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Susana Réfega, diretora executiva do Movimento laudato Si'. Foto DR

Susana Réfega, do Movimento Laudato Si'

Cada diocese em Portugal deveria ter “uma pessoa responsável pela ecologia integral”

| 24/05/2024

Susana Réfega, diretora executiva do Movimento laudato Si'. Foto DR

A portuguesa Susana Réfega assumiu em janeiro o cargo de diretora-executiva do Movimento Laudato Si’. Foto: Direitos reservados

 

A encíclica Laudato Si’ foi “determinante para o compromisso e envolvimento de muitas organizações”, católicas e não só, no cuidado da Casa Comum. Quem o garante é Susana Réfega, portuguesa que desde janeiro deste ano assumiu o cargo de diretora-executiva do Movimento Laudato Si’ a nível internacional. Mas, apesar de esta encíclica ter sido publicada pelo Papa Francisco há precisamente nove anos (a 24 de maio de 2015), “continua a haver muito trabalho por fazer” e até “algumas resistências à sua mensagem”, mesmo dentro da Igreja, alerta a responsável.

Susana Réfega falava ao 7MARGENS a partir de Roma, após terem sido conhecidos os resultados daquele que é o primeiro estudo abrangente sobre ecologia integral no continente europeu, apresentado no âmbito da  Semana Laudato Si’ 2024 – que se iniciou no passado dia 19 e termina este domingo, 26 de maio.

A pesquisa – que contou com a colaboração de sete universidades, incluindo a Universidade Católica Portuguesa – foi promovida pela Aliança Europeia Laudato Si’ (ELSiA), uma rede de organizações católicas que trabalham juntas “para dar vida à carta encíclica Laudato Si’”. Os dados recolhidos, com base num inquérito ao qual responderam 283 entidades em 20 países diferentes (entre eles Portugal, com oito respostas), mostram que metade das mesmas “não estavam envolvidas na ecologia integral antes da publicação da Laudato Si’“.

De acordo com o relatório final, cerca de um terço dessas organizações (31%), afirmaram que a Laudato Si‘ deu origem a uma “mudança substancial” nesse envolvimento e 5% falam mesmo numa “transformação total”.

“Vemos que a encíclica teve a capacidade de chegar a contextos muito diferentes, quer geográficos, quer de estruturas da Igreja, quer de organizações. E, quase dez anos depois, continua a ser este grande documento orientador, enquadrador, que propõe pistas muito concretas de ação, e que põe a Igreja e as comunidades em movimento na promoção de um desenvolvimento sustentável, e de um cuidado efetivo e concreto da Casa Comum e de uns pelos outros”, afirma Susana Réfega.

A responsável assinala que verifica isso “todos os dias”, através das pessoas que procuram o Movimento Laudato Si’ “porque têm este desejo de um maior conhecimento da encíclica e de um maior compromisso com o cuidado da Casa Comum”. “Nesse âmbito – explica – o programa de formação de animadores Laudato Si’ é uma das respostas” dadas pelo movimento. Só em Portugal, “já existem mais de cem animadores”, partilha com orgulho.

Referindo-se ainda concretamente à realidade portuguesa, Susana destaca também “a criação da Rede Cuidar da Casa Comum e o trabalho que esta tem desenvolvido, o qual é uma manifestação dessa vontade de organizações diversas promoverem a ecologia integral e darem passos quer no quadro da sustentabilidade, quer no quadro de uma eco-espiritualidade”.

“Outra expressão interessante e muito recente é a criação por parte da Universidade Católica Portuguesa de um doutoramento em ecologia integral, também como uma aposta para que se possam aprofundar o conhecimento, os estudos, a investigação nesta área”, assinala. Apresentado nesta semana Laudato Si’ como “um Doutoramento diferente de tudo o que existe”, o programa tem as candidaturas abertas até dia 30 de maio, e as aulas iniciam a 12 de setembro.

 

“Muito caminho a fazer” na comunicação e formação

Membros do grupo Cuidar da Casa Comum em Santa Isabel durante a apresentação da vigília de 24 de novembro 2023, Foto DR

Membros do grupo Cuidar da Casa Comum em Santa Isabel. Há “um grande dinamismo da sociedade civil”, mas é preciso mobilizar mais profissionais para esta área, defende Susana Réfega. Foto: Direitos reservados

Mas se é verdade que muito tem sido feito na sequência desta encíclica do Papa Francisco, também é verdade que “ainda são poucos os recursos mobilizados para esta área”, mesmo nas organizações onde é reconhecida a sua importância. Mais uma vez, o estudo confirma-o, com 60% dos inquiridos a afirmar que os recursos humanos mobilizados nas suas organizações são limitados face às necessidades, e 57% a dizer que o mesmo acontece com os recursos financeiros. Em 38% dos casos, o orçamento atribuído às iniciativas ambientais corresponde a menos de 5% do total. E em quase metade das organizações que colaboraram nesta pesquisa (47%), as atividades relacionadas com a ecologia integral são levadas a cabo “exclusivamente por voluntários”.

Esta realidade pode ser vista a partir de dois prismas diferentes, defende Susana Réfega: “Se por um lado isto mostra um grande dinamismo da sociedade civil, das organizações da Igreja, por outro lado mostra também que enquanto algumas organizações mobilizam os seus profissionais para outras áreas de intervenção, não estão a dedicar essa mesma alocação de recursos e de pessoas para esta área da ecologia integral”.

O que fazer, então, para que mais recursos passem a ser mobilizados? “Há muito caminho a fazer na comunicação, na formação, incluindo do clero, de seminaristas, de religiosos, de leigos nesta área”, defende Susana Réfega. E alerta: “Se muitos já conhecem a Laudato Si’, ainda existem também dentro da Igreja algumas resistências a esta mensagem da ecologia integral. E algum questionamento sobre como é que estes temas se enquadram na fé”.

Para a diretora-executiva do Movimento Laudato Si’ é, por isso, essencial “propor caminhos de aprofundamento do conhecimento, espaços de debate, espaços de formação, em que esta ponte entre a fé e a ecologia integral possa ser experimentada, vivida, em que possam ser gerados processos de conversão ecológica, nesta lógica de uma conversão que permite uma melhor relação com Deus, com os outros e com a criação”.

Concretamente em Portugal, “no sentido de continuarmos também a avançar e a fazer caminho, parecia-nos que seria muito interessante cada diocese poder ter um ponto focal, uma pessoa que fosse o ponto de contacto e a responsável pela ecologia integral nessa diocese”, sugere. “E que depois a nível nacional essas pessoas pudessem também trabalhar em conjunto, partilhar e formar uma rede neste âmbito”, acrescenta.

A verdade é que o estudo também mostra que a ecologia integral “promove colaborações, alianças, uma abordagem de trabalho que não fecha as organizações em si”, assinala ainda Susana Réfega. “O que de certa forma se cruza com uma Igreja sinodal, uma Igreja em caminho, uma Igreja que segue também estes traços do pontificado do Papa Francisco”, conclui. E que ainda tem “muito para trilhar”.

 

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