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André Carrilho
Ilustração (pormenor) © André Carrilho, cedida pelo autor e pela editora.

George Orwell

Este ano de 1984

| 06/11/2025

 

O mundo, em grande medida, ficou como estava em 1984. Quando mudam os tempos, mudam as vontades, só o desconcerto do mundo teima em não mudar. Depois de cair o Muro, outras muralhas se ergueram nesta cidade meio em ruínas. Os soberanos rasgam tratados de paz, e dentro das ameias permanecemos cercados pelos exércitos do ódio e do medo. Continuamos a ouvir “o barulho das botas a marcharem, as lagartas dos tanques a rangerem, o estrondo dos aviões, o troar de armas” (p.223).

André Carrilho

Ilustração © André Carrilho, cedida pelo autor e pela editora.

Despois de 1984, não desapareceu a ameaça totalitária que George Orwell pretendeu retratar em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro – assim mesmo, por extenso, na capa da edição original. Orwell chegou a pensar em outras datas, 1980, 1982… Assim como não acharíamos estranho que tivesse pensado em 2025. Dando por terminado o manuscrito, em 1948, inverteu os dois últimos algarismos do ano em curso como sinal da desordem dos acontecimentos mundiais e surgiu, assim, o título do livro – 1984.

Olhou para o relógio do juízo final – faltavam apenas sete minutos para a meia-noite de uma catástrofe global – era o início da Guerra Fria. Desde então, é a proliferação de armamento nuclear que mais tem dado corda aos ponteiros do relógio. Em 2025, com a guerra na Ucrânia, a crise do Médio Oriente, as alterações climáticas e os perigos da inteligência artificial, falta apenas um minuto e 29 segundos para ecoarem as doze badaladas. E se não ouvimos ainda, como facto consumado, o bater da meia-noite, vemos que para aí caminhamos a passos largos.

André Carrilho

É na iminência deste último minuto para a meia-noite que a editora 11X17 (chancela da Bertrand) lança nova edição de bolso do livro 1984. Na capa, vemos telhados negros de uma cidade sombria atravessada por altas chaminés de fábrica de onde saem densas nuvens de fumo que envolvem o nome do autor e o título do livro. Nesta Londres industrial e decadente, “todos os registos foram falsificados ou destruídos, todos os livros reescritos, os quadros pintados de novo, as estátuas e os edifícios renomeados, as datas alteradas” (p. 193).

De tal forma que o protagonista do livro, Winston Smith, “não sabia ao certo se estava realmente em 1984. O ano devia ser mais ou menos esse, uma vez que tinha quase a certeza de ter trinta e nove anos de idade e estava convencido de que tinha nascido em 1944 ou 45” (p. 23). O trabalho de Winston no departamento de registos do Ministério da Verdade consistia em reescrever a história para que se adequasse à versão oficial do partido. “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado” (p. 302)

Foi com 1984 que a palavra orwelliano encontrou lugar de adjetivo no dicionário, algumas páginas depois de kafkiano. Como sublinha Gonçalo M. Tavares, “não há corretor automático no século XXI que se manifeste contra a inscrição destas palavras num texto”, sem esquecer que “o corretor automático é, também ele, um mecanismo orwelliano” [1]. Qualifica-se como orwelliano um regime totalitário que impõe vigilância permanente aos cidadãos, enquanto kafkiano corresponde a um sistema burocrático incompreensível, em que o indivíduo é perseguido e acusado sem saber o que fez. Mas nem os corredores dos ministérios orwellianos conseguiam escapar aos homens-escaravelho dos labirintos kafkianos.

André Carrilho

Ilustração © André Carrilho, cedida pelo autor e pela editora.

No prefácio do livro, Francisco Louçã aponta essa herança orwelliana como motivo para ler este livro “fascinante e preocupado, que ficará na História como a maior das novelas sobre o tempo dos perigos – os mesmos que continuam a viver ao nosso lado” (p. 13). Hoje em dia, as “tecnologias de vigilância algorítmica” utilizadas pelos “gigantes das redes sociais” recolhem continuamente os nossos dados de navegação. O “Grande Irmão” continua a vigiar-nos através dos e-mails, das pesquisas na web, dos sites que consultamos, até na compra de livros como este.

Os próprios governos, com o propósito de combater a criminalidade e as ameaças à segurança interna, sejam elas reais ou imaginárias, lançaram nas ruas uma rede de vigilância com circuitos de televisão e sistemas de reconhecimento facial. A existência de redes de informação centralizada como essas permite aos regimes autocráticos controlar integralmente a vida dos cidadãos e silenciar qualquer tentativa de oposição.

Na era de um neopitagorismo tecnológico – em que tudo é número – o ser humano resume-se meramente a um dígito numa base de dados, a uma célula numa tabela de Excel. Ao prolongarmos a nossa presença on-line, estamos, assim, a assinar um pacto fáustico com os donos das plataformas digitais. Reduzidos à função de utilizadores, abdicamos da nossa liberdade por bem menos que trinta dinheiros, convertidos em dólares ou bitcoins. De acordo com o filósofo Byung-Chul-Han, “encontramo-nos na transição da era das coisas para a era das não-coisas. Não são as coisas, mas as informações que determinam o mundo em que vivemos”. [2] Nos ecrãs desta caverna digital, limitamo-nos a assistir a um desfile de sombras virtuais, como na caverna de Platão – estranha cena, estranhos prisioneiros, iguais a nós.

André Carrilho

Ilustração © André Carrilho, cedida pelo autor e pela editora.

Quando 1984 foi publicado, já o matemático inglês Allan Turing antevia a criação de “máquinas inteligentes”. Chegados a 2025, os algoritmos chegam a conhecer as nossas preferências de forma mais detalhada do que um amigo ou familiar. Os nossos dados são a porta de entrada para o nosso mundo, para a nossa casa, até para o nosso coração. Mas num ecrã, ainda que aceso, não cintila brilho de olhar – como o que Winston encontrou em Julia, a rapariga responsável pela manutenção das máquinas de escrever romances no Departamento de Ficção. No mundo de 1984 até o amor era proibido, porque o amor é antídoto para a distopia e, em regimes totalitários, uma forma de revolta. Como seria de esperar, o “Grande Irmão” estava a vigiá-los. Vigiou-te também a ti, enquanto lias este texto. Enquanto avançam os ponteiros do relógio, permanecemos em 1984.

 

 

[1] Gonçalo M. Tavares, “‘Mil Novecentos e Oitenta e Quatro’: totalitarismo, vigilância e linguagem”, Expresso, 24.01.2021.
[2] Byung-Chul Han, Não Coisas: Transformações no Mundo em que Vivemos, Relógio D´Água, 2022.

 

1984, de George Orwell
Tradução de Cristina Vaz
11X17, 2025
400 pp, 9,00 €.

Uma edição de 1984, publicada pela Bertrand em 2022, com a mesma tradução e a mesma capa, inclui ilustrações de André Carrilho, algumas delas aqui reproduzidas a ilustrar este texto.

 

Carlos Lemos é médico

 

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