Com a minha família (marido e três filhos, de 14, 13 e 6 anos), estive em Moçambique este verão, em missão.
Por missão, entendo o trabalho voluntário que fizemos, ao serviço de uma comunidade de irmãos maristas, no Nivava, uma terra perdida na província da Zambézia (Norte), onde se espera há décadas pela chegada da corrente elétrica, contando que daí venha a chegar o desenvolvimento.
No Nivava, não há propriamente uma aldeia. Há um pequeníssimo mercado, de bancas de bambu, que se enchem de víveres aos sábados. A uns 10 minutos do mercado ao longo da estrada de terra, há uma clínica, a que chamam pomposamente “hospital”, mas que tem somente uma enfermeira e uns quantos técnicos de saúde e que, como tudo o resto, funciona sem eletricidade. A mais uns 20 minutos a pé de distância, há uma igrejinha de cimento, repleta de bancos que são troncos de madeira no chão. Entre uma coisa e outra, temos a torre da Vodacom (companhia telefónica), que garante a internet a quem tem possibilidade de comprar um telemóvel e – mais importante e mais difícil – pagar os dados móveis para poder, pelo menos virtualmente, viajar para outras paragens e comunicar com quem está longe. Foi essa torre de 77 metros de altura, tão desproporcional numa paisagem de árvores baixas e palhotas, que nos permitiu, ao longo do mês, comunicar diariamente com a família e amigos, mandando fotos, vídeos e crónicas diárias – um luxo.
Logo a seguir à torre da Vodacom, encontramos a belíssima escola marista, o único edifício digno desse nome em toda a zona. Nessa estrutura, além das sete salas de aula e da casa da comunidade de irmãos, encontra-se um reservatório de água ligado a uma torneira externa que, ao longo de todo o dia, enche até cima os baldes trazidos à cabeça das mulheres. A comunidade tem painéis solares que permitem bombear a água do furo para o reservatório. E tinha um carro (mas há nove meses que está estragado), que, ao longo dos anos, permitiu levar muita gente da zona, de emergência, para o hospital da vila do Alto Molócue, a uns 15 quilómetros de distância, onde se conseguem resolver partos mais complicados e encontrar antídotos para a maior parte das picadas de cobra. Nos maristas também há saneamento básico e água (fria) canalizada, vinda do reservatório, mas não quando o céu está muito nublado e os painéis não bombearam água que chegue para os baldes das mulheres e os canos da casa. Ainda assim, torneiras e sanitas, no Nivava, só mesmo nesta comunidade e em mais lado nenhum.
Três horas para chegar à escola

Pelo percurso ao longo da estrada esburacada de terra batida, entre o mercado e a igrejinha, vemos algumas casas de adobe e, numa dessas, um letreiro tombado onde se lê “vende-se gasolina”; noutra, umas cadeiras e um aglomerado de coisas para venda diária, como sabão, cachaça e outros bens de primeira necessidade. De um lado e do outro da estrada, há caminhos de terra que, pelo meio do mato, conduzem às palhotas, ziguezagueando ao longo de montes e vales.
Qual o território exato a que podemos chamar Nivava e que se distingue das outras zonas à volta? Oficialmente, são cerca de 100 quilómetros quadrados, onde vivem umas 13 mil almas. Mas não há tabuletas a demarcar as várias localidades contíguas e a verdade é que as crianças que estudam na escola dos Maristas vêm de todo o lado em volta e chegam a caminhar três horas para lá chegar.
Ao longo de três semanas, estivemos a dar apoio, na escola, sobretudo aos alunos do 7º ano que não sabem ler nem escrever. São cerca de metade. Chegam, vindos das várias escolinhas primárias da região, onde muitos acabam por não aprender praticamente nada, ao longo de seis anos. Com efeito, em turmas de 100 alunos sentados no chão e com um professor sem rudimentos de pedagogia, numa língua – o português – que não falam senão na escola, há sempre dezenas que ficam para trás. E agora, perante a matéria do 7º ano, que é dada sem hesitações, de forma meramente expositiva, nas aulas de História, Ciências, Português, etc… estes alunos passam a manhã a ouvir coisas ininteligíveis e a copiar do quadro signos que não descodificam minimamente. E os irmãos Maristas não conseguem contornar isto, pois os professores da escola são contratados e pagos pelo Estado, estando desmotivadíssimos por terem sido colocados numa escola rural do fim do mundo, como consequência por falta de competência num outro trabalho prévio qualquer. Uma receita para ainda maior indiferença perante alunos sem bases mínimas para compreender a matéria.
“Quem não lê não é pessoa”

Ao longo destas semanas, portanto, a nossa tarefa foi diagnosticar vários níveis de domínio da leitura e da escrita, separar os alunos e dividir-nos entre diferentes grupos (o meu marido e eu, bem como os nossos filhos mais velhos), para uma atenção mais adequada e direcionada ao nível de cada grupo. Isto decorreu nas várias horas dedicadas à leitura e à escrita que eles têm no horário da manhã, enquanto, da parte da tarde, organizámos aulas de alfabetização com os alunos que mais precisassem de todo o 7º ano (um grupo de cerca de 70), durante mais duas horas extra. Foi complicado, porque os miúdos tinham fome e ficar até às 15h, quando se saiu de casa às 5 da manhã, requer muita motivação. Mas cerca de 20 alunos perseveraram com muito poucas faltas e, roendo umas canas de açúcar para enganar a barriga vazia, lá persistiram neste sonho de aprender, finalmente, a ler.
“Quem não lê não é pessoa” – disse-me a Fátima, de 16 anos, enquanto eu lhe explicava as primeiras sílabas (B com A = BA), percebendo as dificuldades enormes que ela tinha em reter a informação e aplicá-la no exercício seguinte. Mas ela voltava, e voltava, todos os dias. Fazia os TPC, apesar da falta de luz e de compreensão real do que o exercício pedia. E apesar da diarreia persistente da mãe ou da malária da irmã, que nalguns dias a impediram (enquanto filha mais velha, já cheia de responsabilidades) de vir à escola.
“Quem não lê não é pessoa” disse a Fátima, e provavelmente era também o que pensavam a Bete e a Naira, que não faltaram uma única vez às aulas da tarde dessas três semanas e que vimos sentadas logo na fila da frente, no vídeo que o irmão Pascoal nos mandou há uns dias. Dois professores que formámos têm estado a dar continuidade ao projeto e pudemos verificar, nesse delicioso momento que o Whatsapp nos trouxe, que uns 20 alunos continuam, tarde após tarde, a tentar aprender a ler.
O que revolta é saber que isto de pouco lhes vale. Não há saídas profissionais para ninguém, no Nivava. O ensino após o 11º ano (quando acaba a escola dos irmãos maristas) decorre na vila do Alto Molócue, só para os mais endinheirados, que conseguem pagar dormida na vila ou têm mota para lá chegar. E, mesmo esses, dificilmente aprenderão alguma coisa, pois nesse liceu chega a haver 180 alunos por turma. E se algum desses conseguir um dia ir estudar para a cidade, na universidade, depois terá de pagar uma quantia astronómica para começar a trabalhar, num país extremamente corrupto e dominado por esquemas controlados quase sempre por quem pertence à Frelimo (o partido do governo há 50 anos).
Pelos meus cálculos, talvez 1% dos alunos que conheci tenha a possibilidade de, no futuro, se dedicar a algo mais que não seja somente a agricultura de subsistência, e assim ter uma vida melhor.
E, então, os amigos a quem contamos tudo isto perguntam: mas porque estão lá os Irmãos Maristas? E de que serviu, afinal, este mês de voluntariado? E fico com pena que a crueza das histórias que conto seja confundida com desesperança, pois não é isto que pretendo transmitir.
Uma relação humana genuína

Acredito que os irmãos não deixam de conseguir dar mais ferramentas a muitos alunos e de os retirar um pouco do isolamento a que estariam votados naquela região. Para lá de todos os que não se conseguem salvar do analfabetismo, há muitos outros que aprendem efetivamente alguma coisa e que treinam o raciocínio, preparando-se talvez para tomar melhores decisões no futuro.
Além disso, durante a nossa estadia, aqueles que queriam realmente aprender a ler, depois de anos e anos em que passaram pelos pingos da chuva, tiveram a oportunidade de ser vistos, cuidados, e agora, com os novos professores que estão a continuar as lições, poderão efetivamente ganhar as capacidades que sonhavam. É isso que lhes garantirá uma vida melhor? Provavelmente não, mas gosto de pensar que a Naira e a Bete, a quem a fome não demovia nunca de virem estudar, tiveram a possibilidade de o fazer. Tal como o Jeremias, que era um dos melhores da sua turma e por isso não fazia parte do grupo das aulas da tarde, e que um dia veio ter comigo e pediu baixinho – “me ensina a ler?”. Perguntei-lhe: “mas você não sabe ler?” e ele respondeu, num fio de voz: “pouco”. Intuí-lhe a consciência do que não sabe, o sentido de insuficiência, a vontade de chegar mais longe. E passámos várias tardes juntos, em mais horas extra, e consolo-me a pensar que naqueles dias, pelo menos, a sua curiosidade teve resposta.
Mesmo se fosse só um, este esforço valeria a pena, pois o que fazemos tem valor pessoa a pessoa, não em massa.
Além disso, num mundo presentemente tão desesperado, entre os loucos que se sentaram nos tronos do poder, os perigos da Inteligência Artificial, o espírito crítico e a empatia atrofiados, a estupidificação à frente de ecrãs, a polarização e o ódio, no Nivava não havia nada disso. Havia pessoas muito simples, dedicadas à sua machamba (horta) e às suas palhotas, a viver no limiar da sobrevivência, mas sem alienação. Ali, a humanidade estava intacta e a merecer que não se desistisse dela. Digo-o sem idealismos, porque a consciência dos Direitos Humanos também ainda não chegou à África profunda, sobretudo para as mulheres e meninas. Mas talvez por isso mesmo, e porque cada pessoa estava aberta a uma relação humana genuína, sentimos que todos os gestos, por pouco que tenham servido para sair da pobreza, tiveram o significado da Esperança.
Uma missão da família Rigato, em voluntariado no Alto Molócue, Zambézia (Moçambique)
(clicar nas setas para ver as fotografias)
Quem estiver interessado numa experiência de voluntariado deste género, pode candidatar-se aos Campos de Trabalho e Missão dos Maristas, como fizemos nós. Para tal, um primeiro contacto pode ser feito através deste email: ctm@maristascompostela.org
Joana Rigato é professora de Filosofia










