AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

O Presidente dos EUA, Donald Trump, reúne-se com membros do chamado Gabinete para a Fé da Casa Branca, na Sala Oval, no dia 5 de março de 2026. Foto © Official White House/Molly Riley.
O Presidente dos EUA, Donald Trump, reúne-se com membros do chamado Gabinete para a Fé da Casa Branca, na Sala Oval, no dia 5 de março de 2026. Foto © Official White House/Molly Riley.

[Olhar de teóloga]

Este não é o deus de Jesus Cristo

Há um aspeto da situação criada pelo «laranja» que preside ao país que outrora foi «a terra da liberdade», também conhecido como Estados Unidos da América, que é preciso ter em conta. O perigo que este homem representa, com uma mistura em partes iguais de se considerar o imperador do mundo e o escolhido de Deus, é de dimensões inimagináveis.

É fácil ver que tal tipo de pessoa cumpre a maioria das características dos megalomaníacos: tem uma elevada opinião de si mesmo – que estende à sua família –, tem delírios de grandeza, é um narcisista arrogante de manual, que despreza tudo e todos aqueles que não lhe servem. A sua depravação moral também se vê nas imagens em que aparece a acompanhar e a partilhar festas com Epstein na sua ilha, e com menores por todo o lado, como se fossem troféus em exposição.

Num ano, conseguiu contaminar o mundo – incluindo parte da Igreja – com a sua teologia da prosperidade. Essa visão rançosa do evangelho da riqueza que apresenta a relação com Deus como um contrato: se tiveres fé, Deus dar-te-á todas as riquezas, a segurança e a prosperidade que desejas na vida. Se não, arca com as consequências. Esse é o deus (recuso-me a escrevê-lo com maiúscula) do presidente laranja. Era a isto que me referia quando disse que havia algo a ter em conta. Ele criou um deus à sua imagem.

É também o deus daqueles que aplaudem à sua volta, porque é preciso apoiar o líder e mantê-lo satisfeito: o seu vice-presidente «convertido», a sua porta-voz loira, o seu secretário da guerra, o presidente da Câmara dos Representantes do país. Mais uma vez, recuso-me a utilizar maiúsculas para cargos e instituições que, neste momento, estão muito longe do respeito que merecem. E, por último, a coorte de televangelistas que imploram a bênção do seu deus da guerra, do ódio e do petróleo, para o seu eleito. Também não se deve esquecer a outra coorte, a dos ativistas que proclamam a supremacia da raça branca.

O Deus de Jesus Cristo e da maioria dos cristãos que há no mundo é outro. É o Deus da misericórdia, do amor, da compaixão e da comunhão. Esse Deus que, já desde o Antigo Testamento (Levítico 19, 18), a única ordem que dá é: amarás o teu próximo como a ti mesmo.

O Deus de Jesus Cristo chama-nos à vida, não à morte. É esse Deus que diz no Livro do Deuteronómio (30,19): «Coloco diante de ti a vida e a morte… Escolhe a vida.» E, no Evangelho de João (10,10): «Vim para que tenham vida e a tenham em abundância.»

Esse Deus que nos oferece o seu Reino em cada parábola que o seu Filho nos conta: «O Reino de Deus é semelhante a…» E a nossa imaginação abre-se e o nosso coração respira, porque Deus defende a vida e nos ensina a questionar e a denunciar as constantes agressões e violações da dignidade humana, cometidas em nome de um deus que alguns pretendem impor para sua própria satisfação.

Dentro de poucos dias, recordaremos Jesus Cristo, Filho de Deus, entrando em Jerusalém montado num humilde burro para celebrar a Páscoa. Quase ao mesmo tempo, e como acorriam muitos peregrinos e havia risco de confrontos e alguma tentativa de rebelião, Pilatos entrava protagonizando um desfile militar, exibindo todo o poder do exército romano. Era uma forma de avisar que o exército estava preparado e que ele detinha o poder.

Hoje, o americano alaranjado, exibindo o seu poder militar, é a réplica de Pilatos com uma pequena diferença. Pilatos tinha uma mulher inteligente que se atrevia a falar com ele e a dizer-lhe até aquilo que ele não queria ouvir. O «laranja» nem isso tem a seu favor. É tão infeliz que até editou a sua própria Bíblia. Um copiar e colar à sua maneira, onde fez desaparecer tudo o que o incomoda ou que distorce a imagem do seu ídolo.

O Deus de Jesus Cristo continuará a sofrer com aqueles que sofrem. Eu fico com este. Mesmo que viaje de burro.

Cristina Inogés Sanz é teóloga e foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora). O texto que aqui se reproduz com a devida autorização da autora e da revista, foi originalmente publicado na Vida Nueva.

 

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

 

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This