Casamento também é vocação – um contributo para a pastoral vocacional

| 16 Ago 19

Diz o Papa Francisco, na última exortação apostólica Christus Vivit (CV 256): a vocação trata, em suma, de “reconhecer para que fui criado, qual o sentido da minha passagem por esta terra, qual o projeto do Senhor para a minha vida”. É frequente ouvirmos na Igreja Católica, pelo menos todos os anos na Semana de Oração pelas Vocações, que há um “decréscimo nas vocações”, mas esta afirmação refere-se comummente às sacerdotais ou religiosas. É um facto, como se pode ler numa notícia publicada no final de Abril pelo L’Osservatore Romano e reproduzida pelo Aleteia.

Há um decréscimo acentuado ao nível global, sobretudo nas vocações consagradas femininas, e isso não é bom, pois são pessoas muito necessárias no nosso mundo, para os católicos e não só.

Uma leitura mais atenta da notícia, no entanto, faz ressaltar algo de sintomático: o título diz que “vocações caíram”, mas lemos depois que houve, por exemplo, um “crescimento acentuado” do número de agentes pastorais: diáconos permanentes, catequistas e missionários leigos. Mas afinal, não tinham decrescido? Ou estas vocações não são “vocações”? E o matrimónio? Nem sequer constam no texto números sobre o mesmo, para saber se aumentou ou decresceu.

Sabemos até que em Portugal, não só o número de casamentos católicos diminuiu, de 70% do número total de casamentos (em 1990) para o oposto (30% desse número, em 2018). Mais: os divórcios católicos superam os de casamentos civis consecutivamente todos os anos desde, pelo menos, 2007, altura em que se dá o ponto de inflexão, ou seja, quando começa a haver mais casamentos civis do que católicos. Chegando a 2017, registamos quase 100 divórcios por cada 100 casamentos católicos realizados. Por fim, ao nível europeu, entre 27 países, Portugal regista o número mais alto de divórcios: 70 em cada 100 casamentos.

O substantivo usado no título da notícia de forma isolada, referindo-se apenas a vocações para o celibato – “vocações” – é apenas um resumo inofensivo ou um sinal de como tratamos habitualmente este tema, não só em Portugal?

A Semana de Oração pelas Vocações, sem se destinar a falar só das vocações consagradas, acaba por fazê-lo (pelo menos em muitos casos, não direi todos). Porque abordamos a temática do casamento quando se fala de “família” e a colocamos à parte no todo que é a conversa sobre a vocação? Ainda para mais, é o caminho para o qual a maioria é chamada por Deus. Em terceiro lugar, são os leigos, a maioria, a quem é pedida a intervenção social no mundo, cada um nas suas circunstâncias concretas, como nos diz a doutrina social católica e tanto proclamou o II Concílio do Vaticano. Ademais, bem diz o Papa na exortação já citada, que é essencial que a pastoral juvenil e a familiar tenham uma “continuidade natural” (CV 242).

 

Quem são estas pessoas?

Já é algo que se vê com bons exemplos, mas há que tratar também mais o solteiro como “família” e não como alguém que está numa “sala de espera” de algo que não sabe o que será, que já não é jovem nem é casado ou consagrado, que parece que “não é carne nem peixe”. Essa condição de vida também é querida por Deus e esta pessoa é chamada à santidade aqui e já, nas suas circunstâncias específicas: pode crescer, ser feliz, servir e dar sentido à sua vida e à dos outros.

E porque se supõe que a vocação para a vida consagrada é que é “a vocação”? Essa é que é a chamada “dura” e “exigente”? Qualquer casado dirá que isso não é verdade e não me parece que a vocação consagrada seja para quem não tem alternativa. Antes pelo contrário. É perigoso  usar o “duro” e “exigente” como condição necessária para qualquer escolha vocacional.

Há que ter em conta a realidade sociológica dos dias de hoje. Casa-se em média com 30 anos. Em termos pastorais, quem são estas pessoas? Jovens? Velhos? Como acompanhar os que “não são chamados ao matrimónio ou à vida consagrada”? (CV 267); “devemos recordar sempre que a primeira e mais importante vocação é a vocação batismal”? (CV 267). Concordo com o Papa, mas se uma pessoa não encontrou uma daquelas vocações em “jovem” (um conceito difuso e que hoje em dia irá até aos 30?), porque não encontrará mais tarde? Mais: mesmo que a opção dos filhos já possa estar de parte, sendo que é ainda possível de forma natural até cerca dos 40, pode-se viver a fecundidade no casamento de diversas formas: dando mais atenção à relação com o cônjuge, ter um papel de contributo na comunidade, adotando filhos…

Não seriam formas de combater o decréscimo nas vocações consagradas? De quanto trabalho administrativo e não necessariamente espiritual estão sobrecarregados os padres? Seria uma ajuda preciosa para se focarem no seu ministério.

A idade de casamento é cada vez mais tarde para um número crescente de pessoas e o mundo necessita muito de todos. Quanto dinamismo é necessário às comunidades e tantos solteiros e casais com mais disponibilidade poderiam, com a sua criatividade e energia, ajudar-nos a superar crises e carências? Quantas crianças não amadas estão à espera de adoção? Quantos fetos abortados e que poderiam ser acolhidos por tantas famílias que o desejam? Quanta pobreza e exclusão social, em Portugal e no mundo todo, com necessidade de mãos e de abraços?…

 

Sete sugestões

Realizamo-nos na relação, no casamento ou em outros caminhos. Nenhum deles prevê necessariamente mais felicidade e cada um deve encontrar onde se encaixa e onde se realiza e realiza os outros.

Defendo, assim, que a ajuda no discernimento vocacional deve ser feita apresentando as várias opções e a Semana de Oração pelas Vocações não seja dirigida apenas para os consagrados, mas para as várias opções, com estas sugestões concretas:

  • Com a consideração igual das vocações para um solteiro;
  • Tendo em conta as novas realidades sociológicas, sobretudo a idade de casamento; os “jovens” já não são o que eram;
  • Nenhuma vocação é “superior” à outra;
  • O matrimónio é o caminho mais escolhido, pelo que deve ter outro lugar no trabalho pastoral. Mais formação, não necessariamente só “doutrinária” (CV 214) e de “proselitismo” (CV 211-212), mas acompanhamento de amizade e de acolhimento, como diz o Papa;
  • A preparação para o casamento é fulcral, se se quer contrariar os números citados;
  • O apoio às situações delicadas de divórcio e separação também é muito importante, a avaliar pelos números. O casamento não é uma instituição querida em Portugal e a Igreja também tem uma palavra a dizer e a reconhecer;
  • Também se pede mais apoio aos agentes pastorais que muitas vezes sacrificam a sua vida pessoal e profissional em prol dos outros.

 

António Pimenta de Brito é co-fundador do projeto datescatolicos.org

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