A Reforma Protestante trouxe consigo uma intuição teológica que continua a suscitar reflexão no contexto do cristianismo contemporâneo: a ideia do chamado “sacerdócio universal dos crentes”. Esta noção remete, de forma geral, para a convicção de que todos os baptizados têm acesso direto a Deus e participam na vida e missão da Igreja (cf. 1 Pet 2:9), não se limitando a uma posição meramente receptiva ou passiva. Nesse sentido, não se trata apenas de um princípio doutrinal, mas de uma determinada concepção da comunidade cristã, na qual a responsabilidade e a participação são, em princípio, equitativamente partilhadas. Coloca-se, contudo, uma questão que permanece pertinente: em que medida esta visão encontra expressão efectiva nas práticas eclesiais actuais?
Uma leitura atenta da realidade sugere a existência de uma tensão entre o ideal teológico e a sua concretização histórica. Em muitas comunidades, observa-se uma tendência para a concentração da participação em grupos restritos — frequentemente associados a funções de liderança ou ministério —, enquanto a maioria dos membros assume um papel mais discreto. Esta configuração contrasta, em certa medida, com as imagens neotestamentárias da Igreja enquanto “corpo” (cf. 1 Cor 12:12-27), nas quais se enfatiza a interdependência dos membros e a relevância de cada um para o conjunto.

Anthony van Dyck (1599–1641): O Pentecostes, que dá início ao cristianismo primitivo. Sanssouci Picture Gallery, Berlim, Alemanha .Wikimedia Commons
Esta tensão torna-se particularmente visível no contexto litúrgico. Em diversos ambientes eclesiais, a estrutura do culto tende a centrar-se predominantemente na pregação. Embora este elemento desempenhe, sem dúvida, uma função central — na medida em que a proclamação da Palavra constitui um eixo estruturante da vida cristã (cf. 2 Tim 4:2) —, a sua predominância pode limitar o espaço para outras formas de participação. O resultado não é necessariamente intencional, mas pode conduzir a uma configuração em que a assembleia se aproxima de um modelo mais passivo, e menos interativo.
Neste quadro, certos aspectos da vida comunitária podem permanecer parcialmente latentes: dons não reconhecidos, experiências não verbalizadas, questões não formuladas. A comunidade, que poderia configurar-se como espaço de edificação recíproca, aproxima-se, assim, de um modelo em que a dinâmica comunicacional é predominantemente unidirecional.
Importa, neste contexto, recordar que os textos neotestamentários sugerem uma configuração distinta das reuniões cristãs. Em 1 Cor 14:26, por exemplo, encontra-se a indicação de que, quando a comunidade se reúne, “cada um tem…” — expressão que aponta para uma pluralidade de contribuições. Esta participação não é apresentada como desordem, mas como expressão de uma dinâmica regulada pela acção do Espírito, que distribui dons “a cada um, visando o bem comum” (1 Cor 12:7). A edificação da comunidade decorre, assim, de uma interação que articula diversidade e unidade, constituindo um processo colectivo orientado para o crescimento do corpo (cf. Ef 4:16).
Perante este horizonte, a questão não se coloca em termos de substituição de elementos existentes, como a pregação, mas antes de uma possível reconfiguração do equilíbrio entre os diversos momentos e práticas. A centralidade da Palavra pode coexistir com formas complementares de participação que favoreçam a apropriação, a partilha e a expressão comunitária da fé.

Podem ser consideradas práticas relativamente simples: a abertura de um breve espaço para questões ou reações após a pregação; o acolhimento de testemunhos pessoais que articulem a experiência concreta com a mensagem proclamada; momentos de oração comunitária que deem expressão às preocupações e expectativas da assembleia; ou ainda a criação de pequenos espaços de partilha. Estas formas, embora não exijam alterações estruturais profundas, podem contribuir para uma maior visibilidade dos dons e para uma participação mais alargada.
A relevância destas práticas encontra eco em textos como Hebreus 10:24-25, onde se apela à consideração mútua com vista ao encorajamento no amor e nas boas obras. Neste enquadramento, a Igreja deixa de ser apenas um lugar de recepção para se configurar também como espaço de contribuição.
Quando tal ocorre, verifica-se uma deslocação no modo como os membros se percebem a si próprios: de uma posição de espectadores para uma consciência de pertença activa. A fé, neste processo, adquire uma dimensão relacional mais acentuada, sendo vivida como realidade partilhada e enraizada na experiência comunitária.
Importa, contudo, reconhecer que os modelos atuais de algumas igrejas resultam de processos históricos específicos, nos quais se privilegiaram dimensões como a clareza doutrinal, a estabilidade organizacional e a ordem litúrgica. Estes elementos continuam a desempenhar um papel relevante. Ao mesmo tempo, vale a pena reconhecer que a mudança de hábitos não é simples: muitas pessoas encontram-se confortáveis com o modelo actual, que lhes é familiar e previsível. A questão, portanto, não reside numa rutura, mas numa possível ampliação: não substituir, mas integrar; não descontinuar, mas aprofundar.
Por conseguinte, a redescoberta do sacerdócio universal dos crentes pode ser compreendida como um convite à valorização efectiva da participação de todos, reconhecendo-se a acção do Espírito na totalidade da comunidade. Trata-se, em última análise, de criar condições para que essa dimensão se torne visível e operativa.
A interrogação que emerge deste percurso é, simultaneamente, simples e exigente: pretende-se uma Igreja centrada predominantemente na transmissão, ou antes numa dinâmica mais ampla de comunhão? Uma assembleia marcada pela excepcionalidade da participação ou pela sua normalidade?
O desafio não reside na invenção de uma nova realidade eclesial, mas na reapropriação de uma dimensão presente nas origens: a consciência da Igreja como corpo vivo, no qual cada membro participa, de forma diferenciada, mas efectiva.
Talvez seja neste horizonte que se possa situar a possibilidade de redescobrir, no presente, uma forma de ser Igreja caracterizada não apenas pela reunião, mas pela caminhada comum (a tal sinodalidade de que muito se fala), pelo crescimento partilhado e pela construção de uma comunidade mais participativa, relacional e coerente com o seu próprio fundamento.
Vítor Rafael é doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, investigador no Centro de História (ULisboa) e na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião.
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