“Cumprimos uma das nossas resoluções de Ano Novo: liquidar uma dívida moral que tínhamos com as vítimas de abusos na Igreja.” Foi um eufórico Ministro da Presidência espanhol, Félix Bolaños, que compareceu perante a imprensa após a assinatura de um acordo histórico entre o Governo, a Conferência Episcopal e a Conferencia Espanhola de Religiosos, que permitirá a criação de uma comissão conjunta Igreja-Governo para “reparações justas e adequadas”. “Toda as compensações serão pagas pela Igreja Católica; o Estado não pagará um centavo. O Estado decide sobre a compensação e a Igreja Católica paga-a”, enfatizou o ministro, reconhecendo a importância do papel da Santa Sé na obtenção do acordo.
De facto, como ambas as partes reconheceram ao jornal Religión Digital, foi a Santa Sé que “forçou” os bispos a chegarem a um acordo com o Governo. O trabalho do Secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, com quem Bolaños se reuniu em diversas ocasiões, foi especialmente relevante. “Agradeço ao Vaticano pelo seu apoio fundamental”, sublinhou o ministro, revelando que se encontrou tanto com o Papa Francisco quanto com o cardeal Parolin, que “promoveu este acordo”. “Quero agradecer aos dois papas e ao cardeal Parolin pelo seu esforço e trabalho (…). Nos momentos de maior dificuldade, o Vaticano posicionou-se”, acrescentou.
Após uma “negociação complexa, conseguimos uma reparação justa” que põe fim a “décadas de silêncio, ocultação e danos morais impossíveis de compensar” para as vítimas, afirmou o ministro espanhol.
Bolaños expressou ainda a sua gratidão pelo papel dos média e também pelo do Provedor de Justiça, que será o garante deste acordo. “Após décadas de sofrimento e inação, em que as vítimas se depararam com um muro de incompreensão e encobrimento, hoje derrubamos esse muro com o acordo assinado entre o Governo, a Conferência de Religiosos de Espanha e a Conferência Episcopal Espanhola, que atende escrupulosamente a todos os requisitos do Provedor de Justiça”, declarou o ministro.
O acordo tem por base um sistema misto Igreja-Estado, com plena participação das vítimas e associações de sobreviventes, em que o Estado definirá os valores das indemnizações, e a Igreja será responsável por providenciá-las. Essas indemnizações serão isentas de impostos. “Este é um passo inegável, um passo que traz justiça. Hoje, quitamos uma dívida e fazemos justiça às vítimas. Hoje, somos uma democracia melhor”, concluiu Bolaños em declarações aos jornalistas.
Mais tarde, o presidente da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), o bispo Luis Argüello, e o presidente da Conferência dos Religiosos, Jesús Díaz Sariego, OP, apareceram na mesma sala e recordaram o caminho percorrido pela Igreja espanhola na sua luta contra a pedofilia. Argüello assinalou que a indemnização aprovada pelo plano PRIVA [em julho de 2024, destinando-se a casos que não podem ser julgados pelas vias civil, penal ou canónica, geralmente por já terem prescrito ou porque o agressor já faleceu] quase atingiu dois milhões de euros, aos quais devem ser somadas as reparações previamente pagas pelas congregações.
Nas suas observações, Argüello apoiou a proposta de tornar as indemnizações isentas de impostos e enfatizou o “apoio explícito” da Santa Sé ao trabalho realizado pela CEE . “A Santa Sé encorajou-nos a chegar a um acordo, como em tantas outras questões”, afirmou.
E concluiu: “Apesar da dor de reconhecer esses casos de abuso que ocorreram nas nossas fileiras, vemos que as medidas tomadas em termos de prevenção, apoio e colaboração com as autoridades civis, e agora com este novo passo, permitem-nos continuar a avançar. Este acordo abre um novo caminho. Que a verdade e a justiça prevaleçam para todas as vítimas”.
Texto publicado na edição de Religión Digital de 8 de janeiro de 2026, traduzido, adaptado e publicado pelo 7MARGENS no quadro de um intercâmbio de trabalhos jornalísticos.










