A Cáritas Portuguesa vai inaugurar oficialmente o seu Arquivo Histórico esta sexta-feira, dia 22 de maio. A inauguração deste novo espaço, localizado em Odivelas, insere-se nas comemorações dos 70 anos da instituição e assume-se como um marco na preservação da memória da instituição.
No decorrer da sessão, será apresentada a obra Cáritas Portuguesa: A Igreja e a Sociedade — Entre o Pós-guerra e o final do Século XX, da autoria de Nuno Estêvão Ferreira. Foi a cargo deste investigador do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa que esteve a coordenação da organização e requalificação do acervo documental reunido no novo Arquivo da Cáritas.
O livro retrata o percurso da instituição desde a sua fundação em 1946, detalhando a evolução histórica do seu modelo de apoio, que transitou de uma lógica de assistência e distribuição de bens em situações de emergência para uma ação focada no desenvolvimento humano integral e na inclusão social
O 7MARGENS publica a seguir, em primeira mão e com autorização do autor, a introdução da obra.

A capa do livro.
Formada em Lisboa, em 1946, a União de Caridade Portuguesa constituía uma associação direcionada para a proteção de menores e centrada na organização de um serviço de socorro a crianças estrangeiras, vítimas da guerra. Era composta por associados distribuídos por três categorias: ativos, benfeitores e correspondentes. A sua atuação era compreendida em colaboração com outras organizações, particulares, civis e religiosas, portuguesas e estrangeiras.
Uma década volvida, verifica-se uma transição determinante, influenciando o modo como a sua história passou a ser observada. A aprovação, pela figura mais marcante do episcopado português, o Cardeal Cerejeira, dos estatutos da União de Caridade Portuguesa (Caritas), marca uma nova era do ponto de vista do perfil institucional. É uma nova organização que, em 1956, é criada a partir “de cima”, com chancela episcopal e por recomendação da Santa Sé para o exercício e a promoção da caridade cristã. Os seus objetivos principais consistem na formação de associações, obras e instituições de assistência social, na sua coordenação e na atuação em articulação com organizações congéneres internacionais, em matéria de assistência ou beneficência.
Em 1956 a associação de 1946 é dissolvida. Mas os seus dirigentes, as redes de contactos, os instrumentos e os programas de atuação são transferidos para a nova entidade. Uma nova atividade principal é desenhada e a sua implementação é alheia à mudança institucional verificada. O programa alimentar será a face mais visível da União de Caridade Portuguesa (Caritas) nos anos subsequentes. As campanhas de auxílio em face de calamidade pública são inscritas nos estatutos, formalizando uma linha de atuação que já marcara a anterior associação.
A continuidade entre as duas entidades é, desde logo, assegurada na denominação: União de Caridade Portuguesa. A utilização da expressão “Caritas” nos estatutos é uma das novidades, remetendo para a relação com organismos congéneres na Europa. Mas, na realidade, trata-se de um acréscimo discreto que já se encontrava presente, de resto, na linguagem corrente para referir a associação de 1946.
Em 1947 tem início o programa de acolhimento temporário de crianças. Com aplicação generalizada em todo o território do continente português, consistiu em estadias de longa duração de crianças austríacas, sobretudo, mas também algumas alemãs e francesas junto de famílias portuguesas. Em 1956 encontrava-se na sua fase final.
É justamente em 1956 que tem início o programa de ajuda alimentar. Na sua base encontra-se o apoio de Catholic Relief Services (CRS) e National Catholic Welfare Conference (NCWC) para distribuição de alimentos por famílias carenciadas do país. Uma vez mais, a escala é o território nacional e a rede de contactos que permite a execução da iniciativa é composta pelas paróquias, colégios e notáveis locais de organizações católicas. Também se repete uma matriz originária: a dimensão internacional de uma organização formada em Portugal, com contactos estreitos com organismos congéneres. A iniciativa norte-americana, por seu lado, inscreve-se no apoio a diferentes países e regiões, com a nova entidade, também liderada por Fernanda Jardim, a ser o interlocutor nacional.
As flutuações e algumas controvérsias na aplicação do programa não são alheias à substituição de Fernanda Jardim por João Carlos Alves, dando início a um período de transição, com a diminuição gradual do volume de distribuição e a algumas indefinições. São estabelecidas e consolidadas organizações diocesanas, casos do Porto, de Coimbra e de Lisboa na segunda metade da década de 1960. A distribuição de alimentos manter-se-á mesmo após a cessação do fornecimento norte-americano.

É em 1956 que tem início o programa de ajuda alimentar. Na sua base encontra-se o apoio de Catholic Relief Services (CRS) e National Catholic Welfare Conference (NCWC) para distribuição de alimentos por famílias carenciadas do país. Foto: Direitos reservados
O programa de criação de postos de trabalho é lançado durante a presidência de Lage Raposo. Encontrava-se direcionado para o financiamento de pequenos negócios que justificam a criação de emprego. A conjuntura corresponde à integração de centenas de milhares de refugiados, vindos das ex-colónias portuguesas em África, constituindo uma das iniciativas daquele processo.
Um programa de animação de pastoral social é implementado durante a presidência de Acácio Catarino. A difusão da doutrina social da Igreja por meios próprios e com recurso a várias iniciativas paralelas, mas com suficiente articulação com a Cáritas Portuguesa e a sua estrutura dirigente, tornam-se imagem de marca de uma organização. Informação e formação assumem lugar central, com organismos criados pelo episcopado a assumirem protagonismo crescente, também com a liderança ou participação ativa de elementos da Cáritas Portuguesa.
A década de 1990 começa com uma crise na organização, também financeira, com uma drástica redução de recursos humanos. Paralelamente a estrutura dirigente é afetada. Seguem-se tentativas de reativação, ao mesmo tempo que o perfil identitário é redefinido, internamente, mas em articulação com iniciativas do episcopado. Nesse processo, verifica-se a participação ativa de dirigentes de Cáritas Diocesanas.
A reorganização decorrerá, de facto, com uma nova liderança. A constituição e a consolidação de uma rede Cáritas no país, com sólidas conexões internacionais, assim como a expansão de departamentos internos são algumas das imagens de marca do início do século XXI. De forma convergente, será lançado um vasto programa direcionado para a formação e a qualificação profissionais.










