemor inicial, recuaram e reposicionaram a sua forma de vida. Outros não aprenderam nada e exibiram-se heróis, como se os riscos comprovados não existissem, como se as ameaças fossem coisa de fracos e de gente fora de moda. Pois é mesmo disso que tenho medo – de uma amnésia coletiva.

Cultura e artes

A vida, o sofrimento e Jesus

Dois autores, ambos presbíteros com profundas experiências e preocupações pastorais – Valdés é biblista argentino, Bermejo é especialista na pastoral da saúde em Espanha – oferecem em Peregrinar a Jesus um contributo notável para aprofundar as difíceis e exigentes questões relacionadas com a saúde, o sofrimento e a relação de fé.

O olhar da raposa

Infelizmente, são ainda muitos os lugares deste mundo onde a pena de morte continua a existir e a ser praticada. Sirvam de exemplo estas notícias do Público de sexta, 11 de Dezembro e Domingo 13 de Dezembro: “Trump autoriza onda de execuções como não se via há 124 anos”; “Alfred Bourgeois é o segundo executado em dois dias pela Administração Trump”; “Irão executa jornalista por inspirar protestos de 2017 contra o regime”.

A pegada de religiosidade na obra de João Cutileiro

“Na vasta obra de João Cutileiro, há uma intermitente, mas persistente, pegada de religiosidade que deixou plasmada em poemas de pedra”, escreve o padre Mário Tavares de Oliveira, cónego da diocese de Évora, num texto que evoca a arte do escultor que morreu no passado dia 5.

Palavra e Palavras

Durante as semanas de Advento li o novo livro de Valter Hugo Mãe (VHM), Contra Mim. Trata-se de um livro que revela quem é Valter Hugo Mãe. A sua leitura literalmente me encantou e fez emergir múltiplas epifanias.  Um grande livro, um grande escritor. Uma prosa lindíssima e original. Uma profunda busca de Deus.

Auscultar a expressão de um Povo

A chamada Caixa de Correio de Nossa Senhora constitui um arquivo do santuário de Fátima no qual se conservam as mensagens ali enviadas de todo o mundo, a partir da década de 40 do século passado, dirigidas à Mãe de Jesus. Trata-se de cartas, bilhetes, postais, ex-votos, num número que atinge os milhões e que constituem uma expressão de devoção íntima e pessoal de inúmeros católicos de todas as origens sociais, económicas e familiares.

Sete Partidas

Angela Merkel

Partilho o último discurso de Ano Novo de Angela Merkel como chanceler alemã. A princípio não gostava muito dela, e desgostei especialmente na época da crise do euro. A rejeição era tal que, há cerca de 15 anos, os meus filhos sentiram necessidade de tomar uma importante decisão pessoal: anunciaram que gostavam muito dos avós “apesar de eles votarem na Angela Merkel”.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This