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Evangelismo ou proselitismo?

| 28/10/2024

Jesus mandatou os seus discípulos para evangelizar e fazer discípulos. Mas alguns ainda fazem confusão entre fazer evangelismo, que inclui fazer discípulos ou fazer apenas prosélitos, isto é, convertidos de outras religiões ou adeptos.

Caravaggio, Chamamento de Pedro e André. Arte, Londres

“E discípulos são os que têm sede de conhecer, numa busca sincera de um coração que deseja a verdade. Discípulos são alunos, gostam de aprender e viver na busca de formas de praticar a justiça.” Pintura: Caravaggio (1571-1610), Chamamento de Pedro e André. Royal Collection, Londres

 

Prosélito vem do grego proselutos e significa “aquele que chegou, estranho” (Dicionário Vine). Mas há um outro termo que ocorre 257 vezes no Novo Testamento: discípulo. Segundo o Easton’s Bible Dictionary, um discípulo de Cristo é alguém que “crê no ensino de Cristo, crê no seu sacrifício, recebe o seu espírito e imita o seu exemplo.”

É que há de facto inúmeras diferenças entre fazer evangelismo e proselitismo. Desde logo, o evangelismo aponta a conversão a Cristo; o proselitismo aponta apenas a adesão a um grupo religioso, uma doutrina ou uma religião. Depois, o evangelismo propõe o caminho do discipulado tendo Cristo como modelo. Já o proselitismo propõe a aprendizagem duma cartilha doutrinária.

Por outro lado, a motivação da evangelização é o amor às almas (pessoas), mas a motivação do proselitismo é o interesse pelos números. O evangelismo responde às perguntas que são feitas; o proselitismo dá respostas previamente preparadas a perguntas que não são colocadas. Anunciar o evangelho não é discutir religião.

O evangelismo gasta tempo com as pessoas, o proselitismo não. Os verdadeiros mestres gostam de discípulos. E discípulos são os que têm sede de conhecer, numa busca sincera de um coração que deseja a verdade. Discípulos são alunos, gostam de aprender e viver na busca de formas de praticar a justiça. O evangelismo apresenta soluções espirituais, o proselitismo apresenta soluções políticas.

A dinâmica do evangelismo produz unidade, comunhão e poder espiritual, mas o proselitismo produz desunião e contenda: “E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns. E os apóstolos davam, com grande poder, testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça” (Actos 4:32-33). O evangelismo provoca temor a Deus, contudo o proselitismo provoca hipocrisia religiosa. O pecado de Ananias e Safira não foi querer ficar com parte da venda, nem apenas ter mentido, mas sobretudo a atitude de hipocrisia e fingimento (Actos 5:1-11).

O evangelismo é integrativo, mas o proselitismo é excludente. Veja-se o processo de instituição dos primeiros diáconos na igreja de Jerusalém (Actos 6:1-7).

Evangelismo implica integridade daquele que evangeliza, mas proselitismo implica apenas persuasão. Fazer um prosélito é simplesmente transmitir conhecimento, crenças, usos e costumes. É convencê-lo. Mas fazer um discípulo é ser exemplo, ser modelo, é oferecer-se ao outro para que ele seja seu imitador. Fazer discípulos exige compromissos, muito mais que momentos de partilha de informação.

Jesus não nos enviou os discípulos a conquistar prosélitos. Ele deseja que aqueles que O seguem pratiquem a justiça, amem o bem e andem perante Ele com humildade: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” (Miqueias 6:8).

 

José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.

 

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