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[Saborear os Clássicos – XVI]

Francisco, o Santo Jogral

«As raízes da cultura estão naquelas obras chamadas clássicas, obras cuja mensagem se não esgotou e permanecem fontes vivas do progresso humano.»
(edições da Fundação Calouste Gulbenkian)

São Francisco

Bonaventura Berlinghieri, Retrato de São Francisco e cenas da sua vida. Igreja de São Francisco, Pescia, Toscânia, Itália.

 

Três obras importantes sobre São Francisco, entre muitíssimas mais. De G. K. Chesterton (1874-1936), um grande clássico da literatura: poeta, narrador, ensaísta, jornalista, historiador, filósofo, desenhista e conferencista. Aparentemente simples, a linguagem deste escritor é complexa. Linguagem paradoxal, desconstruindo um pouco a lógica e o senso comum. A sua leitura é sempre um prazer surpreendente (ed. Aletheia).

Franco Cardini, o mais jovem dos três autores, é investigador de história medieval. É uma obra muito completa, aprofundando ao mínimo detalhe a personalidade incomparável de Francisco, a complexidade do nascimento e dos caminhos que a ordem franciscana traçou na história (Editorial Presença).

Jacques Le Goff, considerado o mais importante investigador europeu da Idade Média – quase durante meio século; destruiu o antigo conceito da «Idade das Trevas”, iluminando essa época histórica com a verdade. No prólogo, o autor diz que Francisco sempre o «fascinou pela personagem histórica no centro da viragem decisiva do séc. XII para o século XIII, tornando-se uma Idade Média moderna e dinâmica… [Francisco] mexe com a religiosidade, a civilização e a sociedade… revoltado sem nihilismo, entre Roma e a solidão do Monte Verne, desempenhou um papel decisivo no cristianismo, enriquecendo-o com uma dimensão ecológica, centrando a santidade em Cristo».

É esta última obra citada sobre São Francisco que foi escolhida, embora ache que todas as três são válidas. Ao longo do texto, todas as citações (em itálico) são retiradas da obra de Jacques Le Goff (1924-2014), editada pelo Círculo de Leitores.

 

“O Mais Singular Louco do Mundo”

São Francisco de Assis

Giotto (1266–1337), São Francisco a falar às aves. Igreja de São Francisco, em Assis, Itália.

 

O jogral é um artista ambulante da Idade Média, acompanhado ou não de dançarinas, as jogralesas, e de um instrumento musical. Cantor, mímico, provocando o bom humor.

Na verdade, Francisco é único, a pregar, nas praças das cidades e aldeias e todos – ricos, pobres, mendigos – acorrem. Ele mesmo afirma ser como os ioculatores (jograis) e acrescenta querer ser novissimus pazzus in hoc mundo (o mais singular louco do mundo). 

O que caracteriza verdadeiramente Francisco é o seu temperamento apaixonado, activo, sempre pronto a agir a favor dos que nada possuem.

A prática que marcou a sua juventude, de jongleur, mímico, cantor da alegria, continuará na sua aventura espiritual, na plena felicidade que nasce do absoluto despojamento. Artista e orador errante, tal como o seu Mestre e Senhor – Jesus – servidor do povo, dos ricos e dos pobres.

Deus est caritas, Deus é amor, escreve Francisco nas Laudes feitas ao irmão Leão. É este amor fundamento do amor pelo próximo: pobres, doentes; leprosos, em particular, porque vivem afastados da comunidade.

 

A Humildade, irmã da Pobreza

 

A Pobreza é a sua Dama, a quem Francisco presta homenagem, transpondo os ideais dos cavaleiros e dos trovadores, tão caros na sua juventude, para os seus ideais espirituais.

A Mendicidade é a manifestação da pobreza e da humildade e é muito importante na prática franciscana e de outras ordens mendicantes no século XIII, embora essa prática deixasse de existir nos séculos seguintes. Não teve, pois, continuação no monaquismo ocidental.

 

A Igreja nos fins do séc. XII e os Laici Religiosi

O Ermo de San Damiano, onde ouviu uma voz: “Vai, Francisco, e conserta a minha igreja.” Foto: Direitos reservados.

 

Nas épocas em que há um desenvolvimento económico da sociedade e em particular nas cidades, a Igreja como instituição afunda-se, em geral, no medo, na incompreensão, no orgulho hierárquico. Surgem então numerosos grupos de «Leigos Religiosos», como aconteceu no tempo de Francisco:

Os Valdenses (em Lyon, 1170): consagram a vida aos que nada têm; leitura da Bíblia na língua vulgar; os Umiliati, com ideais semelhantes, juntando o trabalho e oração, aspirando à igualdade entre os sexos (em Milão e Lombardia); as Beguinas e os Beguinos, no norte de França; os Penitentes, a norte de Itália.

Os Cátaros, no sul de França, são eliminados sem piedade pela Igreja.

O Papa Lúcio III excomunga todos os grupos, em 1184. A Igreja não lhes perdoa o facto de todos eles «roubarem» o grande monopólio da «pregação».

 

O filho de mercador que se torna pedreiro

São Francisco de Assis

Giotto (1266–1337), Francisco renuncia às vestes. Basílica de São Francisco de Assis, Assis, Itália.

 

Francesco Bernardone (1181/82–1226), natural da Úmbria, Assis: a tranquilidade da paisagem e simpatia do povo entram em contradição com os novos tempos: o desenvolvimento urbano, o movimento dos mercadores, os conflitos armados entre papas e imperadores; cidades lutam umas contra outras; a nobreza, contra o povo.

Filho de um rico mercador, Francisco convive com os jovens nobres: estes são em geral pretensiosos, ruidosos – os iuvenis – perturbam a ordem e o sistema, procuram amores entre as jovens plebeias, sonhando simultaneamente com aventuras cavaleirescas a fim de salvar e proteger uma grande dama, de acordo com os ideais da cavalaria e dos trovadores provençais. Dedicam-se também ao canto, aos jogos da arte dramática, ao riso e à dança, próprios dos artistas errantes – os jograis.

Francisco destaca-se de todos pela jovialidade transbordante, pela generosidade. Perdulário, cultiva a amizade sem par. Naturalmente participa também em conflitos armados, tendo o seu grupo sido feito prisioneiro, por uns tempos.

Depois, juntamente com outros jovens, caminha novamente com o seu cavalo para outro conflito armado, mas os males do corpo começam já a fazer-se sentir. Impedem-no de avançar e regressa, taciturno, à casa paterna.

Então há algo que provoca o que está presente no mais profundo do seu ser: a generosidade e a acção.

Por exemplo: a pobreza do padre da igreja arruinada de S. Damião que não tem dinheiro para a reparar; as leprosarias ali próximas, mas onde ninguém ousa passar, fora do centro da povoação…

Não hesita: corre a casa, pega ao acaso nos fardos de tecidos do pai, vende-os juntamente com o cavalo e dá o dinheiro ao padre de S. Damião.

O pai castiga-o, prende-o em casa. Mas a mãe liberta o filho e Francisco pede proteção ao bispo que o acolhe. Despe-se num acto simbólico na praça pública e renuncia aos bens paternos.

Então entra na igreja arruinada, fixa o letreiro: «Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel…proclamai que o Reino dos céus está perto. Curai os enfermos… limpai os leprosos…» (Marcos 10). Sobretudo, fixa a imagem do Crucificado e interroga-se… Ouve uma voz: «Vai, Francisco, conserta a minha igreja…».

Torna-se então pedreiro. Depois, tentando várias vezes vencer a repugnância, consegue beijar um leproso. Transborda de profunda alegria: tira os sapatos, veste uma camisa de burel, improvisando um cinto.

 

A «pequena galinha negra»

Cimabue, retrato de São Francisco.

Ele próprio assim se intitula: é muito moreno e de baixa estatura.

Francisco começa então a pregar; e é como um fogo ardente. Nasce São Francisco de Assis (1208 ou 1209).

Comunica numa linguagem simples, acessível a todos – é uma grande inovação, porque não é assim que os pregadores eclesiásticos se dirigem aos ouvintes. Por outro lado, combina o seu discurso com a arte jogralesca que tanto ama: a mímica, o teatro, o riso.

A pequena galinha negra consegue até reconciliar os nobres que há tempos antigos se guerreavam…

Surgem os primeiros companheiros: Bernardo de Quintavalle – rico, vende tudo e dá o dinheiro aos pobres; Pedro Catânio, jurista e cónego…

 

Pregação Itinerante

Alarga-se o grupo e, por ordem de Francisco, dispersam-se dois a dois para pregar nos arredores.

O bispo Guido, que protegeu Francisco, olha agora o grupo desconfiado.

Então resolvem ir a Roma e Francisco apresentar-se-á ao Papa, com um modesto documento, definindo princípios.

O luxo do Papa contrasta com os trapos de Francisco e dos seus irmãos.

Não é possível deixar de comparar aqueles maltrapilhos e a severidade da sua regra com os outros, os «rivais» da Igreja, já esconjurados. Após várias tentativas, o Papa despede-os, autorizando-os só a pregar e com o aviso: multiplicai-vos e depois se verá….

 

As Pobres Damas

Regressam. Instalam-se perto de um riacho, Rivo Torto, e cuidam dos leprosos. Trabalham no campo, mendigam, pregam em Assis e arredores.

Os monges beneditinos, face à recusa da hierarquia local da Igreja em recebê-los, dão-lhes um pedaço de terra e a capela de Porciúncula.

 

Clara

Clara, jovem nobre de Assis, impressionada com Francisco, foge de casa durante a noite, juntamente com a amiga Pacífica (juntando-se depois a sua irmã, Inês). São recebidas na Porciúncula e o próprio Francisco corta os cabelos à sua companheira. Condu-las à capela de S. Damião e aí fundarão a Ordem feminina, as Clarissas, sob a proteção do bispo Guido.

Até à morte, nunca Francisco e Clara se separarão, cada um no seu grupo respectivo.

 

Stefano di Giovanni  (1392–1450): Casamento de S. Francisco com a Senhora Santa Pobreza ladeada pela Obediência e pela Castidade. Museu Condé no Château de Chantilly,Chantilly, Oise (França).

 

– Lá vem o Santo!  

Tocam os sinos, revestem o chão com folhas dos ramos, há júbilo e muita alegria. Cortam bocados da sua túnica… é assim que Francisco com os seus companheiros são recebidos em todo o lado.

Pregam ao povo e uma vez sobem ao Castelo de Montefeltro, onde há festa. Francisco e os companheiros cantam com os trovadores e encenam com os jograis. O conde de Chiusi, conviva no sarau, dá a Francisco e companheiros o Monte de Verne e aí instalam um eremitério.

Mas algum tempo depois e de outras aventuras, o grupo, já numeroso, entra em crise: uns desejam afastar-se do rigorismo e aproximar-se da Cúria Romana; os outros recusam fazer concessões.

Para tornar a situação mais complexa, grupos de leigos desejam entrar e funda-se então a «ordem terceira», o que convém à hierarquia de Roma, a fim de apagar um pouco o fogo franciscano. É nesta altura que é inaugurado o ensino no Convento de Bolonha, dirigido pelo irmão António de Lisboa/Pádua a quem Francisco chamava o meu bispo. (Franco Cardini, na obra já citada).

Francisco admirava a doutrina de António, mas receava que os irmãos se tornassem teóricos e colocassem em segundo plano a prática religiosa.

 

Que fazer?

Francisco e os seus fiéis aliados não têm remédio senão em marchar para Roma com uma Regra a fim de conciliar uns e outros.

Em 1223, a regra é retocada pelo bispo Hugolino que se torna o responsável pelo grupo. O Papa Honório III aprova a chamada Regra Bullata.

É abolido o seguinte: as citações dos Evangelhos; os cuidados prestados aos leprosos; a prática da pobreza rigorosa.

Francisco entristece-se com este caminho.

No fundo de si mesmo, sente-se traído. Mas não se afasta da Igreja como instituição por causa dos sacramentos, em especial da Eucaristia. Só um padre os pode realizar…

«– Pobre infeliz», diz-lhe o Senhor. «Porque estás triste? Não é a tua Ordem a minha Ordem? Não te aflijas e trata da tua salvação.»

 

O segundo momento da vida de S. Francisco

 

Entre 1224 e 1226, retira-se com alguns companheiros fiéis: Leão, Ângelo, Rufino e outros para o Monte de Verne.

Abandona-se na contemplação. Aprofunda o amor por todas as criaturas da Terra: desde os humanos até aos insectos, as searas, árvores, flores, pedras…

Ajuda os pobres e os velhos camponeses que já nem conseguem levar nos braços um molho de lenha para os seus casebres.

Resgata os cordeiros e borregos que são levados para a morte.

Presépio, Greccio, Benozzo Gozzoli, Francisco de Assis, Arte, Pintura

Benozzo Gozzoli (1420-1497), História de São Francisco – Instituição do Presépio em Greccio. Museu de São Francisco em Montefalco.

 

“O Presépio de Greccio coroa este final lírico”

 

Na véspera do Natal de 1225, nas grutas dos eremitérios e nos terrenos escarpados da aldeia de Greccio, Francisco pede ajuda ao senhor de Greccio e ao povo da aldeia para todos celebrarem a pobreza do nascimento do Menino, nascido numa manjedoura. Que tragam um boi e um burro para O aquecer…

A noite ilumina-se com archotes e velas e uma multidão assiste a este acto dramático-litúrgico, tão popular na Idade Média. O canto das vozes eleva-se sereno na noite e amplia-se nas grutas e vales das aldeias, tocando os corações.

 

As chagas da Paixão

Ao longo desse período de recolhimento só ou com os irmãos e meditando profundamente na Paixão do Crucificado, surgem no corpo de Francisco buracos ensanguentados nas mãos, pés e uma chaga no flanco. Francisco dissimula os estigmas com panos.

Segundo Tomás de Celano, só o irmão Elias e Rufino lhes tocou. Mas depois da sua morte e ao longo do século XIII, todos afirmam que os viram.

Debilitado, Francisco visita Clara, que o obriga a permanecer uns tempos com as irmãs. Constrói uma cabana no jardim para viver e sossega aí a sua mente.

Diz-se que foi aí que escreveu o belíssimo canto tão inspirador, o «Cântico ao Sol e a todas as Criaturas»: o mais belo trecho de poesia religiosa depois dos Evangelhos, dizia Ernest Renan.

Ao sentir a morte a aproximar-se, Francisco pedirá aos irmãos Leão e Rufino para lho cantarem.

 

Finalmente, Porciúncula

As doenças não o deixam em paz. Está quase cego. É conduzido, montado num burrito, para vários lugares, até que Francisco suspira pela Porciúncula. É o seu porto seguro.

O seu estado piora. Dita o seu testamento, tentando assinalar alguns princípios que tinham sido anulados, como a sua veneração pelos leprosos, aqueles que nada possuem…

Cita os três princípios essenciais: o amor entre os irmãos da ordem; o respeito pela «Nossa Senhora Santa Pobreza»; obediência à Santa Madre Igreja.

O testamento de Francisco foi anulado por Gregório IX, em 1230.

No dia 2 de Outubro, preside à ceia: benze o pão e distribui-o aos irmãos.

No dia 3, pede que lhe cantem o Cântico do Irmão Sol e lhe leiam a Paixão de Cristo no Evangelho de João. Que coloquem um cálice coberto de cinzas no chão.

O funeral, simples, a 4 de Outubro de 1226, passa pela Capela de S. Damião e Clara beija o seu celeste amigo.

A 17 de Julho de 1228, menos de dois anos depois da morte, dá-se a canonização surpreendentemente rápida do santo, talvez pelo incómodo que Francisco gerou na hierarquia eclesial.

As honrarias que lhe prestaram posteriormente – em 1230, a inumação do corpo para a basílica de Assis – são uma traição aos princípios de Francisco.

Em 1251, Tomás de Celano escreve o Tratado dos Milagres de São Francisco.

Em 1260 e nos anos seguintes, o capítulo geral da ordem confia ao ministro-geral, São Boaventura, a redacção de uma vida de São Francisco que substitua todas as outras.

Três anos depois é aprovada e em 1266, a mesma é imposta como única vida canónica, ordenando-se a destruição de todas as biografias anteriores.

Segundo o autor, há duas obras de carácter mais lendário do que histórico, mas muito populares: As Núpcias Espirituais de São Francisco com Dona Pobreza (1227) e as Fioretti, (um século após a morte de Francisco) reunindo pequenos relatos espirituais da vida do santo.

Assim, a história e a lenda estão em S. Francisco muito ligadas.

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário.

 

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