Covid-19: Fátima com “normalidade”, mas já há um plano de contingência preparado
Plano de contingência foi preparado com autoridades de saúde; medidas de prevenção estão em vigor há duas semanas. No Vaticano, o Papa fez o Angelus “enjaulado” e as missas e funerais foram suspensos em toda a Itália.
Santuário de Fátima: para já, a vida segue normal, mas os responsáveis estão atentos ao evoluir da situação. Foto © António Marujo/7MARGENS
Enquanto em Itália as celebrações religiosas estão suspensas e, no norte de Portugal, cresce o número de escolas e vários serviços encerrados, em Fátima tudo decorre com “normalidade”. Mas os responsáveis do Santuário têm já um plano de contingência preparado, depois de terem adoptado, desde a véspera de Carnaval, várias medidas preventivas para enfrentar e evitar a propagação do Covid-19, disse ao 7MARGENS a porta-voz do Santuário, Carmo Rodeia.
No fim-de-semana em que surgiu o primeiro caso do novo coronavírus no Vaticano e em que o Papa fez a sua habitual alocução do Angelus numa transmissão vídeo a partir da Biblioteca, o 7MARGENS procurou saber que medidas estão a ser postas em prática no maior lugar de afluência religiosa do país.
Além das medidas preventivas, que continuam a ser observadas, o plano de contingência está preparado, com a colaboração da autoridade de saúde local. Será accionado “em função das circunstâncias e com proporcionalidade”, de acordo com o necessário “em cada momento”.
Tendo em conta a época de Inverno que se vive e o contexto de prevenção de infecções, as medidas são as que têm sido recomendadas pelas autoridades de saúde, explica a mesma responsável: reforço de medidas de higiene, aligeiramento do contacto social – “o que nas nossas celebrações significa omitir o abraço da paz e sensibilizar para a comunhão na mão”, duas recomendações feitas no passado dia 2 pelo episcopado.
A recomendação da distribuição da comunhão apenas na mão das pessoas é feita a todos os padres, não só para as celebrações oficiais do santuário, mas também para as de grupos – as chamadas celebrações “privadas”. Além disso, as poucas pias de água benta que ainda tinham alguma água – costumam ser reduzidas durante o Inverno – foram completamente esvaziadas.
O Santuário também colocou frascos com solução desinfectante em todos os locais de acesso público e reforçou a informação disponibilizada pelas autoridades de saúde – em todos os postos de informação e em todas as línguas mais utilizadas –, sensibilizando ainda “para a importância de todos terem alguma contenção nos contactos sociais”. Para todos os funcionários, seguiu informação recomendando o reforço das medidas de higiene e o cumprimento das regras de higiene e segurança no trabalho.
Mais grupos que em 2019
Não há, até agora, qualquer cancelamento de celebrações ou actividades diárias do programa oficial, diz ainda Carmo Rodeia. Apesar de a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a Autoridade Nacional de Saúde dizerem que não há restrições de viagens, comércio ou produtos” – cabendo a cada pessoa a decisão de participar ou não em eventos públicos ou de massas –, já houve, no entanto, 19 grupos que cancelaram peregrinações: oito eram sul-coreanos (o país mais afectado, depois da China), dois indonésios, um do Sri Lanka; três italianos (o país mais atingido, na Europa) e três espanhóis; um da Guatemala e outro do Brasil. Todos eles, diz Carmo Rodeia, invocaram a actual crise sanitária mundial do Covid-19 como razão para o cancelamento, mas argumentando com “constrangimentos de mobilidade no local de origem”.
Apesar disso – e é o reverso da medalha –nos dois primeiros meses do ano foram acolhidos no Santuário (e registados nos respectivos serviços) 248 grupos (155 estrangeiros e 93 portugueses), bastante mais que no mesmo período do ano passado (165 grupos, dos quais 88 estrangeiros e 77 portugueses). Para a Semana Santa (entre 5 e 12 de Abril), há 14 grupos, três dos quais estrangeiros, inscritos no Santuário.
Para lá dos números, a porta-voz afirma: “É com serenidade que olhamos para a situação sem deixarmos de estar atentos e de acompanhar, de forma responsável, o que se está a passar no país e no mundo. Conscientemente, não poderíamos fazer de outra maneira dada a multiplicidade de peregrinos que nos chega diariamente de todas as partes do mundo.”
Entre as recomendações que o Santuário tem divulgado, está também a de alguém que tenha sintomas se dirigir à Linha Saúde24 ou a algum vigilante do Santuário, que tem instruções sobre o que deve ser feito no primeiro momento. Profissionais de saúde que vão a Fátima integrados em grupos também são convidados a informar-se mais activamente do plano previsto, diz a mesma responsável.
“Estamos muito atentos e temos agido preventivamente. Estamos prontos para responder a algum problema que surja”, resume a porta-voz.
Não há missas em Itália e jornadas de cuidados paliativos foram adiadas
Cúpula da Basílica de São Pedro. Outubro de 2019. Foto © António Marujo/7MARGENS.
Certo é que as jornadas sobre Cuidados Paliativos, previstas para 16 e 17 de Março, em Lisboa e Fátima, foram adiadas, de acordo com informação divulgada pelos organizadores, na noite deste domingo, dia 8. A iniciativa está a ser preparada em conjunto pela Academia Pontifícia para a Vida, Conferência Episcopal Portuguesa e Associação dos Médicos Católicos Portugueses, com o apoio da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos.
Em Itália, os bispos acataram a decisão governamental de cancelar todas as iniciativas públicas que impliquem concentrações de pessoas, incluindo celebrações religiosas como missas e funerais. A medida está para já em vigor até 3 de Abril, apesar das “dificuldades” que implica uma tal decisão, anunciou a Conferência Episcopal Italiana, citada na agência Ecclesia.
Também o cardeal Angelo de Donatis, vigário do Papa para a diocese de Roma, comunicou a suspensão de eucaristias e funerais, apesar do “sofrimento e dificuldade” que isto causa entre o clero e os fiéis. A aceitação da medida pretende sobretudo contribuir para o que a tutela da saúde pública está a pedir, mas haverá igrejas abertas para a oração individual, desde que garantam espaço suficiente para que não haja contacvtos próximos entre as pessoas.
Na Santa Sé, o fim-de-semana foi atípico: museus e vários espaços e serviços encerrados, Praça de São Pedro quase vazia e o Papa a fazer a sua alocução do Angelus deste domingo, 8, “enjaulado na Biblioteca” do Vaticano e sendo visto através dos ecrãs gigantes instalados na Praça de São Pedro.
“Estou próximo, com a oração, das pessoas que sofrem com a actual epidemia de coronavírus e com todos aqueles que cuidam delas. Lembrei-me muito delas nestes dias de retiro”, disse Francisco, aludindo à semana em que não saiu dos seus aposentos. Atingido por uma constipação, o Papa acompanhou, à distância, os exercícios espirituais de Quaresma da Cúria Romana, que decorreram até sexta, 6, em Ariccia, próximo de Roma.
Também o Papa, que falou da tragédia síria, referiu as medidas preventivas decretadas pelas autoridades italianas, que visam evitar qualquer concentração de pessoas – por isso, só foi à janela do Palácio Apostólico no final, saudar algumas pessoas que circulavam na praça.
As audiências-gerais de quarta-feira estão, para já, canceladas, tal como a participação de fiéis na missa da manhã presidida pelo Papa na Casa de Santa Marta. Por causa disso, Francisco autorizou a transmissão da celebração através dos canais do Vaticano na internet – o que acontecerá diariamente toda esta semana, pelo menos, diariamente às 6h da manhã, hora de Lisboa.
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