Será mera coincidência (ou Deuscidência!) que um dos melhores amigos de Francisco de Assis se chamasse Leão, o mesmo nome que Prevost escolheu para Papa, depois de Bergoglio ter escolhido Francisco em homenagem ao “Poverello” de Assis? Não sabemos – talvez Leão XIV venha a dar-nos essa resposta em breve – mas, seja como for, vale a pena conhecer a história de amizade que uniu aqueles dois religiosos, já lá vão oitocentos anos.
Até porque, coincidência ou não, há apenas dois textos conhecidos atribuídos a Francisco de Assis que este Santo terá escrito pelo seu próprio punho e que sobreviveram ao tempo: uma oração e uma carta. E ambos são dirigidos a frei Leão.
Quanto aos restantes textos atribuídos a São Francisco, que viveu entre 1181 e 1226, acredita-se que tenham sido por si ditados a seguidores mais letrados – e tudo indica que frei Leão seria o principal e mais talentoso calígrafo de entre eles.
Na oração, conhecida como Bênção de São Francisco – ou Bênção ao Frei Leão –, ele diz: “O Senhor te abençoe e te guarde; te mostre a sua face e se compadeça de ti. Volte para ti o seu rosto e te dê a paz. O Senhor te abençoe, irmão Leão.”
E na carta expressa este mesmo amor fraterno: “Frei Leão, teu frei Francisco [te deseja] saúde e paz. Assim te digo, meu filho, como uma mãe: porque todas as palavras que dissemos no caminho, quero dispor em breve essas palavras e aconselho, e se depois te parecer oportuno vir a mim por causa de conselho, porque assim te aconselho: de qualquer modo que te parecer que agrada ao Senhor Deus, e seguir seus vestígios e pobreza, que o faças com a bênção de Deus e a minha obediência. E, se te for necessário para tua alma ou por alguma outra consolação tua, e quiseres vir a mim, Leão, vem!”, escreveu o Santo.
Em ambos os textos é, assim, possível perceber “o carinho e a admiração que Francisco tinha por Leão”, assinala o historiador Thiago Maerki, em declarações à BBC News Brasil nesta sexta-feira, 9 de maio. Recordando que, de acordo com antigos escritos franciscanos e com a tradição da ordem, Leão foi um dos primeiros a seguir Francisco de Assis, o investigador brasileiro explica que, como Leão tinha mais estudos, acabou por assumir a função de secretário pessoal de Francisco.

“São Francisco e o Irmão Leão Meditando sobre a Morte”, de El Greco. Foto © Museu do Prado
“Eles tiveram um contacto muito estreito. Dizemos ‘secretário’, mas não no sentido burocrático. E sim no sentido daquele que era alguém com um pouco mais de conhecimento que escrevia e ao mesmo tempo apoiava São Francisco”, explica por seu lado o frade franciscano Marcelo Toyansk Guimarães.
E quando, nos últimos anos de vida de São Francisco de Assis, a ordem religiosa por ele criada cresceu e começou a enfrentar divisões internas, Leão foi um dos frades que continuou a apoiar Francisco. “Para sintetizar, podemos pensar em duas grandes tendências”, contextualiza Maerki. “Alguns frades já se afastavam daqueles ideais primitivos de Francisco e propunham, por exemplo, a construção de grandes templos, grandes igrejas, fugindo um pouco daquele ideal de pobreza por ele sonhada, pensada por São Francisco quando criou a Ordem dos Frades Menores”. Mas “frei Leão mantinha-se no primeiro grupo, sempre ao lado de São Francisco. O Santo começou a ser ignorado pelo grupo que aos poucos foi assumindo o poder da ordem e Leão sempre permaneceu ao lado de Francisco, que se isolou um pouco nos últimos dias de vida”, prossegue o especialista, que é membro associado da Hagiography Society, nos Estados Unidos.
No livro Fioretti di San Francesco (Florinhas de São Francisco), uma compilação de 53 histórias protagonizadas por Francisco e outros frades, atribuído a um autor desconhecido no final do século XIV, frei Leão surge em muitas das passagens, o que é mais um sinal da proximidade entre ambos. Embora tenha sido publicada mais de 100 anos após a morte de Francisco, esta obra é uma coletânea de escritos e relatos da tradição oral que circulavam entre os primeiros seguidores do Santo. “Há ensinamentos [da ética e da religiosidade de São Francisco], como a ideia de que a perfeita alegria está na humildade, transmitidos através dos diálogos entre Francisco e Leão”, sublinha Maerki. E para este investigador, não restam dúvidas: a escolha do nome do novo Papa não pode ser dissociada desta amizade com oito séculos, nem da amizade que unia o Papa Francisco a Robert Francis Prevost, a quem chamou a Roma, em janeiro de 2023, como prefeito do Dicastério para os Bispos, fazendo dele arcebispo e logo depois cardeal .
“A escolha do nome é muito significativa”, afirma o historiador. “Penso que ele demonstra a toda a Igreja que pretende seguir os passos de Francisco, do Papa Francisco, assim como Frei Leão foi um fiel amigo de São Francisco de Assis e esteve sempre ao lado dele, mesmo nos momentos de maiores dificuldades.”

Papa Francisco e Robert Francis Prevost, no Vaticano. Foto © Vatican Media
“Apesar de [a explicação para a escolha do nome] ser apenas uma hipótese ainda, é uma hipótese feliz. A continuidade [entre os dois papas] é perceptível desde o discurso inicial, em que ele demonstrou muita sintonia com Francisco”, reconhece por seu lado frei Marcelo Guimarães.
O franciscano vai mais longe e diz ser provável que aconteça com Leão XIV e Francisco o mesmo movimento que ocorreu com os Papas João XXIII e Paulo VI, em que este último, com um perfil mais intelectual, consolidou no magistério da Igreja aqueles que tinham sido os avanços promovidos pelo seu antecessor, com quem estava alinhado. “O primeiro foi alguém de grande inspiração que abriu a Igreja. E Paulo VI seguiu implementando, organizando e também documentando, dando sequência e encaminhando toda a inspiração que veio de João XXIII”, sustenta.


![Apelo de Metz [texto integral] O Papa no encontro no Centro de Congressos Robert Schuman, em Metz. Foto Vatican Media](https://setemargens.com/wp-content/uploads/2026/09/O-Papa-no-encontro-no-Centro-de-Congressos-Robert-Schuman-em-Metz.-Foto-Vatican-Media-480x252.jpg)







