Editorial 7M

E as pessoas pobres, contam? – Eleições, Igreja e universidade

| 21 Jan 2022

Sem-abrigo em Lisboa: o combate à pobreza como fenómeno transversal, transgeracional e profundo na sociedade portuguesa só tem sido referido a espaços na presente campanha eleitoral. Foto © Ozias Filho

 

A estatística mantém-se, apesar de algumas melhorias nas últimas décadas e de um óbvio progresso material no país, desde que no início dos anos 1980 se fizeram os primeiros estudos sobre o tema: cerca de 20% da população portuguesa continua a viver em situação de pobreza. Este número – uma em cada cinco pessoas – tem por detrás, no entanto, rostos concretos, vidas difíceis.

E essas pessoas contam? Infelizmente, no debate eleitoral, há temas que jornalistas e líderes partidários pouco têm trazido para a agenda eleitoral: emergência climática, tensões no leste da Europa que podem desembocar numa guerra com consequências imprevisíveis, refugiados, educação, justa distribuição de vacinas no mundo, acesso dos mais jovens à habitação ou ao emprego, têm sido pouco relevantes e não merece(ra)m tempo nas conversas pré-eleitorais.

Também o combate à pobreza como fenómeno transversal, transgeracional e profundo na sociedade portuguesa não foi senão referido a espaços, e quase sempre lateralmente. PS e PSD, os dois maiores partidos, com possibilidade de liderar um governo, enunciam várias medidas em três páginas de cada um dos seus programas, mas o combate à pobreza não está incluído, por si, nas 12 prioridades enunciadas pelo PS ou no “grande objectivo” do programa eleitoral do PSD.

Em relação ao país miserável e triste da ditadura do Estado Novo, a democracia deu-nos mais progresso e dignidade. Mas deveria ter reduzido de forma mais significativa o número de pessoas pobres. E se a pandemia poderia ter sido muito pior – várias medidas tomadas e muita solidariedade evitou o agravamento de uma situação que nos apanhou a todos desprevenidos –, é verdade também que ela agravou algumas desigualdades, nomeadamente com o alargamento do fosso entre os mais ricos e os mais pobres.

Tendo em conta que a Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) organiza neste sábado uma conferência sobre o tema, vale a pena pensar também no papel que a Igreja Católica poderia e deveria ter nesse combate ao flagelo da pobreza. Esta retira a muitas pessoas a possibilidade de uma vida minimamente digna e por isso o compromisso cristão em favor da dignidade humana deve ser proposto como uma experiência mística, algo que está “no próprio coração do Evangelho”, tal como o Papa Francisco recordava na exortação A Alegria do Evangelho (Evangelli Gaudium, cap. IV).

É importante lembrar, neste contexto, que na encíclica Caritas in Veritate (A Caridade na verdade), o então Papa Bento XVI colocava, já em 2009 – em plena crise financeira internacional –, “a urgência de uma reforma (…) da arquitectura económica e financeira internacional” como uma tarefa prioritária.

 

Pensar alternativas ou reproduzir o sistema?
alfredo bruto da costa

Alfredo Bruto da Costa: “A pobreza não tem o lugar que merece entre os critérios em que assentam as opções políticas dos católicos.” Foto: Direitos reservados.

 

Cabe perguntar se, perante este apelo de um papa (secundado várias vezes pelo seu sucessor, por exemplo através da iniciativa A Economia de Francisco) as instituições formativas, de investigação e ensino da Igreja Católica – começando pela Faculdade de Economia da Universidade Católica – não deveriam estar na linha da frente a pensar essa nova arquitectura (e incluindo o âmbito nacional) em vez de, tantas vezes, contribuir para a reprodução de um sistema económico que agrava desigualdades e promove uma economia que mata, como diz o Papa Francisco. Sob pena de, na mesma universidade, uma escola (de teologia) ensinar o Evangelho e outra (de economia) ensinar na prática a antítese dessa mesma Boa Nova.

Outra iniciativa importante seria a dinamização de uma verdadeira escola de doutrina social da Igreja – escola informal, pelo menos. Alfredo Bruto da Costa (de quem foi recentemente publicado um livro póstumo, exactamente sobre as motivações evangélicas da luta contra a pobreza) e Manuela Silva (que dinamizou a petição que levou o Parlamento a considerar a pobreza como uma violação dos direitos humanos), ou ainda Maria de Lourdes Pintasilgo e José Dias da Silva, entre outros, transmitiram a gerações sucessivas de crentes o gosto pelo conhecimento do moderno pensamento social católico, na sua articulação com o Evangelho e o pensamento dos teólogos dos primeiros séculos cristãos. Com o desaparecimento dessa geração de ouro, há um vazio notório no pensamento, reflexão e aplicação prática da doutrina social da Igreja (mesmo em questões “novas” como as trazidas por encíclicas como a Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum, e a Fratelli Tutti, sobre a fraternidade humana, do Papa Francisco). A reflexão, cada vez mais escassa a este nível, limita-se a conferências e debates como o deste sábado. E se essas iniciativas devem ser valorizadas, elas são ainda muito pouco. (Sem esquecer que, no terreno, são muitas instituições católicas que ajudam milhares de pessoas a minorar dificuldades do quotidiano.)

Nesse seu livro póstumo, Bruto da Costa escrevia, mesmo a terminar: “Temos de reconhecer que o nexo entre a fé cristã e a política tem sido pouco valorizado e praticamente não existe para a maior parte dos cristãos. Menos ainda se verifica que o problema da pobreza tenha o lugar que merece entre os critérios em que assentam as respectivas opções políticas. Ao abster-se da intervenção política, o cristão demite-se do exercício consistente da caridade e da justiça, ambas dotadas de uma dimensão interpessoal particularmente importante, mas que permanecem limitadas nas suas consequências quando as suas exigências e implicações não chegam a penetrar na esfera política. Doutro modo, o exercício do amor ao próximo não chega às origens e às causas estruturais da pobreza. A expressão concreta do amor ao próximo varia, além do mais, com as características da sociedade e com o progresso do conhecimento quanto à natureza e causas dos problemas sociais.”

Reflexões urgentes a fazer, tarefas várias a concretizar, portanto.

 

Os confins da fenomenologia

Emmanuel Falque na Universidade de Coimbra novidade

Reflectir sobre os confins da fenomenologia a partir do projecto filosófico de Emmanuel Falque é o propósito da Jornada Internacional de Estudos Filosóficos, “O im-pensável: Nos confins da fenomenalidade”, que decorrerá quinta-feira, dia 26 de Maio, na Universidade de Coimbra (FLUC – Sala Vítor Matos), das 14.00 às 19.00. O filósofo francês intervirá no encerramento da iniciativa.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

“A grande substituição”

[Os dias da semana]

“A grande substituição” novidade

Outras teorias da conspiração não têm um balanço igualmente inócuo para apresentar. Uma delas defende que estamos perante uma “grande substituição”; não ornitológica, mas humana. No Ocidente, sustentam, a raça branca, cristã, está a ser substituída por asiáticos, hispânicos, negros ou muçulmanos e judeus. A ideia é velha.

Humanizar não é isolar

Humanizar não é isolar novidade

É incontestável que as circunstâncias de vida das pessoas são as mais diversas e, em algumas situações, assumem contornos improváveis e, muitas vezes, indesejáveis. À medida que se instalam limitações resultantes ou não de envelhecimento, alguns têm de habitar residências sénior, lares de idosos, casas de repouso,…

Agenda

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This