A palavra técnica é definida como a “parte material de uma arte”. Do grego téchnē, esta palavra relaciona-se com arte ou competência no sentido criativo do termo. E no caso da sua aplicação à engenharia, a técnica liga-se à resolução de problemas, essencialmente, com o objectivo de melhorar a vida das pessoas e das comunidades onde vivemos. Porém, se a “técnica” sai das nossas mãos para se tornar numa arte artificializada, que efeito poderá produzir na nossa criatividade e na evolução humana em geral?
Shannon Vallor no seu livro AI Mirror (O Espelho IA, não traduzido ainda para português) diz que—”O verdadeiro corpo da tecnologia não é um espelho, mas o acto criativo de um ser humano. A verdadeira alma da tecnologia não é a eficiência, mas a generosidade; é a dádiva de um futuro.”—É na generosidade que enquadro a técnica no seu significado mais puro, mas o que experimentamos tem sido a crescente tendência da técnica ser usada mais para nos entreter do que para resolver os nossos problemas. Em 1934, Lewis Mumford escrevia no seu livro Técnica e Civilização (Antígona, 2018) que a perfeição da máquina envolve, em certa medida, o seu desaparecimento, mas isso não parece ser o que está a acontecer.
Se a tecnologia desaparecesse, nos restaurantes (como exemplo, apesar de existirem muitos outros), as pessoas falariam umas com as outras, em vez de passarem uma boa parte do seu tempo a olhar para o telemóvel. Mas também os tablets ou ecrãs de computador espelham o domínio da diversidade de telas digitais que existem para capturar a nossa atenção. E enquanto estivermos atentos e imersos em ambientes digitais, remota fica a impressão da última vez que tomamos contacto com um ambiente natural, ou conversámos a viva voz com outra pessoa sobre assuntos mais ou menos profundos.

“O verdadeiro corpo da tecnologia não é um espelho, mas o acto criativo de um ser humano. A verdadeira alma da tecnologia não é a eficiência, mas a generosidade; é a dádiva de um futuro.” Imagem Mãos Dadas: gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial que cria imagens a partir de descrições textuais) com prompt de Miguel Panão.
Quando surgiu o Humane AI Pin, o objectivo era trazer as ferramentas de Inteligência Artificial para facilitar a nossa vida, sem preencher o nosso espaço sensorial porque seria uma tecnologia com uma presença mínima, mas o produto foi um verdadeiro flop ou desastre. Houve diversas falhas ao nível da técnica com o sobreaquecimento do aparelho fazendo com que desligasse inesperadamente, autonomia da bateria limitada, e as próprias funcionalidades que se pretendiam com a Inteligência Artificial ficaram muito aquém do promovido. As respostas dadas pela IA eram muitas vezes incorrectas e nem sempre funcionavam as tarefas mais básicas como um temporizador. O preço do aparelho era demasiado elevado, mais a cobrança de um serviço mensal para usar as funcionalidades, pelo que o marketing seguia o mesmo caminho da técnica. E apesar dos alertas dos funcionários da empresa sobre a débil fiabilidade do produto, a liderança não prestou qualquer atenção forçando a sua entrada no mercado. Não resultou.
A técnica não estava orientada para a melhoria da vida das pessoas, mas antes para saciar a sede de sucesso financeiro dos empresários e accionistas. Quando terminei o meu Doutoramento em Engenharia Mecânica, escrevia no espaço dos agradecimentos uma pequena reflexão sobre a metáfora da tecnologia como um espelho. Em vez de nos levar a perguntar—”o que podemos fazer com a tecnologia que desenvolvemos?”—como espelho, a tecnologia que desenvolvemos seria um reflexo daquilo em que nos tornamos. Se entregarmos mais do que as nossas rotinas cognitivas à agência da Inteligência Artificial (compras online, preenchimento de formulários, buscas de informação pelo oceano da internet, etc), e entregarmos também o desenvolvimento tecnológico aos agentes informacionais, na esperança de que resolvam o problema do esforço necessário para se ser criativo, estamos a dar um tiro no pé. Como podem os agentes de Inteligência Artificial contribuírem para a evolução humana através do desenvolvimento da nossa criatividade? Não depende deles, mas de nós. É a nossa atitude mental que precisa de mudar.
Ao longo de várias centenas de anos, desde a revolução industrial, que temos continuamente confiado muitos aspectos da nossa vida aos frutos da nossa técnica. Quando se fala da dependência tecnológica, penso no nervosismo fisiológico de uma boa parte das pessoas quando se apercebem de que o telemóvel ficou em casa, ou que o frigorífico se estragou, ou que a rede que dá acesso à internet está em baixo. Já não precisamos de decorar números de telefone, ou perder tempo a cozinhar, ou ir a uma biblioteca para fazermos uma pesquisa sobre qualquer assunto. A técnica serviu o seu propósito de melhorar a nossa vida, mas abriu também o bar ao entretenimento (quase) gratuito, aos excessos alimentares, e ao consumo exacerbado de informação. Sirvo-me da tecnologia ou sirvo a tecnologia?
A técnica serve para melhorar a vida das pessoas, não para encher os bolsos dos responsáveis para empresas tecnológicas como parece estar a acontecer há demasiado tempo. Ver tão poucos com tanto, e tantos com tão pouco, e a razão deste abismo ser a tecnologia é um contra-senso. A humanidade evoluiu mais quando mais cuidámos uns dos outros, usando a técnica para isso. Não teria sido possível sobreviver à pandemia da Covid-19, do modo como sobrevivemos, se não tivéssemos colocado as técnicas desenvolvidas ao serviço de todos. A atitude mental a mudar não consiste em pôr a técnica de lado, mas colocar a técnica do nosso lado, de modo a melhorar a vida das pessoas. Se não melhorar, o melhor é ter a coragem de não desiste enquanto a alma da técnica não for a generosidade.
Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://bit.ly/NewsletterEscritos_MiguelPanao










