
Pormenor da escultura Angels Unawares, de Timothy P. Schmalz, instalada na Praça de São Pedro (Roma), em setembro de 2019, representando a sacralidade de todos os migrantes. Foto: Direitos reservados
No meio de fortes tensões em torno do aumento do número de migrantes na Irlanda e com o Governo a prometer uma postura mais firme em relação aos requerentes de asilo, os bispos católicos daquele país acabam de lançar um apelo sem precedentes a toda a população, e em particular aos membros da Igreja, para que acolham aqueles que vêm de fora e defendam os seus “direitos inalienáveis”. Numa carta pastoral lida este domingo, 13 de outubro, em praticamente todas as paróquias, os líderes religiosos recordam: “A nossa fé católica é uma fé de migrantes”.
Embora reconheçam que o aumento de migrantes pode ter agudizado os problemas de “habitação, pessoas em situação de sem abrigo, falta de serviços sociais e de saúde”, os bispos irlandeses observam também que “estes desafios têm raízes profundas” na realidade política do país, sendo muito anteriores ao recente fenómeno migratório, e assinalam ainda que a economia irlandesa nem sequer poderia funcionar sem pessoas oriundas de outros países, pois são elas que neste momento desempenham funções chave em áreas como a indústria hoteleira, a educação e a saúde, com quase um em cada cinco trabalhadores na economia irlandesa a serem “não-cidadãos-irlandeses”.
Intitulada “Cem mil boas-vindas?”, a carta – que pode ser lida na íntegra no sítio oficial da Conferência Episcopal Católica Irlandesa – invoca o mandamento bíblico de “amar o próximo como a si mesmo” e o dever de todos os cidadãos de promover a justiça e servir o bem comum para encorajar em particular os católicos a fazerem das suas paróquias “lugares de hospitalidade”.
“Lançamos este apelo porque o caminho do Evangelho não conduz ao medo, mas ao acolhimento”, sublinham os bispos irlandeses. Um acolhimento que deve ir mais longe e transformar-se numa “cultura do encontro”, argumentam, citando por diversas vezes o Papa Francisco. “Temos muito a aprender com os estrangeiros que vieram para o meio de nós”, escrevem os bispos, apelando à rejeição de todas as formas de racismo.
Convidando os fiéis a estarem “conscientes da história migratória do país”, os bispos recordam como a Irlanda foi, ela própria, marcada pela grande fome do século XIX, a qual forçou dois milhões de habitantes a abandonar a ilha, e também pelas vagas de êxodo massivo nos anos 1950-1980, em busca de melhores condições de vida. “É uma novidade que a Irlanda seja agora um lugar onde as pessoas gostariam de estabelecer-se e não um lugar de onde tiveram de sair”, observam. “Isto demonstra o impressionante progresso da nossa economia e da nossa sociedade. Devíamos ficar muito mais felizes por ver pessoas a chegar aqui em busca de uma vida melhor, em vez de ver as cenas trágicas de famílias separadas que são há muito a nossa história nacional.”
Num apelo à ação concreta, os bispos sugerem que todas paróquias adiram ao programa de apadrinhamento comunitário, no qual “as pessoas de uma comunidade local se reúnem para apadrinhar uma família refugiada e acolhê-la, garantindo que se pode reinstalar, encontrar refúgio durante o seu período difícil e oferecer-lhe a oportunidade de construir um novo futuro, longe de conflitos”.
“Que possamos sempre acolher e defender os migrantes. Ao fazer isso, cumprimos a nossa missão como um ‘povo peregrino migrante’, continuando a tradição irlandesa de abertura, encontro e hospitalidade, e dando testemunho do amor eterno de Deus”, conclui a declaração.









