
Novo livro do Pe. Luís Martins Ferreira
Em meados do século XX, em resposta ao abandono da fé cristã pelas classes trabalhadoras, alguns padres arriscaram assumir a condição operária, partilhando assim plenamente da experiência daqueles que desejavam evangelizar, fazendo-se pobres com os pobres. Luís Martins Ferreira foi um dos que, em Portugal, abraçaram esse caminho.
Nascido em 1943, em Arganil, ingressou nos Filhos da Caridade em 1971, após um período formativo em Paris, que o levou a participar nas greves e manifestações do Maio de 1968, episódio recordado num dos capítulos do livro O Torno e o Altar – Memórias de um padre-operário (Paulinas Editora), onde também evoca a novidade e a importância do movimento dos padres-operários em França.
O historiador José Pacheco Pereira fará a apresentação da obra nesta terça-feira, dia 29, a partir das 17h, no espaço Refinaria (Parque Empresarial da Baía do Tejo, Rua 2, n° 23), no Barreiro. No próximo sábado, dia 2 de novembro, haverá nova apresentação às 16h, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, a cargo de Albérico Afonso.
Regressado a Portugal, o padre Luís viveu na Península de Setúbal, trabalhando como fresador e torneiro mecânico em várias empresas, onde conheceu o drama dos salários em atraso e dos despedimentos, que, nos anos oitenta, precipitou parte da população sadina na miséria.
O padre Luís Ferreira envolveu-se ativamente nas lutas dos trabalhadores e participou, no imediato pós-25 de Abril, na fundação do Movimento de Esquerda Socialista (MES), a cuja direção chegou a pertencer. Depois de, já na condição de formador do Instituto de Emprego e Formação Profissional, se reformar, serviu várias comunidades católicas da diocese de Setúbal.
O 7MARGENS reproduz a seguir, em pré-publicação, um excerto do capítulo sobre os salários em atraso na década de 1980 e a fome na Península de Setúbal.
Dos salários em atraso à fome na Península de Setúbal

Padre Luís Martins Ferreira a trabalhar na Equimetal. Foto: Direitos reservados
Quando comecei a trabalhar na Equimetal, não havia muito trabalho, e às vezes passava a maior parte do dia sem fazer nada. Passado uns meses, começou a aumentar o volume de trabalho, e, a certa altura, tive mesmo de começar a fazer horas extraordinárias – e, durante uns meses, também turnos – para responder ao grande volume de trabalho. Por isso, nada fazia prever a enorme crise que nos ia atingir.
Com a segunda intervenção do FMI, durante o governo do bloco central de Mário Soares e Mota Pinto, o país passou por uma forte austeridade, mas foram os trabalhadores os que mais sofreram: metade do subsídio de Natal foi confiscado e foram reduzidos os apoios financeiros às empresas públicas. O governo do PS e do PSD mostrou grande insensibilidade social durante o período da intervenção do FMI, e nada foi feito para minorar a gravíssima crise que atingiu milhares de famílias, nomeadamente na Península de Setúbal.
Eu tinha sido eleito delegado sindical pouco tempo antes e, quando nada o fazia prever, tive de enfrentar, como representante dos trabalhadores, essa chaga social de, durante dois anos, não receber uma grande parte do salário. Chegámos a ter sete meses em atraso.
Como já disse, a empresa tinha um elevado volume de trabalho, mas, num mês de 1983 que não consigo precisar, o salário mensal começou a ser pago só parcialmente. Houve meses em que recebemos apenas 3000 escudos, o que era menos de 10% do salário mensal. Infelizmente, porém, nos finais de 1983 já havia muitos milhares de trabalhadores na Península de Setúbal com os salários em atraso. Naturalmente que esta calamidade social provocou muitos protestos e manifestações dos mais diversos tipos: cortes de autoestradas e outras vias, cortes do tráfego ferroviário, ocupações das sedes das empresas.
Esta verdadeira chaga social atingiu muitas empresas, mas, com maior gravidade, as grandes, como a Lisnave, a Parry & Son – Estaleiros Navais, a Companhia Portuguesa de Pescas, a Siderurgia Nacional e a Mundet, corticeira do Seixal, e a Setenave da Mitrena, em Setúbal.
Foi o período da minha vida operária em que mais sofri, pois a situação dos salários em atraso na empresa só foi resolvida com a constituição da SGM, Sociedade Geral de Metalomecânica, em 24 de maio de 1985. Esta empresa teria a sua sede no concelho do Seixal e, por contrato de cessão com a Sorefame, iria funcionar nas instalações da Amora. Também o IPE (Instituto de Participações do Estado) cedeu as máquinas e o pessoal das instalações da Equimetal do Barreiro, que foi considerada falida, à SGM. As instalações da Equimetal no Norte fecharam, e foi constituída uma nova empresa em Sines à qual foram cedidas as instalações da fábrica de material circulante ferroviário.
Mas, até lá, tivemos de passar por uma dura e longa luta e ver companheiros de trabalho a suicidarem-se ou a morrerem por ataque cardíaco, e vários a terem graves problemas de saúde.
A prolongada luta para receber os salários

Escultura em Alcochete evocativa da greve do sal, de 1957: mais tarde, na década de 1980, a situação social a sul do Tejo agravou-se de novo. Foto reproduzida do blogue Coisas de Alcochete.
Nós, membros dos ORTs (Organismos Representativos dos Trabalhadores) vivemos um momento complicado: o que fazer? Convocámos um plenário e decidimos que todos os trabalhadores iriam às instalações onde estava a administração da unidade fabril do Barreiro. Estas situavam-se fora da Quimigal, num edifício chamado Torre Alta. Os membros dos ORTs foram recebidos pelo administrador Casaca, que nos disse que não podia explicar nada porque a responsabilidade era da administração central.
Sem informações, fomos no dia seguinte à Rua Rosa Araújo, em Lisboa, falar com a administração. A resposta foi evasiva, mas disseram que esperavam pagar o resto do salário nos próximos dias. Não só não o fizeram, como no mês seguinte só nos pagaram metade do salário, ficando-nos a dever um mês de salário.
Entretanto, regressa à empresa o dirigente sindical da Federação dos Sindicatos Metalúrgicos, o Gutierres, que passou a dirigir a longa luta que travámos para vermos pagos os vencimentos em atraso. Era um companheiro com larga experiência sindical e presidia, por norma, aos diversos plenários de trabalhadores convocados para decidir que lutas fazer para recuperar os nossos salários.
Assim fizemos muitas ações de luta: saíamos à rua, com bandeiras pretas, a cortar a linha férrea em Barreiro A ou, então, a percorrer as principais artérias da cidade. Um dia, fomos à Torre Alta, sede da empresa, e sequestrámos o administrador e o chefe de serviço de pessoal. Alguém telefonou para uma estação de rádio a dar a informação: «Isso não tem interesse jornalístico, só se atirarem com o administrador pela janela fora…» Nessa altura, oficialmente não havia censura, mas, para esconder a situação em que nos encontrávamos, utilizavam-se outros meios. O poder político e económico controlava a informação.
Fomos diversas vezes protestar para a sede da empresa na Rosa Araújo, em Lisboa. Uma das vezes, mais de uma centena de trabalhadores invadiu o andar onde funcionava a administração, entrando de supetão aos gritos: «Paguem-nos os salários, os nossos filhos têm fome!» Poucos momentos depois, chegou a PSP para saber o que se passava, porque no andar superior estavam instalados os serviços da Embaixada do Canadá. Eu, logicamente, também gritava: «Paguem-nos os salários, os nossos filhos têm fome!» Uma secretária da administração começou a dizer que, afinal, o padre também tinha filhos. Abeirei-me dela e disse-lhe: «Os filhos dos trabalhadores também são os meus filhos e estão a passar fome.»

Escultura alusiva às Obras de Misericórdia: dar de comer a quem tem fome. Junto da Igreja de Santo Spirito in Sassia, Roma. Foto © António Marujo/7MARGENS
Um dia, na primavera de 1984, um autocarro cheio de dirigentes sindicais e membros das comissões de trabalhadores de empresas com salários em atraso dirigiu-se para junto do portão da entrada da residência oficial do primeiro-ministro, Mário Soares.
Saímos todos e encostámo-nos à parede, para não impedir a passagem dos peões no passeio. Um dirigente sindical tocou à campainha e explicou ao que vínhamos: «Escrevemos já diversas vezes ao primeiro-ministro a pedir uma audiência e não tivemos qualquer resposta. Será que podemos ser informados se nos pode receber hoje? Se não, que diga quando.» De dentro ouvia-se alguém dizer: «Hoje não está prevista qualquer reunião convosco.»
Poucos minutos volvidos, chegam carrinhas da PSP. Quem chefiava mandou-nos dispersar, e nós sentámo-nos no chão. Junto connosco estava o histórico sindicalista Manuel Lopes, deputado independente eleito nas listas do PCP. Recebemos ordem de detenção por desobediência à autoridade. Começámos a entrar nas carrinhas. Então o deputado Manuel Lopes perguntou: «Também estou detido, eu?» «Faça favor de entrar», respondeu-lhe o graduado da PSP.
Quando chegámos à esquadra mais próxima, o Manuel Lopes identificou-se e foi posto em liberdade. Vários agentes começaram a identificar-nos. Quando chegou a minha vez, um agente perguntou-me: «Nome e data de nascimento?» Não tirava os olhos do teclado da máquina, enquanto escrevia. «Profissão? O que que é que o senhor faz.» Respondi-lhe: «Depende.» «Depende do quê?», perguntou-me. E eu respondi calmamente: «Enquanto padre católico, presto serviço na paróquia do Lavradio; como operário, trabalho na Equimetal.» Ele levantou os olhos e, muito admirado, perguntou-me: «Mas você é padre dos que dizem missas?» «Sim, padre da Igreja Católica», respondo.
Chegada a hora do almoço, começámos a perguntar onde podíamos comer. E dois a dois começámos a ir ao bar da esquina comer qualquer coisa. Pelas quatro horas da tarde fomos levados, de novo em carrinhas, até ao Palácio da Justiça, situado ao cimo do Parque Eduardo VII. É evidente que fomos sempre a gritar: «Paguem-nos os salários, os nossos filhos têm fome!» Quando aí chegámos, já nos esperavam os advogados do sindicato. Entrámos e ficámos no corredor à espera. O chefe da PSP ainda insistiu com o juiz para que fôssemos metidos no calabouço, mas o magistrado teve o bom senso de não o permitir. Alegou que tinha muitas dúvidas de que nós tivéssemos cometido algum crime.
Um tempo depois, fomos chamados à sala de audiências, e o juiz mandou-nos em liberdade por ser preciso averiguar melhor o que se tinha passado. Porque, não tendo resistido à detenção, apenas estávamos a protestar ordeiramente sem perturbar a ordem pública. Por isso podíamos ser chamados a depor numa esquadra da área da nossa residência.

“Cada um encheu o seu carro das compras, mas só de comida”. Foto © Agência Ecclesia
Desci o Parque Eduardo VII com um misto de dever cumprido e revolta por o Gabinete do primeiro-ministro não ter recebido uma delegação nossa, mas, pelo contrário ter chamado a Polícia, como se nós fôssemos criminosos. Éramos vítimas da infâmia de trabalhar sem receber, e isso acontecia há vários meses.
Neste período, dois companheiros de trabalho faleceram, um com um ataque cardíaco, o outro porque pôs termo à vida. A família de um deles quis que ele tivesse um funeral religioso e vieram pedir-me que fosse eu a fazê-lo. Em ambos, estiveram muitos companheiros da Equimetal.
Como as coisas não se resolviam, o Gutierres e eu, em conversa, começámos a pensar numa forma de luta que tivesse impacto a nível governamental.
Havia no Alto do Seixalinho um Pão de Açúcar, o único supermercado do Barreiro. A ideia era levar os trabalhadores até junto ao Pão de Açúcar, invadi-lo e que cada um enchesse o carinho de comida – mas de forma organizada, de modo a impedir qualquer ato de pilhagem. Depois, exigiríamos que nos fossem fiadas as compras e que a conta fosse enviada à Equimetal. «Se, até agora, quem nos tem fiado são as mercearias do bairro, agora é a vez deste supermercado», argumentaríamos nós.
A uns 250 metros do supermercado, fomos avisados de que a PSP já se encontrava no local. São destacados então cerca de dez trabalhadores que não estavam com fatos de macaco da empresa. O Gutierres delegou no Ângelo e em mim a responsabilidade da ação. Saímos da manifestação e dirigimo-nos para o Pão de Açúcar, onde entrámos sem problemas.
Cada um encheu o seu carro das compras, mas só de comida, e o Ângelo e eu fomos os primeiros a dirigirmo-nos às caixas. No fim de passar todos os produtos, a funcionária da caixa diz-me: «São x escudos.» Eu apresentei o cartão da empresa e disse-lhe: «É para pôr na conta da Equimetal.» Ela chamou logo o chefe, dizendo: «Aqui está um.»
Quando o chefe chegou, eu expliquei-lhe que estávamos com vários meses de salário em atraso e que os produtos eram para matar a fome. A Equimetal que fosse chamada para pagar a dívida. Enquanto falávamos, todas as caixas foram bloqueadas pelos outros companheiros. Pouco depois, chegou o chefe da PSP a pedir explicações. Queria saber se nós levávamos as compras sem pagar. «Evidentemente que não. Temos vários meses de salários em atraso e muitos trabalhadores e as suas famílias estão a passar fome. O Pão de Açúcar que apresente a conta à Equimetal.» O chefe da PSP, dirigindo-se ao gerente, disse-lhe: «Até agora estes senhores não estão a cometer nenhum ilícito, e assim não há motivo para a PSP atuar», e saiu para a rua.
Pouco mais de meia hora depois, chegaram uns senhores que se apresentam como sendo da administração da cadeia Pão de Açúcar. Tivemos com eles uma longa conversa em que a certa altura eles começaram a acusar-nos de estar a violar o direito à propriedade privada. Eu respondi que o direito à vida era prioritário e que até o povo na sua sabedoria diz que «roubar para comer não é pecado». Durante cerca de duas horas, os ditos administradores fizeram diversos contactos.

Manuel Martins: se não fossem as suas atitudes corajosas, não se teria sabido da verdadeira calamidade social que se viveu em Setúbal. Foto © Luís Filipe Santos/cedida pelo autor.
Ainda não havia telemóveis, pelo que nós não sabíamos o que se passava na rua, porque a PSP tinha bloqueado as portas de entrada. Conversei com o Ângelo e restantes companheiros e decidimos terminar o protesto. Chamei o gerente e disse-lhe: «Já que o Pão de Açúcar não nos quis ajudar neste momento em que há muitas famílias a passar fome e nós não viemos aqui para roubar nada, então que passem muito bem.» Saímos e encontrámos, além dos trabalhadores da Equimetal, muita gente que se juntou ao nosso protesto.
Dias depois encontrei uma trabalhadora da Comissão de Trabalhadores do grupo Pão de Açúcar que me disse que a administração tinha ficado em pânico, porque temiam que, na Península de Setúbal, os supermercados começassem a ser pilhados. Terá havido contactos com membros do governo. «O que nos valeu é que eles fizeram as coisas bem organizadas», terão dito à Comissão de Trabalhadores.
O que é certo é que, pouco tempo depois, foi fundada pelo IPE a Sociedade Geral de Metalomecânica (SGM), que iria resolver o problema, ainda que só temporariamente, porque em 1991 encerrou a sua atividade, com o despedimento de centenas de trabalhadores.
Durante todo o tempo em que houve na Península a grave crise de vários milhares de trabalhadores de grandes, médias e pequenas empresas, o governo do bloco central não tomou quaisquer medidas para minorar essa situação.
A comunicação social estatal ignorou, quase por completo, as muitas ações de protesto dos trabalhadores. Já a privada estava ao serviço de outros interesses. Pela primeira vez, percebi que a liberdade de imprensa era muito condicionada, e que havia de novo uma censura disfarçada – e isso tem vindo a piorar. Hoje, e isso é manifesto, a «narrativa», no que, por exemplo, diz respeito a assuntos da ordem internacional, é a mesma, tanto no chamado Ocidente como nos grandes jornais e TVs dos países latino-americanos.
Se não fossem as atitudes corajosas de D. Manuel Martins, que soube ser a «voz dos que não tinham voz», a opinião pública não teria tido conhecimento da verdadeira calamidade social que se viveu em Setúbal, dos milhares de operários e famílias que tanto sofreram com os salários em atraso. Mas disso falarei mais à frente.
Para responder às interpelações constantes das organizações sindicais e das comissões de trabalhadores e aos insistentes apelos de D. Manuel Martins, o governo, a 19 de fevereiro de 1988, aprova finalmente uma resolução do Conselho de Ministros a criar o Programa de Desenvolvimento da Península de Setúbal, no seguimento da Operação Integrada de Desenvolvimento da Península de Setúbal. A decisão é tomada cinco anos depois de ter começado esta grave ofensa a um dos mais elementares direitos do homem, o direito de receber o seu salário, ligado ao direito à vida.









