O historiador italiano e fundador da Comunidade de Sant’Egidio Andrea Riccardi diz-se surpreendido com o que designou por “êxodo repentino” de 60 mil pessoas jovens que entraram em Ceuta na última sexta feira, atribuindo a redes mafiosas a responsabilidade pela criação da ideia de que a Espanha tinha as portas abertas. “Um êxodo dos condenados da terra que levanta suspeitas de uma conspiração por trás dele”, alertou.
Em declarações publicadas este domingo pelo diário La Repubblica, Riccardi, que é considerado um especialista em pensamento humanístico contemporâneo e uma voz autorizada no cenário internacional, recusou que, neste caso extraordinário, se trate de um complô, pelo menos “até ver as provas”. Até porque, disse, Marrocos acolheu os marroquinos de volta, sem levantar obstáculos. Mas reconheceu também que há muitas perguntas sem resposta.
Atendendo ao estatuto especial da cidade-enclave de Ceuta e o facto de estar fora do espaço Schengen, o académico considerou a medida da primeira ministra Meloni, de suspensão do acordo de Schengen, exagerada. “Mais uma vez, deparamo-nos com a exploração de migrantes, tratados como [fluxos de] torneiras que podem ser abertas e fechadas. Essa questão não pode ser resolvida simplesmente por meio de discussões sobre fronteiras”, acrescentou
Andrea Riccardi teme, agora, que nos próximos ciclos eleitorais em Itália, na França e noutros países, este tema se converta em motivo “conflito, polarização e exasperação”. Em vez de uma abordagem desta matéria “de forma construtiva”, ele receia que “nos distanciemos cada vez mais da realidade e dancemos com fantasmas”.
Luis Argüello, presidente da CEE: está-se a “brincar com a vida” das pessoas

Foto: Luis Argüello, presidente da Conferência Episcopal Espanhola (CEE). © Conferencia Episcopal Espanhola | Wikimedia Commons
O presidente da Conferência Episcopal Espanhola, Luis Argüello, que é também arcebispo de Valladolid, escreveu, a propósito de Ceuta, na sua conta da rede X, que “a biopolítica é fundamental no atual cenário de poder mundial”, alertando que se está a “brincar com a vida” e a usar as pessoas — “os seus sonhos, a sua fome, a sua sexualidade e seus dados” — “em prol do lucro e do poder”.
Para o arcebispo Argüello, as migrações “fazem parte dessa estratégia” de lucro e de poder, considerando que aquilo que designa por “invasão de Ceuta” constitui um teste. Nesse sentido, para ele, “a demografia é uma arma”.
Por sua vez, a diocese de Cádiz-Ceuta emitiu um comunicado em que expressa “profunda preocupação pela gravidade dos acontecimentos e a especial vulnerabilidade de tantas pessoas afetadas por esta situação” e manifesta a sua disposição de colaborar com as instituições civis e órgãos competentes, colocando à disposição os recursos humanos e materiais que possui. Tomou, entretanto, a decisão de afetar às necessidades da situação nesta cidade autónoma as coletas realizadas nas celebrações do fim de semana nas paróquias de Ceuta.
Do lado de Marrocos não são conhecidas posições de líderes religiosos. No caso da arquidiocese católica de Rabat, estes acontecimentos surgem no meio de uma grande indefinição, depois que o arcebispo local anunciou, no início de julho último, encontrar-se suspenso preventivamente, enquanto decorre um inquérito preliminar contra ele, desencadeado pelo Vaticano, por denúncias de “comportamentos inapropriados com mulheres adultas”.
Por coincidência, a Cúria Romana anunciou neste sábado, 2 de agosto, ter nomeado
o presbítero Mario Leon Dorado, atual prefeito apostólico de Laâyoune-Sahara (Saara Ocidental), como administrador apostólico “sede plena” da Arquidiocese, com “todos os direitos e faculdades concedidos aos bispos residentes”.
“Êxodo motivado por interesses políticos”

Chegada de migrantes ilegais a Ceuta, a 18 de Maio de 2021. Foto: Direitos reservados/via Religión Digital.
Por sua vez, o arcebispo emérito de Tanger, Santiago Agreto Martínez, escreveu este domingo uma coluna no jornal católico italiano Avvenire, em que considera que “aquilo que aconteceu esta semana tem pouco ou nada a ver com a situação dos imigrantes ilegais. Em vez de demonstrar o sofrimento dos mais vulneráveis, parece ser um êxodo motivado por interesses políticos”.
“Mais do que a história dos pobres em busca de comida, parece um confronto oportunista entre forças poderosas — sejam elas partidos políticos, nações ou ideologias”, acrescentou o antigo responsável católico, que se refere às dezenas de milhares de pessoas a entrar em e a sair de Ceuta como “humanidade em movimento que é, para os crentes, uma questão de compaixão”.
Perante essas “ovelhas sem pastor… os explorados, os manipulados, os oprimidos, os famintos, aos crentes em Cristo, o mandamento é constantemente dirigido: ‘Dai-lhes de comer’”, sublinhou.










