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Sé de Braga. Vigília Pascal

Livro sobre Precónio Pascal

E a escuridão é clara como a luz

| 23/03/2025

 

O Precónio – A dimensão cósmica do Exultet e da Vigília Pascal é o título do livro do monge beneditino de Singeverga, Pedro Gonçalves Rodrigues, que resulta da sua tese de mestrado integrado em Teologia, classificada com o máximo de 20 valores, na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

O prefácio do livro, agora editado pelo Secretariado Nacional de Liturgia, é da autoria do padre Joaquim Félix de Carvalho, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e colaborador regular do 7MARGENS. É esse texto que aqui se reproduz.

 

 

 «Esta é a noite, da qual está escrito:
A noite brilha como o dia
e a escuridão é clara como a luz»

[Fragmento do Precónio Pascal. Missal, 323]

 

Exulte. Rejubile. Alegre-se. Declamado ou em canto, o convite do Precónio pascal é dirigido primeiro aos anjos, depois à terra, por fim, à Igreja. Agora, porém, na confluência de motivos que ressoam, a convocação é para os leitores: Exultai! Exultai de alegria porque este livro, crescente à luz dos vossos olhos, sobrevém do crepúsculo de saberes fragmentados; e até de um não-saber. Esclarece os leitores. Brilha, acordando, na noite do desconhecido! Afugenta a ignorância. Corresponsabiliza a agenda da fé; e, no quotidiano, clareia as relações humanas e cósmicas. Esperança. Porque, nas suas explicações, ele participa da luzência do seu conteúdo, esclarecendo à «Luz da Luz», difundida na vigília pascal. Oh bruxuleante cantata do Precónio e do Círio! Voz e Luz. É também ele, o livro, na sua filologia, lucernário. De forma iniciática, ele conduz à iluminação de quem o lê. Para todos os efeitos, esta obra é uma lâmpada colocada no candelabro da leitura. E como brilha! Bem-aventurados sereis, leitores!

Sé de Braga. Liturgia

[Círio aceso na sé de Braga, durante a vigília pascal Fotografia © Hugo Delgado, cedida pelo autor]

 

Pedro Rodrigues, monge do Mosteiro de S. Bento de Singeverga, apresenta nesta obra um dos mais significativos estudos, senão mesmo o melhor, em língua portuguesa, sobre a dimensão cósmica do Precónio e da vigília pascal na liturgia romana. Estudo que, por motivos de rigor filológico e, em certos casos, da aplicação do método comparativo, é praticado em regime de abertura às liturgias ocidentais não romanas, em especial a beneventana; todavia não exclusivamente, pois, por diversas vezes, considera também a galicana, a ambrosiana e a hispânica. Por conseguinte, só desta forma se compreende a evolução ritual da tradição romana, que, em determinadas épocas, devido a motivos de ordem vária ― religiosos, culturais e inclusive de natureza política ― passa por fenómenos de hibridação, influência e mesmo substituição de várias tradições litúrgicas.

Longe de saturar, o estudo histórico é deveras elucidativo. De uma clareza que surpreende. E, a propósito de certos detalhes, desperta inclusive espanto. Fiel às fontes remanescentes, garante-se a objetividade científica. Existem questões que permanecem abertas? Com certeza. Porém, o exercício das hipóteses é tecido a partir de um racional fundamentado. Em perspetiva crítica e hermenêutica, nele procura-se aferir a evolução da vigília pascal, discernindo as relações entre a liturgia e a cultura. Nessa medida, são consideradas as instâncias de modificação da respetiva ação litúrgica. Mais do que admirar extaticamente o passado ― todavia, sem minguar a dimensão contemplativa ―, o horizonte é aberto às dimensões teológicas e pastorais. Neste propósito, Pedro Rodrigues explora o programa ritual, a comunicação, as condições, o sujeito e a espiritualidade litúrgica da vigília pascal.

 

Da suprema e mais nobre das solenidades

 

Na última edição do Missal Romano, descreve-se a estrutura da celebração da vigília pascal, em todas as suas partes, a hora mais conveniente, a preparação dos materiais e as competências dos ministros. E, ao vincar-se que só pode celebrar-se uma vigília em cada igreja, ela é definida nos seguintes termos: «é a suprema e mais nobre de todas as solenidades» (Missal, 311). É a vigília das vigílias. Magna e mãe.

Efetivamente, como recorda José Cordeiro, na apresentação do livro Celebrações da Semana Santa, «a Liturgia da Igreja convida-nos, portanto, a celebrar, na alegria do coração, o perene Aleluia em Cristo, a nossa Páscoa e a nossa Paz» (Celebrações, 5). Corresponde a uma antiquíssima tradição, testemunhada por fontes litúrgicas e patrísticas.

Na solenidade da Epifania do Senhor, ao fazer-se, depois do Evangelho, o anúncio da Páscoa e das festas móveis, assinala-se, já em preparação, este fulcro do tempo salvífico: «O centro de todo o Ano litúrgico é o Tríduo do Senhor crucificado, sepultado e ressuscitado, que culminará no domingo de Páscoa, dia … de março (abril)» (Missal, 171). Quando cantado, como sucedeu, por exemplo este ano de 2025, na igreja de S. Martinho de Cedofeita (Porto), este anúncio assemelha-se a uma participação, por sentinela em prolepse, dos prolegómenos da cantata pascal que ressoará num futuro próximo, concretamente, no Precónio da vigília pascal.

Espelho das mais profundas simbólicas, a cantata da luz pascal encontra-se na liturgia da luz, celebrada na vigília pascal. Acesos o fogo e o círio, o celebrante principal declara que aquela luz simboliza Cristo ressuscitado, luzeiro dissipador das trevas do coração e do espírito. Aclamada por três vezes, a luz de Cristo avança, passa a porta e é entronizada no candelabro. Nova coluna de nuvem «ilumina a noite» (Ex 14,19) e conduz o povo ao anúncio da vitória sobre as trevas.

 

As expressões do Precónio, sumamente conhecidas, contam-se entre os versos da melhor poesia litúrgica. O simbolismo da luz pascal, Cristo ressuscitado, é explorado por contrastes, exultações e anúncios, numa linguagem enfática. Não é bastante que a terra jubile; antes, é interpelada a rejubilar. De seguida, no assomo das vozes festivas, o convite à alegria é também dirigido à Igreja: «Alegre-se a Igreja, nossa mãe, adornada com os fulgores de tão grande luz» (Missal, 322).

Não posso transcrever ou recorrer a sinonímias, para recapitular as simbólicas da luz pascal. Talvez a mais paradoxal seja suficiente: «Esta é a noite, da qual está escrito: A noite brilha como o dia e a escuridão é clara como a luz» (Missal, 323). E, bem assim, em honra da coluna de cera acesa: «Esta chama que, ao repartir o seu esplendor, não diminui a sua luz» (Missal, 324). Eis porque, no final, se manifesta o desejo do seu arder incessante para congregar o perfume à luz, que se junta à das estrelas, e, entre estas, o astro sem ocaso: Jesus Cristo, filho de Deus, «que, ressuscitando de entre os mortos, iluminou o género humano com a sua luz e a sua paz» (Missal, 324).

Iluminados por esta luz canora, na ditosa noite, na qual o Céu se une à terra, passemos a considerar certos aspetos inerentes e internos desta obra que, como se explicita no título, privilegia e aprofunda «a dimensão cósmica do Exultet e da Vigília Pascal».

 

Dimensão cósmica

Sé de Braga. Vigília Pascal

[Vigília pascal na sé de Braga: preparação para o rito do «Accendite» Fotografia ©Hugo Delgado, cedida pelo autor]

 

Quando Pedro Rodrigues começou a arquitetar a reflexão sobre a dimensão cósmica da vigília pascal, abriram-se várias possibilidades, em termos de filões a explorar, para além daquelas que, neste livro, se vieram a concretizar. As obras e os estudos não citados, que se encontram no elenco da bibliografia, não são por nada referências supérfluas. De todo. Antes, tal corpus constitui-se como mapa de marcas, ao mesmo tempo delimitativas e remissivas, de um tema em expansão que, de forma interligada, pode ser investigado com diferentes óticas. Garantes de correlações, elas permitem depreender a amplidão de horizontes que, de início, foram equacionados para aprofundar esta temática.

Privilegiada a dimensão cósmica, para refletir sobre a vigília pascal, o pensamento que primeiro orientou este estudo foi o de Pierre Teilhard de Chardin. Da sua vasta e instigante bibliografia ― nem sempre digerida com semelhante receção, é verdade ―, duas obras altearam os pórticos antigos para expandir a temática. Foram elas o Hino do universo (cf. Chardin 1995) e O meio divino (Chardin 1997).

Como declinações do fogo no mundo, ambas as obras criaram o clarão cosmovisional ― mais que um campo epistemológico ―, que permitiu vislumbrar a direção do estudo. Clarão esse que Teilhard de Chardin narra, a partir das suas místicas visões, na parte intitulada A missa no altar do mundo, concretamente em O fogo do mundo: «Aconteceu. O Fogo, uma vez mais, penetrou a terra. Não caiu fragorosamente sobre os cumes, como o relâmpago no seu fulgor. Forçará o Mestre as portas para entrar em sua casa? Sem abalo, sem trovões, a chama tudo iluminou pelo lado de dentro. Do coração do mais pequeno átomo à energia das leis mais universais, invadiu de maneira tão natural, individualmente e no seu conjunto, cada elemento, cada mola, cada ligação do nosso Cosmos, que este, quase poderíamos julgá-lo, como que espontaneamente se inflamou» (Chardin 1995, 21).

 

A noite da vigília pascal participa deste Fogo que penetrou a terra, a ressurreição de Cristo. Através do programa ritual, o ministro acende não apenas um incêndio controlado dentro do fogareiro, ou restrito a pavios nas cabeças do círio e das velas, mas, de forma simbólica, o Fogo do Mundo. Fogo que inflama o cosmos inteiro, em todos os seus capilares, a filigrana das ligações. Por dentro, sim. Não por pelo exterior, como um relâmpago extemporâneo, ensurdecedor, mas ao som bruxuleante de tudo o que, por superabundância de motivos doxológicos, exulta.

Pedro Rodrigues beneficia desta amplitude de fundo, para apresentar muitas das dimensões ― litúrgicas, sobremaneira, mas também do âmbito das ciências humanas ― que estiveram presentes na reforma e restauração da vigília pascal. Hoje, o pensamento religioso, como tantas outras realidades e instituições, passa por profundas metamorfoses. Todavia, não será neste universo, constantemente ampliado, que a reflexão teológica se poderá instituir, com parábolas novas, enxertadas na semântica da Tradição, a expandir a sua plasticidade?

Na introdução ao livro O meio divino, que tem por epígrafe «In eo vivimus» (Nele vivemos), Teilhard de Chardin assinala a importância decisiva deste alargamento cosmovisional (cf. Chardin 1997,11). Tendo-o presente, o estudo da dimensão cósmica da vigília pascal dele muito beneficia.

 

Rolos, abelhas e grãos de incenso

 

Precónio

[A letra inicial da segunda parte do Precónio, o “V” da secção “Vere dignum”. Rolo Bari 2 (Museu Diocesano de Bari). Fotografia: Direitos reservados]

Porque o livro possui introdução e conclusão, e se apresenta bem articulado ao nível da arquitetura capitular, salientarei três notas, a propósito de opções e investimentos que o autor fez. Claro, em sintonia com certas orientações, uma vez que o presente livro resulta da sua dissertação de Mestrado Integrado em Teologia. Antes disso, porém, para se beneficiar do esplendor da luz textual, abundante como é, gostaria de propor um invitatório, convite inspirado no artigo «Simbólicas da luz na Liturgia», publicado nos cadernos ISTA: «Para aceder à simbólica da luz pascal na liturgia, acendamos um fogo novo. Um incêndio, de início soprado, na lentidão do acendimento. Partir da primeira chama. Que é já comunicação. Para quem perscruta o crepitar, obviamente. E, assim, entrar em intimidade com o cosmos, jardim iluminado, relação entre beleza-bondade criada e o omnium Conditor, Lux esendum» (Félix de Carvalho 2016, 64). Ele que é Criador de tudo, Luz para ser degustada pela fé.

Candelabro pascal

[Candelabro pascal, em mármore, na Basília Santa Sabina no Aventino, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]

 

O presente estudo é meritoso. Pedro Rodrigues apresenta, como jamais antes se tinha realizado, o processo da reforma e restauração da vigília pascal. A atenção ao conjunto alargado de documentos ― alguns encontravam-se dispersos e sem tradução para português ― beneficiou das qualidades do autor que, por formação académica na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, possuía já uma extraordinária proficiência em várias línguas. Tal competência, a par de capacidades invulgares no campo da hermenêutica textual e na meticulosidade da análise, permitiu, por um lado, a interpretação e tradução de textos latinos, nomeadamente das fontes documentais, e, por outro, a colação de muita bibliografia especializada em vários idiomas, alguma dela de difícil acesso. Fonte de mérito é, também, a linha diacrónica com que narra e interpreta a sequência de todo o processo, a fazer lembrar, por exemplo, a obra de Annibale Bugnini (cf. Bugnini 1997), sobre a reforma litúrgica do II Concílio do Vaticano, ou o percurso histórico-redacional da reforma conciliar do Ordo Missae, apresentado por Maurizio Barba (cf. Barba 2002). A reforma da vigília pascal é, como se pode acompanhar desde o capítulo 1, enquadrada, etapa a etapa, no contexto da reforma do Tríduo e da Semana Santa.

 Exultet

[A letra inicial “E” do Exultet. Rolo MS 30337 (British Library, Londres). Fotografia: Direitos reservados]

O presente estudo é instigante. Efetivamente, causará uma certa excitação intelectual o estudo dos rolos do Exultet na Itália meridional, na região do Benevento. Consagrando-lhes todo o capítulo 2, o investimento na pesquisa sobre tais rolos ― origem, tipologia, imagética, função, versões do texto do Exultet, notação musical, etc. ― é deveras um campo aliciante para aprender, com espanto, muitos detalhes e aspetos surpreendentes. Até mais do que aprender, pois propiciará momentos para saborear. Nesta matéria, o estudo poderia compreender uma outra gama de elementos, igualmente incitantes, como, por exemplo, os programas iconográficos dos candelabros pascais, à semelhança das esmeradas recensões que deles fez Crispino Valenziano (cf. Valenziano 2005), ou, bem mais perto, o estranho dragão das três velas na boca que continua a ser usado na liturgia da vigília pascal, na sé de Braga (cf. Félix de Carvalho 2018). Porém, justificando-se a necessária delimitação, Pedro Rodrigues aventurou-se numa investigação, incomum e sem precedentes na bibliografia em língua portuguesa, da qual graciosamente podemos beneficiar; e, inclusive, contemplar, porque de tais rolos se oferecem imagens, no apêndice documental. Ainda que em diferentes declinações da curiosidade, a origem dos cinco grãos de incenso do círio pascal e a referência às abelhas (ausentes, ainda assim, em algumas traduções), nas versões textuais do Exultet, serão igualmente fontes de admiração. Pelos equívocos, sim, mas não só. Este capítulo será, seguramente, não um desvio ao labirinto temático, mas um óculo, de luz e respiração, no itinerário da pesquisa. Que bem surpreende. E inspira a atenção.

[Candelabro pascal (detalhe) esculpido por Nicola d’Angelo, do séc. XII, em mármore, na Basília de São Paulo Extramuros, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]

O presente estudo está atento à dimensão pastoral. A dimensão cósmica do Exultet e da vigília pascal ― tese central do presente estudo ― é trabalhada no capítulo 3. Porém, deve notar-se que a justificada abundância de dados da narrativa diacrónica do processo, aliada à reflexão sobre a dimensão cósmica dos elementos constitutivos da vigília, não sufoca a perspetiva pastoral. Aliás, esta está sempre a cerzir o discurso, porque foi sobre tal coordenada, a pastoral, que a sua reforma se fez. Atenta, por um lado, aos elementos cósmicos, mas, por outro, na fidelidade a um dos princípios de toda a reforma litúrgica. Mais do que evidenciar a dimensão pastoral, no processo de reforma e restauração da vigília pascal, Pedro Rodrigues operou, também ele, mudanças ao texto da sua tese, conforme foi defendida em provas públicas, na Faculdade de Teologia: algumas secções foram reorganizadas e desenvolvidas, precisamente para expandir vários aspetos pastorais. E, desde aí, fazer leituras e propostas sobre a celebração da vigília pascal em nossos dias. A classificação máxima não lhe serviu de ponto final.

Abelha. Basília de São Pedro

[Abelha, em mármore, na Basília de São Pedro do Vaticano, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]

 

Coragem de avançar pela alegria dentro

 

Relevados os valores teológicos da vigília pascal, desde logo, da ressurreição de Jesus ― que, por sua vez, ilumina os mistérios sacramentais da iniciação cristã ―, mas também da importância de observar a verdade da hora para a sua celebração, sobretudo pelo significado e alcance das valências cósmicas, poderão surgir perguntas pertinentes: Se, por motivos de oportunidade pastoral, um presbítero ao serviço de várias comunidades paroquiais tiver de celebrar duas vigílias pascais, a que horas se poderia começar a primeira? Em caso de existir um número considerável de catecúmenos e de crianças para os sacramentos da iniciação cristã, será benéfico adotar, por norma, as fórmulas breves, inclusive do Precónio? E, em relação ao número de leituras, dos salmos e das orações, que se poderia fazer para que não se fique sempre pelos mínimos indicados nas rubricas?

Vigília pascal. Rito do «Accendite». Sé de Braga

[Vigília pascal na sé de Braga: rito do «Accendite»  Fotografia © Hugo Delgado, cedida pelo autor.]

 

Estas e outras perguntas não serão despicientes, quando, na parte final do seu estudo, Pedro Rodrigues chama a atenção para determinadas ameaças: «Porém, o cuidado em restaurar a celebração da Vigília pascal para a hora noturna primitiva parece hoje estar ameaçado: malgrado a falta de estudos precisos sobre a práxis litúrgica hodierna da Semana Santa e que forneçam uma visão de conjunto rigorosa, a tendência crescente para antecipar a hora de início da celebração da Vigília sugere uma diminuição da consciência do significado daquela restauração. Esta marcação em horário menos oportuno é agravada pela frequente abreviação da Vigília, tendo este duplo fenómeno afetado igualmente outras celebrações do Tríduo Pascal, o que provoca uma mutilação parcial do sentido das festividades pascais» (pp.147-148). Acautelados para evitar a indevida erosão, ele mesmo repropõe um princípio fundamental, de natureza teológica: «Daí ser necessário implementar uma compreensão da reforma litúrgica do Tríduo Pascal como muito mais do que uma mudança de rubricas e, acima de tudo, cultivar a compreensão renovada do significado profundo da Páscoa» (p.148).

Com este estudo, competentíssimo a vários níveis ― creio não ser demasia relevá-lo ―, Pedro Rodrigues insere-se na lídima linhagem de tantos monges que, sobretudo a partir das grandes abadias beneditinas europeias, promoveram o Movimento Litúrgico. E, desde logo, na esteira de mestres, como foi ― em Portugal, mas com alcance internacional ― António Coelho, que despertou a atenção para a importância da cultura litúrgica, gestante e alimentadora da vida espiritual (Coelho 2018). Da sua solicitude dão testemunho, por exemplo, o Curso de Liturgia Romana, em dois tomos (Coelho 1941/1943), a criação das revistas litúrgicas Opus Dei, Liturgia e Ora & Labora, e muita outra bibliografia, de divulgação e caráter científico. Atualmente, Pedro Rodrigues inscreve-se também no dinamismo de frutuosos liturgistas, como Bernardino Ferreira da Costa, abade de Singeverga, que, em 2018, publicou a sua tese de doutoramento dedicada ao tema do Movimento Litúrgico em Portugal (Costa 2018); tese defendida no Pontificio Istituto Liturgico di Sant’Anselmo, em Roma.

Vigília pascal na sé de Braga. Procissão.

[Vigília pascal na sé de Braga: procissão de entrada após a bênção do fogo e a preparação do círio. Fotografia © Hugo Delgado, cedida pelo autor.]

Terminadas as apresentações, não fossem já bastantes os motivos para ler esta obra, sugiro uma oração, própria de eucologia-maior, como junta de dilatação. Nem mais, são mesmo as duas primeiras estrofes do poema «páscoa de páscoas», da autoria de José Augusto Mourão: «Deus, Páscoa de páscoas,/ Deus da nossa noite do coração,/ do deserto que nos paralisa, sem visões de água/ ou rumores de gente ou história,/ dá-nos a coragem de avançarmos pela água dentro/ porque vais à frente do nosso medo/ e a profecia que visa a justiça nos precede// transforma a parte do nosso dia a dia/ feita de medo e de cansaço e de impiedade,/ transforma a nossa fuga em festa iluminada!» (Mourão 2009,25).

Em medida cósmica, Deus dará coragem, sim, não apenas para avançar pela água adentro, mas também pela alegria deste livro. Alegria que nutre ainda da generosidade, operosa e oracional, do seu autor, Pedro Rodrigues, e do Secretariado Nacional de Liturgia que publica este atraente artefacto amadurecido na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. Bem hajam.

 

 

 Referências

  • Barba, Maurizio. 2002. La riforma conciliare dell’«Ordo Missae». Il percorso storico-redazionale dei riti d’ingresso, di offertorio e di comunione. Roma: Centro Liturgico Vincenziano – Edizioni Liturgiche.
    Bugnini, Annibale. 1997. La riforma litúrgica (1948-1975). Roma: Centro Liturgico Vincenziano – Edizioni Liturgiche.
    Celebrações da Semana Santa. 2019. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia.
  • Chardin, Pierre Teilhard de. 1995. Hino do universo. Traduzido por Miguel Serras Pereira. Lisboa: Editorial Notícias.
  • —.1997. O meio divino. Traduzido por Gonçalo Praça. Lisboa: Editorial Notícias.
  • Coelho, António. 1941/1943. Curso de Liturgia Romana. Tomos I e II. Mosteiro de Singeverga – Negrelos:  Edições «Ora & Labora».
  • —. 2018. A Importância da Cultura Litúrgica na Vida Espiritual. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia.
  • Costa, Bernardino Ferreira. 2018. Movimento Litúrgico em Portugal. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia.
  • Félix de Carvalho, Joaquim. 2016. «Simbólicas da luz na Liturgia». Cadernos ISTA 32: 63-105.
  • —. 2018. «Liturgia da Semana Santa de Braga: textos e ritos». Theologica 2: 101-122.
  • Missal Romano reformado por decreto do Concílio Ecuménico Vaticano II e promulgado por autoridade de S. S. o Papa Paulo VI e revisto por S. S. o Papa João Paulo II. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2021.
  • Missale Romanum. Edytio typica. 2000. Romae: Typis Polyglottis Vaticanis.
  • Mourão, José Augusto. 2009. O nome e a forma. Poesia reunida. Lisboa: Pedra Angular.
  • Valenziano, Crispino. 2005. «Ambone e candelabro. Iconografia e iconologia». Em Gli spazi liturgici della celebrazione (Bibliotheca Ephemerides Liturgicae Subsidia 133), editado por Silvano Maggiani, 67-125. Roma: Edizioni Liturgiche.

 

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