
“E, voltando para os seus discípulos, achou-os adormecidos;” Pintura: Agonia de Jesus no jardim de Getsémani , do pintor Andrea Mantegna (1431–1506); Galeria Nacional de Londres.
O profeta Isaías apresenta Jesus Cristo como o “varão de dores” durante a Sua Paixão:
“Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do SENHOR? Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos.
Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum.
Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.
Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.
Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos” (Isaías 53:1-6).
Mais tarde o evangelista S. Mateus descreve a agonia de Cristo no Getsémani neste termos:
“Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsémani, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar. E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo” (Mateus 26:36-38).
Se Isaías é profecia, Mateus é história.
A palavra Getsémani significa “lagar de azeite”. Foi ali que Jesus foi: “moído por causa das nossas iniquidades”, isto é, esmagado por nós como se esmagam as azeitonas no lagar.
Consideramos especialmente três razões fundamentais para compreender o sofrimento de Cristo no Getsémani:
A primeira é a profunda agonia espiritual e física que decorreu do facto de assumir sobre si os pecados de toda a humanidade. João Baptista declarou: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. E Isaías: “o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.” Essa agonia foi tão evidente que o evangelista Lucas nos informa do raro fenómeno de hematidrose, associado a momentos de grande pressão, tensão, angústia e stresse: “E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão” (22:44).
A segunda razão é um certo afastamento temporário do Pai, a quem não foi possível responder positivamente à súplica de Jesus: “E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” (39); “E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade” (42).
De facto havia que beber aquele cálice amargo até ao fim, e era um cálice solitário, o cálice do Cordeiro.
Tal como sucedeu com o filho pródigo, que uma vez longe de casa mergulhou na miséria humana, mas sem nunca sem deixar de ser filho de quem era, também Jesus, perante o afastamento do Pai (sem deixar de ser Filho de Deus) ficou profundamente vulnerável na sua condição humana, e em sofrimento profundo.
A terceira razão é o afastamento e adormecimento dos seus amigos: “E, voltando para os seus discípulos, achou-os adormecidos; e disse a Pedro: Então nem uma hora pudeste velar comigo? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (40); “E, voltando, achou-os outra vez adormecidos; porque os seus olhos estavam pesados” (42,43). Para um cristão a comunhão é estruturante, e a sua perda é dramática.
Em profunda agonia espiritual, emocional e física, no afastamento momentâneo do Pai e perante a indiferença dos seus amigos, Jesus-homem ficou entregue a si mesmo, em profunda solidão.
Mas existem igualmente três razões pelas quais eu não tenho que suportar hoje um Getsémani:
A primeira é que eu não tenho de carregar nem sequer os meus próprios pecados, pois Jesus já o fez por mim, no Getsémani e no Calvário: “E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Coríntios 5:15).
A segunda razão é que, quando me arrependo tenho comunhão e livre acesso ao Pai. Ele não está afastado de mim, pois fomos reconciliados em Cristo: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação” (2 Coríntios 5:17,18);
Por último, os meus amigos (igreja) estão sempre comigo: “Permaneça o amor fraternal” (Hebreus 13:1). Numa comunidade de fé saudável qualquer pessoa pode contar com o suporte dos seus irmãos em momentos de aflição.
Então, porque Jesus suportou o sofrimento do lagar, hoje eu posso sentar-me à mesa e gozar as alegrias da comunhão com Deus e os irmãos na fé. E porque Ele foi “moído por nós”, hoje podemos contar com a unção do azeite, que é a operação do Espírito Santo na nossa vida.
Que excelentes notícias.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.










