
Um dos momentos do Fórum Ecuménico Jovem de 2021. Esta será já a 23ª edição da iniciativa, que se realizou pela primeira vez em 1999. Foto © FEJ
Há quem pense que o ecumenismo é uma “moda”. Mas a procura da unidade dos cristãos “constitui algo de fundamental nos tempos que vivemos e é, mais do que nunca, uma condição de credibilidade do que temos a anunciar e testemunhar”. As palavras são de João Luís Fontes, membro da organização do Fórum Ecuménico Jovem, que terá lugar no próximo sábado, 26 de outubro, no Porto. Esta será apenas a primeira de uma série de iniciativas ecuménicas que irão decorrer ao longo dos próximo meses, e para as quais todos – cristãos e não só – estão convidados.
Em ano de celebração do 50º aniversário do 25 de Abril, o Fórum Ecuménico Jovem escolheu como tema “Firmes na Liberdade”. Um dos objetivos será refletir sobre a liberdade religiosa e sobre “a comunhão que ainda nos falta com os cristãos perseguidos no mundo”, adianta o investigador na área da História Religiosa ao 7MARGENS. Por isso, a parte da manhã contará com a presença do arcebispo de Erbil (Iraque), Bashar Warda, “que viveu já há dez anos um tempo de terríveis atentados contra os cristãos e, desde então, continua a caminhar dolorosa mas esperançosamente com os seus irmãos”.
A tarde será preenchida com 12 workshops à luz da pergunta “Livres para quê?”. “Entre jornalistas a orientarem workshops sobre liberdade de expressão e imprensa e enfermeiros de cuidados paliativos com workshops sobre a liberdade de abandonar-se ao cuidado, haverá muito por onde escolher: o universo das relações afetivas, das escolhas de vida, das nossas fragilidades, da ansiedade e do medo, da hospitalidade do diferente, entre outros”.
É possível “ir mais longe” no ecumenismo em Portugal

João Luís Fontes, um dos organizadores deste Fórum, foi entrevistado no programa 7Margens/Antena 1 em abril deste ano, juntamente com Eugénia Abrantes. Foto © António Marujo/7MARGENS
O Fórum vai já na sua 23ª edição, mas para João Luís Fontes não há dúvidas de que a sua realização continua a ser – e talvez seja cada vez mais – pertinente. O ecumenismo “é um caminho sempre a retomar e um desafio que importa sempre apresentar de novo aos jovens, para os libertar de vivências eclesiais demasiado fechadas ou reativas na afirmação da sua própria identidade”, defende.
E apesar de reconhecer que já existem em Portugal diversas iniciativas de colaboração ecuménica “concreta”, como o projeto Eco-Igrejas, ou a REDE Cuidar da Casa Comum, assim como várias iniciativas conjuntas de oração e reflexão, o historiador considera que é possível “ir mais longe”.
“Não estamos ainda habituados, na nossa programação pastoral, a pensar no que, à partida, podemos fazer em conjunto, como integrar esta dimensão ecuménica nas nossas atividades”, afirma ao 7MARGENS o coordenador do Fórum Ecuménico Jovem. “Conhecemo-nos pouco, valorizamos pouco a riqueza da nossa diversidade e raramente pensamos, nos documentos e pronunciamentos oficiais, se não poderíamos pensar em textos comuns, em integrar o contributo de outros irmãos e irmãs. Temos ainda medo do outro, ou que percamos a nossa identidade”. A justificação poderá estar no facto de “ainda trazermos uma ideia de ecumenismo como uniformidade e não como uma diversidade reconciliada na aceitação comum do que é essencial. E isto desde as bases até aos responsáveis das Igrejas”, aponta.
Daí o Fórum Ecuménico Jovem ter sido pensado, já deste 1999, “como um sinal, um fermento que pudesse ir levedando a massa”. E ter como primeiro objetivo “quebrar muros e medos, permitir ultrapassar preconceitos e permitir um verdadeiro encontro entre os jovens”, explica o organizador. Depois, “se cada um se puder comprometer em ser sinal dessa reconciliação e dessa procura de paz e unidade na sua vida, nas suas comunidades, no seu trabalho, inclusive com pequenos gestos, momentos e iniciativas que permitam descobrir e aprofundar a beleza do mistério da comunhão que somos chamados a viver em Cristo”, melhor ainda
Por isso, reforça o convite para que todos participem na edição deste ano, que terá lugar no Perpétuo – Educação e Cultura (Rua de Costa Cabral 122, Porto), uma das casas dos Missionários Redentoristas. O início está marcado para as 10h e terminará com uma celebração de envio, às 16h. As inscrições ainda estão abertas, podendo ser feitas online, e têm um “custo simbólico” de €2. O almoço e lanche serão partilhados, pelo que todos os participantes são convidados a levar “algo para partilhar com o grupo”.
2025, um ano de “forte simbolismo” para as Igrejas cristãs

O encontro pode ser importante para ajudar a assumir “um compromisso comum perante desafios comuns que os cristãos enfrentam”, de um modo especial os mais jovens, defende o bispo anglicano Pina Cabral. Foto © FEJ
O Fórum Ecuménico Jovem, organizado pelos secretariados juvenis das igrejas católica, metodista, presbiteriana e lusitana e pela Sociedade Bíblica de Portugal, é “um exemplo muito vivo de como o ecumenismo pode, e deve ganhar diversas expressões a diferentes níveis”, afirma ao 7MARGENS o bispo Jorge Pina Cabral, responsável pela Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica (que pertence à Comunhão Anglicana).
Para o prelado, que irá também marcar presença neste encontro, a iniciativa pode dar “um contributo importante para a vivência da fé” e para o assumir de “um compromisso comum perante desafios comuns que os cristãos enfrentam”, de um modo especial os mais jovens.
“A magnitude dos desafios no mundo de hoje, como a crise ecológica, as migrações, as guerras, requer que as Igrejas se unam para darem o seu contributo para a resolução desses mesmos desafios”, defende Pina Cabral, acrescentando: “Num contexto de crise e de grande desesperança, a fé cristã e o testemunho dessa mesma fé em conjunto são geradores de sentido e de esperança. Isso é algo de que o mundo necessita… Cabe às Igrejas fornecer aquilo que está no seu ADN, que é um sentido de esperança, amor e reconciliação capaz de, num contexto difícil, abrir sempre novos caminhos”.
E o caminho do ecumenismo continuará a ser percorrido de forma especialmente intensa ao longos dos próximos meses, porque “2025 vai ser para as Igrejas cristãs a nível mundial um ano de forte simbolismo”. Por um lado, explica o bispo da Igreja Lusitana, “serão celebrados os 1.700 anos do Concílio de Niceia, o primeiro concílio ecuménico, e as Igrejas vão assinalar esse aniversário não olhando para as divisões de outrora, mas buscando nesta identidade comum de uma fé trinitária, de um Deus de amor, de relação”. Por outro lado, “por uma coincidência muito feliz, a data da celebração da Páscoa vai ser comum aos dois pulmões do cristianismo, a Igreja do Ocidente e do Oriente, portanto simbolicamente todos os cristãos vão reafirmar a fá na mesma data”, assinala o líder religioso com satisfação.
Entre as iniciativas já agendadas, destaque para a Celebração Ecuménica Nacional que terá lugar no dia 18 de janeiro, às 15h30, na Paróquia Lusitana de S. João Evangelista, em Vila Nova de Gaia; o Encontro Interconfessional com a Aliança Evangélica Portuguesa, que acontecerá a 4 de fevereiro em Albergaria-a-Velha; e o Simpósio Teológico seguido de Celebração dos 1.700 anos do Credo de Niceia, a 14 de junho.
Uma nova versão da “Carta Oechumenica”, com o contributo de todos

O bispo Pina Cabral lembra que o ecumenismo pretende não só “colocar os cristãos em unidade entre si, mas também com todos os homens e mulheres de boa vontade”. Foto © Igreja Lusitana
E porque, apesar de o movimento ecuménico não ser de hoje, “importa relançá-lo em novas estruturas e novos modelos, à luz das exigências de hoje”, uma outra iniciativa irá avançar muito em breve: a recolha de contributos para a revisão da Carta Oechumenica, documento assinado em 2001 pelo Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) e pela Conferência das Igrejas Europeias (CEC), que marcou o início do século chamando as igrejas cristãs na Europa ao diálogo, à unidade e à ação conjunta.
“Prevê-se que, nos próximos dias, seja disponibilizado nos sites da Conferência Episcopal Portuguesa e do Conselho Português de Igrejas Cristãs um primeiro draft da revisão dessa carta, como base de trabalho lançada pelo próprio CCEE e pela CEC”, adianta o bispo da Igreja Lusitana. “Depois, cada pessoa poderá trabalhá-lo individualmente ou em grupo, alterando e acrescentando o que entender nos diversos pontos da carta e deverá fazer chegar esse contributo até ao dia 30 de novembro, para o e-mail geral@copic.pt”, explica.
Entre as principais novidades do esboço proposto pelas Igrejas europeias, Pina Cabral destaca “o facto de terem sido incluídas aquelas que são as novas áreas de missão e cooperação entre os cristãos na Europa, nomeadamente as migrações, os conflitos e o uso das novas tecnologias”.
“A riqueza desta carta é que, identificando os principais pontos de missão que as Igrejas subscrevem, apresenta também aos cristãos na Europa pontos concretos de compromisso e de ação”, sublinha o bispo anglicano, lembrando ainda que o ecumenismo pretende não só “colocar os cristãos em unidade entre si, mas também com todos os homens e mulheres de boa vontade, sejam eles de que credo forem”. O ecumenismo, conclui, “é essa linha de relação humana e espiritual que, apesar das diferenças, nos mantém unidos e também comprometidos”.









