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autores - Marco Oliveira

Estas lutas infrutíferas, estas guerras ruinosas…

| 08/11/2023

 “…está provado pela experiência que os resultados da guerra são ruinosos, tanto para conquistadores como para conquistados.” Foto: Gaza janeiro 2009. © Al Jazeera em Inglês / Wikimedia Commons

 

Já não bastava a guerra que se prolonga na Ucrânia. Agora temos outra guerra na Terra Santa. E nos meios de comunicação, nas redes sociais surgiu uma nova avalanche de notícias, imagens e comentários sobre este conflito. Foi a barbárie dos massacres de 7 de outubro, é a violência dos combates que se têm seguido, é o sofrimento e o desespero de todos os inocentes; tudo isto nos perturba.

Nas muitas previsões que ouvimos, percebemos que ainda ninguém sabe quanto tempo isto vai durar, nem como isto vai acabar. De um lado temos um grupo terrorista que controla o pequeno território de Gaza, e do outro um governo que nos últimos anos tem estado refém de partidos extremistas. Em muitos dos seus actos parece faltar o bom senso.

E para instigar apoiantes vemos os dirigentes políticos invocar textos sagrados, como se buscassem uma legitimação divina para os seus actos. Se isso não era novidade nos grupos ligados à teocracia iraniana, foi surpreendente vindo do primeiro-ministro israelita. É provavelmente um indicador do quão atingidos se sentem os israelitas.

Apesar destas invocações dos textos religiosos, seria redutor dizer que este conflito é mais um episódio de uma eterna guerra entre religiões. A religião, como sabemos, tem um carácter profundamente identitário, e os políticos sabem disso. Ao invocarem um texto religioso, os políticos estão invariavelmente a manipular a religião. Os ayatollahs iranianos fazem isso há décadas. Mas nenhum governo tem legitimidade para falar em nome de Deus. E a sua legitimidade perde-se completamente quando comete as maiores barbáries e as justifica em nome de uma religião.

Os ecos do conflito têm-se feito sentir na Europa e nos Estados Unidos. Vemos várias organizações a tomar partido, manifestações apelando ao cessar-fogo, pedindo a libertação dos reféns. E uma assustadora onda de anti-semitismo fez despertar fantasmas que julgávamos definitivamente enterrados no passado.

Para Judeus, Cristãos e Muçulmanos, é quase impossível ficar indiferente a um conflito na Terra Santa. E os Bahá’ís também não ficam indiferentes. No século XIX, Bahá’u’lláh foi exilado para a Palestina Otomana; ali viveu grande parte da Sua vida, e ali está sepultado. É no norte de Israel que se situa o Centro Mundial, e muitos daqueles espaços ligados à história da Fé Bahá’í são destino da peregrinação para os Bahá’ís.

Como Bahá’í, nenhum conflito me deixa indiferente. Mas este perturba-me particularmente. Não apenas porque se passa na Terra Santa, mas porque nas Escrituras Bahá’ís há uma enorme enfase na questão da paz mundial. Desde o dia 7 de outubro que tenho presente as seguintes palavras de ‘Abdu’l-Bahá: “…está provado pela experiência que os resultados da guerra são ruinosos, tanto para conquistadores como para conquistados.”

Quando, há alguns anos, um amigo me perguntou qual a minha posição relativamente ao conflito israelo-palestiniano, lembrei-lhe o conflito entre a França e a Alemanha. Durante décadas estes dois países alimentaram rivalidades, desconfianças e ressentimentos. E os conflitos sucederam-se. Por vezes a França emergia como potência vencedora; noutras ocasiões era a Alemanha que surgia como triunfante. E depois de uma guerra terrivelmente devastadora fizeram a paz e criaram entre si laços tão fortes, que hoje estes dois países são considerados o “motor” da União Europeia.

É esse futuro de entendimento e cooperação que desejo para israelitas e palestinianos. Certamente que muitos dirão que isto é uma visão utópica. Mas, em 1944, a ideia de uma paz e cooperação permanentes entre a França e a Alemanha também seria considerada utópica.

E assim, apesar das terríveis notícias e imagens que nos vão chegando, lembro as palavras proféticas de Bahá’u’lláh: “Estas lutas infrutíferas, estas guerras ruinosas cessarão e a Mais Grandiosa Paz virá. Não necessitam também disso na Europa? Que o homem não se vanglorie por amar o seu país; que o homem se vanglorie por amar o seu semelhante”.

 

Marco Oliveira é membro da Comunidade Bahá’í de Portugal.

 

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