AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Uma criança ferida pelos bombardeamentos israelitas em Gaza chega ao hospital. Foto © UNICEFEyad El Baba
"Bombardearam as ruas onde as crianças pediam comida. Bombardearam as filas onde as mães esperavam pela farinha." Foto © UNICEF/Eyad El Baba

Testemunho em direto de Gaza

Atravessámos o fogo para vos dizer isto

| 03/07/2025

Não há internet, nenhum sinal, nenhum som. Nenhum mundo fora desta gaiola.

Andei meia hora entre escombros e pó. Não em busca de uma fuga, mas de um fragmento de sinal, apenas para sussurrar: “ainda estamos vivos”.

Não é que alguém pudesse ouvir, mas morrer sem ser ouvido é morte derradeira.

Gaza está agora em silêncio. Não é de paz, mas de aniquilamento. Não é um silêncio de quietude, mas de asfixia. Cortaram o último cabo. Nenhuma mensagem sai, nenhuma imagem entra. Até o luto foi proibido. Passo por cadáveres de edifícios, de casas, de pessoas. Alguns respiravam, outros não.

Todos apagados pela mesma mão que apagou as nossas vozes. Este não é simplesmente um cerco de bombas, é um cerco de memória. Uma guerra contra a nossa capacidade de dizer “estamos aqui”.

Os bombardeamentos não paravam, sobretudo em Jabalia. Bombardearam as ruas onde as crianças pediam comida. Bombardearam as filas onde as mães esperavam pela farinha. Bombardearam a própria fome. Sem comida. Sem água. Não há fuga possível. E aqueles que tentam, aqueles que procuram ajuda, são abatidos. As pessoas estão a morrer aqui e ninguém sabe disso. Não porque a matança tenha parado, mas porque a morte
das ligações foi bem sucedida.

A Internet foi o nosso último suspiro. Não era um luxo, era o último teste da nossa humanidade. E agora foi-se. E, na escuridão, eles matam sem consequências.

Encontrei este sinal ténue com o eSIM como um moribundo encontra um brilho de luz.

Sob este céu quebrado, arrisco a morte, não para me salvar, mas para enviar esta mensagem. Uma única mensagem. Uma última resistência.

Se estão a ler o que escrevi, lembrem-se: atravessámos o fogo para vos dizer isto. Não ficámos em silêncio. Fomos silenciados. E quando a ligação for restabelecida, a verdade sangrará através dos fios e o mundo saberá o que escolheu não ver.

 

Ezzideen Shehab é médico, vive em Gaza e é autor de um blogue e páginas nas redes sociais. Este texto foi traduzido e publicado na mais recente edição do boletim paroquial Notícias de Santa Isabel, de Lisboa.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado

Diocese de Portalegre – Castelo Branco

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado novidade

No fim do processo, “nem um centímetro” da Diocese de Portalegre – Castelo Branco deve “ficar sem ser coberto por um conselho pastoral paroquial” (ou interparoquial se necessário e conveniente). Foi o desafio do bispo Pedro Fernandes à diocese de que assumiu a tarefa de pastor ainda não há um ano. Esta é talvez a melhor síntese do que foi a “Assembleia Diocesana”, no dia 6 de outubro, em Ponte de Sor, a que várias centenas de pessoas responderam participando de um modo ativo.

Guerras e mudanças de regime

[Entre Margens]

Guerras e mudanças de regime novidade

Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.