O encontro de leitores nortenhos do 7MARGENS teve, este ano, a particularidade de ter sido um espaço não apenas para refletir sobre os projetos e iniciativas deste jornal, mas também para partilhar os caminhos percorridos pelos três “círculos de discussão” e um grupo de trabalho constituídos por leitores a partir dos encontros do ano de 2024.
Depois de iniciativa análoga que se realizou em Lisboa, em 20 de setembro último, este encontro voltou, no último sábado, 4, a ser acolhido pela comunidade religiosa (redentorista) que dinamiza o Espaço Porta, “um lugar para todos”, na Rua da Firmeza, no centro da cidade do Porto. Também aqui a conversa teve como ponto de partida um texto da realizadora Graça Castanheira sobre a esperança, “a única maneira humana de estar no mundo”, como salientou, no início, o padre e missionário Rui Santiago, da comunidade anfitriã.
Depois de uma refeição partilhada com o que cada um(a) levou, o diretor do 7MARGENS destacou alguns momentos e passos do jornal, desde o encontro de leitores anterior – um jornal que continuou e quer continuar a estar atento ao fenómeno religioso na contemporaneidade, na pluralidade e profundidade das suas manifestações. Recordou a aposta na cobertura da segunda assembleia do Sínodo em Roma e, já na primavera de 2025, a presença e atenção dedicada à morte do Papa Francisco e eleição do Papa Leão XIV. Mas também o acompanhamento noticioso do Fórum da Aliança das Civilizações, no Estoril; das assembleias da Conferência Episcopal, em Fátima; da morte e funeral do Aga Khan em Lisboa e Egipto; do tratamento de temas como a destruição e genocídio de Gaza, os abusos sexuais, as violações à liberdade religiosa, a emergência climática, os 800 anos do Cântico das Criaturas e os 10 anos da Laudato Si’, entre muitos outros.
António Marujo recordou a série de entrevistas de fundo e de entrevistas de vida publicadas pelo 7MARGENS, algumas das quais em parceria com rádios como a Antena 1 e a TSF, e referiu o destaque dado à vida e testemunho de algumas personalidades, incluindo algumas entretanto falecidas.
Num outro plano, aludiu ao salto de cerca de 25 por cento do número de subscritores da newsletter diária, registado desde setembro de 2024, e do crescimento de 20 por cento do número de visualizações do Facebook, plataforma em que tem mais de 7100 seguidores (um crescimento de cerca de 25 por cento num ano).
Nesta linha lembrou que o 7MARGENS é um jornal prestes a completar sete anos de existência e que tem sido inteiramente pago por donativos dos seus leitores, que permitem assumir os encargos de dois salários de jornalistas e outras colaborações (nomeadamente no campo da informática e dos alojamentos digitais).
Círculos de discussão e a voz dos mais novos

Na parte inicial do encontro, as três dezenas de participantes debateram o tema da esperança. Foto © Eduardo Jorge Madureira/ 7MARGENS
Intervieram, de seguida, representantes dos três círculos de reflexão de leitores, a saber: Não-violência, guerra e paz; Crise e futuro da democracia; e Sinodalidade. Estes grupos, com leitores de diferentes partes do país e mesmo do estrangeiro, começaram a reunir em videoconferência no final de 2024 ou princípios de 2025, cada qual com o seu ritmo e metodologia de trabalho. Os dois primeiros grupos apresentaram já, nas páginas do jornal, os primeiros resultados dos seus debates. O grupo da sinodalidade deu conta de uma carta que entendeu enviar a todos os bispos portugueses, incluindo auxiliares e eméritos, em que enunciou aquelas que entendem dever ser prioridades de uma Igreja mais sinodal em Portugal, documento que também foi aqui tornado público.
Tal como em Lisboa há duas semanas, no encontro nortenho foi também apresentada a constituição de um quarto grupo de leitores constituído para dinamizar a iniciativa, acolhida pela Redação, de dedicar toda a edição do dia 1 de junho, Dia Mundial das Crianças, a conteúdos escritos e desenhados pelos mais pequenos. Participaram 35 crianças dos 4 aos 14 anos, em torno de temas como “o que gostas de fazer na tua vida com os teus amigos e/ou a família; por que dificuldades passa alguém da tua idade; como poderia acabar a guerra; o que achas que é a paz; se pudesses, o que gostarias de ver mudado; e quem é Deus para ti”.
Quer a dinâmica dos grupos quer este projeto de dar espaço aos leitores mais jovens deverão ser continuados e, no encontro, foram dadas algumas pistas nesse sentido.
Na parte final, os participantes formularam preocupações às quais gostariam que o 7MARGENS venha a dar mais atenção. Um deles relaciona-se com o presente e o futuro do trabalho humano – uma dimensão em que – foi dito – “parece haver retrocesso” no sentido da desumanização. De fonte de realização ele tornou-se, em muitos casos, fonte de desgaste físico e mental. Neste aspeto, é necessário prestar atenção ao sentido em que se pretende colocar o trabalho e os trabalhadores com o projeto de revisão da legislação laboral, que foi recentemente apresentado pelo Governo.
A esperança como desconexão com o mundo?

Leitores e jornalistas do 7MARGENS debateram o futuro imediato do jornal no Espaço Porta. Foto © Marco Bártolo, cedida pelo autor.
Um outro campo que merece atenção é o dos constrangimentos e falta de horizontes que vivem as gerações mais jovens, as quais, como foi sublinhado, se sentem frequentemente desprezadas pela sociedade (pelas gerações instaladas). Este fechamento pode levar tanto à desistência (“não vale a pena”) como à revolta (“só rebentando isto tudo”). Neste terreno, chamou-se a atenção para o fenómeno dos “influenciadores” e o papel que desempenham entre os mais novos.
Outras questões referidas foram a conscientização e o conhecimento da Convenção sobre os Direitos da Criança, transposta para a ordem jurídica interna portuguesa (uma vez que os pais se sentem muitas vezes “donos dos filhos” , em lugar de responsáveis pela sua educação). Foi sugerido, por outro lado, que o 7MARGENS faça parcerias com instituições e serviços que lidam com crianças e jovens e se procure promover a auscultação e testemunho das pessoas e não apenas a análise da situação em que se encontram.
Aqui poder-se-ia voltar à intervenção inicial do redentorista Rui Santiago que convidou a não contrapor o realismo (perante as situações e os problemas) à esperança, já que “o realismo não capta a realidade, tal como a máquina fotográfica não capta o iceberg”, apenas “vê a superficialidade das coisas”.
Falando de uma perspetiva crente e cristã, Rui Santiago aludiu à “experiência de fé muito particular, que é a fé de quem testemunha o presente” que é “o presente do que já veio, o presente do que está e o presente do que está a vir”.
Citando o professor Agostinho da Silva, que dizia que “o mundo vem sempre a dar razão aos poetas”, Rui Santiago convoca a poesia e a profecia para que sejamos capazes de “transver a realidade”; de “vislumbrar ou entrever o real”, já que, “para captar a realidade é preciso outras funduras, outro olhares e estes olhares aprendem-se e contagiam-se”, disse.
“Fico sempre com muita pena quando há cristãos ou crentes, seja de que tradição for, que dão a sensação de que a esperança é uma espécie de desconexão com o mundo, desconexão com o sofrimento, desconexão com a injustiça. Porque, às vezes, de facto é por aí que se leva a esperança”, observou.










