
“Nos tempos do Novo Testamento as cartas eram a forma mais expedita de enviar uma mensagem um pouco mais longa. (…) Na Igreja primitiva os apóstolos escreveram e enviaram muitas epístolas.” Pintura: Os quatro Evangelistas, pintura anónima do séc. XVII. Coleção Museu Nacional do Prado.
Durante séculos a fio, antes de a escrita ter sido inventada, os homens comunicavam essencialmente de forma oral. Depois os sumérios, os egípcios, os hebreus e os gregos, entre outros, criaram ou desenvolveram formas de registo escrito. Nos tempos do Novo Testamento as cartas eram a forma mais expedita de enviar uma mensagem um pouco mais longa. Eram personalizadas e enviadas por portador porque só muitos séculos mais tarde foi criado o primeiro serviço postal. Na Igreja primitiva os apóstolos escreveram e enviaram muitas epístolas.
Como é que Deus comunicou connosco através da História? Vejamos o que nos dizem as Escrituras:
Na Criação: “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Salmo 19:1). O problema é que o ser humano está a destruir a Criação, pelo que essa comunicação fica em causa. Como é que alguém pode ver Deus em céus cheios de fumo negro ou em oceanos carregados de detritos?
Pela Consciência: “Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida” (1 Timóteo 1:5); o problema é que a consciência de muitos está cauterizada (queimada, insensível): “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demónios. Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência” (1 Timóteo 4:1,2).
Pelo testemunho do Antigo Israel: “Os animais do campo me honrarão, os chacais, e os avestruzes; porque porei águas no deserto, e rios no ermo, para dar de beber ao meu povo, ao meu eleito” (Isaías 43:20). O problema é que vivemos numa Nova Aliança, pelo que o actual Israel já não é esse povo eleito.
Através da Bíblia: “Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho” (Salmo 119:105); “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2 Timóteo 3:14-17). O problema é que há demasiada gente a distorcer e adulterar as Escrituras.
Pela História: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem. Porque por ela os antigos alcançaram testemunho” (Hebreus 11:1,2); “Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta. Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” (12:1,2). O problema e que a História da fé também nos mostra péssimos exemplos.
Por Jesus: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas, feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles” (Hebreus 1:1-4). O problema é que andam por aí a reinventar um Jesus que nunca existiu, armado até aos dentes, machista e patriarcal.
E como é que Deus comunica hoje com os homens?
S. Paulo escrevia ao jovem Timóteo: “Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração” (2 Coríntios 3:3). Mas o que significa sermos “cartas vivas”? Simplesmente que somos nós a mensagem de Deus à humanidade, e não apenas pelo testemunho verbal, mas sobretudo pelo testemunho do exemplo de vida.
O filósofo canadiano Marshall McLuhan (1911-1980) defendia que o Meio é a Mensagem. Trata-se de uma formulação excessiva pela qual o autor pretende sublinhar que o meio, geralmente pensado como simples canal de passagem do conteúdo comunicativo, mero veículo de transmissão da mensagem, é um elemento determinante da comunicação. Ele antecipou a internet e a cibercultura quase trinta anos antes do seu boom.
Há quem idolatre a Bíblia, mas ela é apenas a revelação de Deus à humanidade, que aponta para o Cristo Encarnado. Ele é a verdadeira mensagem: o Logos, o Verbo divino. O cristão não é apenas um veículo de comunicação inerte, inócuo. Por isso, o que conta não é tanto a doutrina ou a verdade espiritual que defendemos, o nível de revelação que temos, ou o dom da palavra, mas sim a nossa pessoa, a nossa vida, o nosso testemunho de vida. Enquanto discípulos de Cristo somos a forma de Deus se revelar à humanidade, isto é, a forma de apresentar Cristo ao mundo.
O que vamos fazer com isto?
José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.










