[domingo v da quaresma – c 2025]
1. Hoje, a Palavra floresce em primavera
e o seu eco é perfume de sentidos novos.
Multicolor e perfumada, ela, a Palavra, oferece-se como jardim
que nos convida a desnovelar a nossa vida e o mundo.
Se contemplarmos calmamente os canteiros dos jardins,
aprenderemos a fruir gostosamente da Palavra de Deus.

[Da velha roseira a primeira flor saindo do botão © fotografia: Joaquim Félix]
2. De manhã, perto de um robusto lódão em rebentações,
contemplei, numa velha roseira, a primeira flor saindo do botão.
Sim, não havia mais. Era branca. Pura. Perfumada. Solar.
Poderia ter-me fixado nos abundantes espinhos das varas,
pois os rebentos eram ainda escassos e frágeis, mas não o fiz.
Depois, dirigi os olhos para uma scilla peruviana,
também conhecida por cila-portuguesa e cebola-albarrã-do-Peru,
que se encontrava a desnovelar as suas pequenas flores violetas.
Ao lado, no muro de pedra, um lagarto-ágil
contemplava-me enquanto aquecia o sangue.

[No muro de pedra, um lagarto-ágil © fotografia: Joaquim Félix]
3. Também vós tereis experiências semelhantes.
Esta convocação não é para nos desviar do essencial,
ou armar uma cilada como os escribas e fariseus fizeram a Jesus,
mas para contemplar o esplendor da Página-Jardim do Evangelho.
Sim com aquela atenção com que Isaías
profetizou a vontade de Deus abrir caminhos novos,
voltando os olhos para o futuro, não para o passado:
«Olhai: vou realizar uma coisa nova,
que já começa a aparecer; não a vedes?» (Is 43,19).
Que coisa nova será essa?
Ele o diz: «Vou abrir um caminho no deserto,
fazer brotar rios na terra árida» (Is 43,20).
4. No relato do Evangelho, Jesus abre-nos um caminho novo.
Transforma a situação da mulher adúltera num itinerário;
para ela, sim, mas também para os escribas e os fariseus.
E, por conseguinte, para nós, leitores-discípulos de Jesus.
Vamos por partes, com atenção, para atender a certos detalhes.
De contrário, a Palavra não abrirá caminhos, não florirá…
Contemplemo-la, pois, como aquela rosa branca entre espinhos.
Contemplemo-la, como às flores desnovelando-se.

[Scilla peruviana desnovelando-se © fotografia: Joaquim Félix]
5. Jesus está de subida a Jerusalém para celebrar a Festa das Tendas.
Sabendo, porém, que os judeus lhe querem dar a morte,
percorre a Galileia, de forma discreta, evitando a exposição pública.
A partir de determinado momento, começa a ensinar
e revela a sua missão messiânica e a iminência da sua partida.
Com isto, surgem discussões sobre a origem de Cristo (cf. Jo 7,25-30,40-52).
E dividem-se os ouvintes, entre os que acreditavam nele
e os que o rejeitavam, até por conhecerem a sua origem.
No final do dia, todos voltam para casa;
Jesus, porém, «foi para o monte das Oliveiras» (Jo 8,1).
6. De manhã cedo, Jesus apresenta-se no Templo e começa a ensinar.
É então que os escribas e os fariseus lhe apresentam a mulher adúltera.
Conhecedores das leis, eles sabiam que ambos, homem e mulher,
deveriam perecer, tendo em conta a severa lei exarada
nos livros do Deuteronómio (cf. Dt 22,22-24) e do Levítico (cf. Lv 20,10).
Não deixa de ser curioso como, tendo sido apanhada em flagrante,
só tenham apresentado a mulher e não o homem.
E mais, o interesse deles continha um encoberto suplemento:
encontrar um pretexto para acusar Jesus (Jo 8,6).

[Poderia ter-me fixado nos abundantes espinhos das varas © fotografia: Joaquim Félix]
7. Sem nome e desamparada, a mulher é colocada no meio.
Está rodeada por um muro de homens acusadores,
prontos a atirar as pedras da Lei e a acusar Jesus.
Não se sabe porque não trouxeram o homem,
apanhado, também, em flagrante adultério…
E, contudo, armam a cilada àquele que tratam por «Mestre» (Jo 8,4).
Que faz Jesus? Inclina-se, e volta a inclinar-se,
escrevendo com o dedo no chão (Jo 8,6 e 8).
Jesus inclina-se; eles elevam-se, persistindo na pergunta.
8. Que significado terá este gesto de Jesus?
É a única vez que os Evangelhos nos apresentam Jesus a escrever.
Mas, que terá Ele escrito, para mais, na terra?
Uma nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém refere:
«O significado desse gesto permanece obscuro» (p. 2006).
E, todavia, são muitos os exegetas que exploram tal significado.
Sem procurar soluções fáceis, ou cair em alegorismos,
gostaria de adiantar a interpretação que me ocorreu.
A Lei foi escrita em duas tábuas de pedra
com o dedo de Deus, entregues a Moisés (cf. Dt 9,10).
Jesus, com o seu dedo, escrevendo na terra,
reescreve a Lei, reconduzindo-a à sua plenitude.
Nos sulcos desse escrever, nesse arar do chão de todos,
ou como quem desenha dunas num deserto a atravessar,
Jesus abre o caminho novo: do amor e do perdão.
Esta caligrafia, perdoe-se-me a associação imagética,
lembra-me certas páginas, escritas por Giancarlo Pavanello,
que se encontram na exposição «Verbo Visivo»,
em três lugares da cidade de Braga:
na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, no Museu Pio XII e na Zet Gallery;
exposição que vivamente aconselho a contemplar.

[Páginas violetas, escritas por Giancarlo Pavanello © fotografia: Joaquim Félix]
9. Profundos são também os textos que, no Catálogo,
fazem pontes para a leitura dos nossos dias cercados.
Assim como Jesus não voltou as costas à mulher,
não se desinteressou dela, nem tão-pouco dos acusadores,
também nós estamos convocados para cuidar da vida de todos.
É isto que recorda Teresa Bartolomei,
num texto que escreveu, para o mencionado Catálogo,
a propósito dos painéis da Via Sacra e dos poemas de Carlos Poças Falcão:
«A história sangrenta destes nossos tempos trágicos
pede-nos que não lhe voltemos as costas,
que não desviemos o olhar da via sacra
que se tornou hoje a existência de tantas vítimas inocentes
da violência política, económica, bélica.
É preciso olhá-la até ao fim, esta história,
atravessá-la e fazê-la ressoar na nossa inteligência e no nosso coração
para nos tornar parte ativa da esperança de redenção
que ela invoca e nos interpela» (p.138).

[Painéis da Via Sacra e poemas de Carlos Poças Falcão, na Zet Gallery © fotografia: Joaquim Félix]
10. Para isso, será importante passar
da lei-do-tempo-da-pedra à lei-do-coração-de-carne.
Qual o valor de uma lei se ela não é geradora de liberdade?
Renovada por Jesus, a lei é instituinte de identidade:
a daqueles que perdoam e são perdoados.
Uma lei assim é fonte de sabedoria, dom de Jesus.
É difícil deixar-se perdoar? E perdoar?
Numa vídeo-instalação, intitulada «Pedoar.7 bilhões de Outros»,
vemos como a resposta difere muito de pessoa para pessoa.
11. Surpreenderá a forma delicada como Jesus salvou a adúltera,
e como libertou os acusadores dela e seus armadores de ciladas:
«Quem entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra» (Jo 8,7).
Jesus perdoou a mulher, sim, mas aos outros também,
fazendo com que, sem se exaltar nem ofender,
eles se retirassem sem atirar uma única pedra.
Oxalá os diplomatas, que estão a desenvolver difíceis diligências,
possam inspirar-se nesta atitude para mudar os violentos.
12. Gostaria de terminar, voltando à exposição «Verbo Visivo»,
para ouvir o poema «Sexta-feira Santa», do Card. José Tolentino,
ao sabor da música de Pedro Abrunhosa e da voz de Sofia Marafona:
«A via escolhida por Deus vai dar a um muro
Mas chegado ao fim
O caminho
Volta-se para nós
Como se um segundo sonho
Sussurrasse dentro do primeiro
Deus ainda não terminou»
Efetivamente, diante de todos os muros presentes,
o Caminho volta-se para nós a dizer
que nem Deus nem os sonhos terminaram.
Continuemos, portanto, a correr, desnovelando a vida,
na mesma atitude com que S. Paulo,
desejoso de conhecer Cristo, a «Flor Brilhante» (Hildegard von Bingen),
se dirige para a meta: correndo, correndo (cf. Fil 3,8-14).
Sabendo que, mesmo se longínqua a meta,
Deus continuará a fazer grandes coisas por nós (cf. Sl 125,1).

[Cristo, a «Flor Brilhante» (Hildegard von Bingen) © fotografia: Joaquim Félix]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia referente ao domingo v da quaresma – c 2025, dia 6 de abril, proferida na Igreja de S. Paulo do Seminário Conciliar de Braga.










