Jesus mandatou os seus discípulos para evangelizar e fazer discípulos. Mas alguns ainda fazem confusão entre fazer evangelismo, que inclui fazer discípulos ou fazer apenas prosélitos, isto é, convertidos de outras religiões ou adeptos.

“E discípulos são os que têm sede de conhecer, numa busca sincera de um coração que deseja a verdade. Discípulos são alunos, gostam de aprender e viver na busca de formas de praticar a justiça.” Pintura: Caravaggio (1571-1610), Chamamento de Pedro e André. Royal Collection, Londres
Prosélito vem do grego proselutos e significa “aquele que chegou, estranho” (Dicionário Vine). Mas há um outro termo que ocorre 257 vezes no Novo Testamento: discípulo. Segundo o Easton’s Bible Dictionary, um discípulo de Cristo é alguém que “crê no ensino de Cristo, crê no seu sacrifício, recebe o seu espírito e imita o seu exemplo.”
É que há de facto inúmeras diferenças entre fazer evangelismo e proselitismo. Desde logo, o evangelismo aponta a conversão a Cristo; o proselitismo aponta apenas a adesão a um grupo religioso, uma doutrina ou uma religião. Depois, o evangelismo propõe o caminho do discipulado tendo Cristo como modelo. Já o proselitismo propõe a aprendizagem duma cartilha doutrinária.
Por outro lado, a motivação da evangelização é o amor às almas (pessoas), mas a motivação do proselitismo é o interesse pelos números. O evangelismo responde às perguntas que são feitas; o proselitismo dá respostas previamente preparadas a perguntas que não são colocadas. Anunciar o evangelho não é discutir religião.
O evangelismo gasta tempo com as pessoas, o proselitismo não. Os verdadeiros mestres gostam de discípulos. E discípulos são os que têm sede de conhecer, numa busca sincera de um coração que deseja a verdade. Discípulos são alunos, gostam de aprender e viver na busca de formas de praticar a justiça. O evangelismo apresenta soluções espirituais, o proselitismo apresenta soluções políticas.
A dinâmica do evangelismo produz unidade, comunhão e poder espiritual, mas o proselitismo produz desunião e contenda: “E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns. E os apóstolos davam, com grande poder, testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça” (Actos 4:32-33). O evangelismo provoca temor a Deus, contudo o proselitismo provoca hipocrisia religiosa. O pecado de Ananias e Safira não foi querer ficar com parte da venda, nem apenas ter mentido, mas sobretudo a atitude de hipocrisia e fingimento (Actos 5:1-11).
O evangelismo é integrativo, mas o proselitismo é excludente. Veja-se o processo de instituição dos primeiros diáconos na igreja de Jerusalém (Actos 6:1-7).
Evangelismo implica integridade daquele que evangeliza, mas proselitismo implica apenas persuasão. Fazer um prosélito é simplesmente transmitir conhecimento, crenças, usos e costumes. É convencê-lo. Mas fazer um discípulo é ser exemplo, ser modelo, é oferecer-se ao outro para que ele seja seu imitador. Fazer discípulos exige compromissos, muito mais que momentos de partilha de informação.
Jesus não nos enviou os discípulos a conquistar prosélitos. Ele deseja que aqueles que O seguem pratiquem a justiça, amem o bem e andem perante Ele com humildade: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” (Miqueias 6:8).
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.








