
João Carlos Hatoa Nunes, arcebispo do Maputo, no vídeo onde apela ao fim da violência e ao respeito pelo direito pacífico à manifestação Foto: Direitos reservados
Os bispos católicos moçambicanos apelam “ao respeito pelo direito à manifestação pacífica”e “ao respeito à vida de cada pessoa”. Na véspera de uma manifestação prevista para esta quinta-feira, dia 7, depois de já ter havido mais de 20 mortos, em consequência da repressão policial dos protestos por causa dos resultados das eleições presidenciais de Outubro.
Numa curta mensagem num vídeo posto a circular nas redes sociais, e que chegou ao 7MARGENS, o arcebispo de Maputo, João Carlos Hatoa Nunes cita o último comunicado da Conferência Episcopal Moçambicana, de 22 de Outubro, para dizer que não se pode usar “a violência para abafar o anseio dos manifestantes, evitando o derramamento de sangue”. [ver 7MARGENS]
“Neste momento de tensão, quando muitos se preparam para manifestar as suas preocupações”, João Carlos Nunes pede igualmente aos manifestantes “para que não se deixem instrumentalizar e serem arrastados para acções de vandalismo e desestabilização”.
O arcebispo diz que o episcopado católico sentiu “a urgência” de se dirigirem a cada pessoa “com um apelo à paz, tolerância e respeito à vida”. E acrescenta: “A nossa sociedade, embora marcada por vários desafios, não será verdadeiramente transformada através do caminho da violência.” Pelo contrário, diz o arcebispo de Maputo: “É através do diálogo, da tolerância e da busca incansável por soluções justas que construiremos um Moçambique almejado por todos.”
O 7MARGENS sabe de fonte segura que também o núncio apostólico, representantes da Santa Sé no Maputo, está preocupado com o grau de violência atingido nas últimas semanas. O espanhol Luis Miguel Munoz terá confidenciado a várias pessoas que receia que haja mais violência nesta quinta-feira.
Amnistia critica “pior repressão” dos últimos anos

Bandeira de Moçambique. Foto © Creative Photo Corner
Também a Amnistia Internacional recorda que esta crise pós-eleitoral em Moçambique deu origem à “pior repressão dos últimos anos contra os protestos no país”, para dizer que o Governo tem de “pôr termo à repressão violenta e generalizada dos direitos humanos e respeitar os direitos de todos à liberdade de expressão, reunião pacífica e associação”.
Num comunicado enviado nesta quarta-feira às redacções, a organização de defesa dos direitos humanos diz que “na sequência de eleições contestadas, o Governo de Moçambique, liderado pela Frelimo, deve pôr termo à repressão violenta e generalizada dos direitos humanos e respeitar os direitos de todos à liberdade de expressão, reunião pacífica e associação”.
A Amnistia diz que além dos 24 mortos há também centenas de feridos ou detidos e que as forças de segurança têm dispersado “de forma violenta e ilegal as manifestações pacíficas com gás lacrimogéneo, balas e detenções arbitrárias”, provocando “um derramamento de sangue completamente desnecessário, uma vez que as autoridades tentaram parar um movimento de protesto pacífico com força letal”.
As autoridades afirmam que os manifestantes mataram pelo menos um agente da polícia, acrescenta o comunicado.
Uso de armas de guerra, incluindo veículos blindados, nas ruas da cidade, cortes no acesso à internet, assassinatos de figuras da oposição, são outros factos recordados pela Amnistia. “Este capítulo ultrajante da história de Moçambique deve terminar agora e os autores devem ser levados à justiça”, afirma Khanyo Farise, director regional adjunto da Amnistia Internacional para a África Oriental e Austral.
As eleições de 9 de Outubro deram a vitória a Daniel Chapo, o candidato da Frelimo, partido no poder desde a independência em 1975. Venâncio Mondlane, principal candidato da oposição, e outros observadores alegaram fraude eleitoral. Os protestos que se seguiram a essas alegações foram reprimidos violentamente pela polícia. No dia 19 dois apoiantes de Mondlane, Elvino Dias e Paulo Guambe, foram mortos a tiro. O candidato derrotado convocou uma greve nacional para os dias 24 e 25, também reprimida, e uma semana de protestos, que culminam nesta quinta-feira.










