Franz Jalics, in memoriam: a herança mais fecunda

| 19 Fev 21

Franz Jalics, Oração, Contemplação

Capa da edição espanhola dos Exercícios de Contemplação, do padre Franz Jalics. 

Foi através do 7MARGENS que soube da notícia da morte do jesuíta húngaro Franz Jalics (1927-2021). Senti um pouco de pena ao ler a redução biográfica da notícia – facto comum a outros meios de comunicação religiosos internacionais, pelo que pude ver – ao episódio do rapto de Jalics na Argentina durante a ditadura militar, quando Bergoglio era aí provincial dos jesuítas. Correr-se-ia o risco de passar despercebido o facto de ser perder um dos mais interessantes e significativos mestres da arte da meditação cristã do século XX, de que é sinal, por exemplo, o seu reconhecimento como mestre espiritual (a par de Charles de Foucauld) pela conhecida associação espanhola Amigos del Desierto, fundada por Pablo d’Ors. (É possível encontrar na página da associação uma breve biografia e uma entrevista de Jalics.)

Além de algumas obras de iniciação à vida de oração, Jalics deixou uma obra que se tornou uma referência, Exercícios de Contemplação. Introdução à vida contemplativa e à oração de Jesus. Publicada originalmente em 1994 em alemão, foi editada em Espanha pela Sígueme, e foi essa tradução que um dia me veio parar às mãos enquanto pesquisava, no catálogo de uma biblioteca em Santiago de Compostela, livros cujo título contivesse a palavra contemplação.

Deparei-me de imediato com um aviso do autor nas primeiras páginas: trata-se de um manual prático, que pede para pôr em prática determinados passos e exercícios, quer num dia-a-dia normal de trabalho, quer em dias especialmente dedicados à oração. Caso pretendesse ler esse livro como um mero livro de leitura distraída ou corrente, poderia fazê-lo, mas aí o autor já não me acompanharia; só me desejaria uma boa leitura. Infelizmente ainda não tive a coragem de seguir, com fidelidade, os passos propostos pelo autor, não passando ainda da mera leitura; talvez este seja um momento favorável para o fazer.

O livro segue um esquema de dez tempos, pensados para um retiro de dez dias. Em caso de não ser possível este retiro, cada passo pode ser posto em prática durante cerca de duas a três semanas, numa base diária. Trata-se de um caminho de descoberta da oração silenciosa. Em cada capítulo, o autor faz uma exposição (correspondente à orientação dada pelo acompanhante de Exercícios: Jalics é fiel à tradição de Inácio de Loyola, dela partindo), e apresenta os exercícios práticos para esse dia: exercícios como o caminhar na natureza, a atenção aos sons envolventes, o sentir da respiração e da circulação sanguínea, a repetição do Nome de Jesus.

Cada capítulo conclui-se com alguns diálogos inspirados na experiência do autor, no qual este responde às dúvidas e dificuldades dos exercitantes. Não faltam aqui as objeções habituais – o lugar da Escritura num método que a não utiliza diretamente, o serviço aos irmãos, a identidade cristã de tal caminho de oração. A todas Jalics responde com uma sabedoria sensível, colocando a exigência mais radical de uma vida espiritual: a consciência das falsas imagens de Deus e de si próprio que habitam e movem o agir do crente.

Franz Jalics, Oração, Contemplação

O padre Franz Jalics (1927-2021). Foto: Direitos reservados. 

Encontramos aqui pontos de encontro com outros autores católicos de referência, como o beneditino John Main ou o cisterciense Thomas Merton. Ao passo que estes sentiram o repto das tradições de meditação vindas do Extremo Oriente, colocando-as em diálogo com o património cristão, Jalics desenvolveu a sua busca a partir de acontecimentos marcantes da sua própria vida, interpretando-os à luz da tradição espiritual cristã. Enquanto jovem aspirante a oficial na Segunda Guerra Mundial, Jalics sobreviveu milagrosamente ao bombardeamento de um edifício em Nuremberga, fazendo-o experimentar a radicalidade da vida humana diante do limiar da morte.

Na mesma fase, um longo período de inatividade num campo de prisioneiros levou-o a trocar o convívio humano por longos passeios na natureza, em simples observação. Mais tarde, já jesuíta na Argentina, Jalics refere duas experiências difíceis: uma como professor num colégio, assoberbado por múltiplos trabalhos, que o conduziram a uma profunda depressão; mais tarde, o seu rapto e prisão durante cinco meses, em estrito isolamento, com constantes promessas de libertação e sequentes adiamentos.

Foi neste período que a oração de Jesus terá conduzido Jalics a superar o desespero. Em conversa posterior com o superior-geral da Ordem, Jalics terá decidido destruir a documentação relativa à pessoa com responsabilidades que o denunciou a ele e ao companheiro de cativeiro (suspeitos por terem optado por viver num bairro pobre de Buenos Aires), nunca revelando a identidade de tal denunciante.

Jalics relata a sua experiência de vida em Exercícios de Contemplação, e como esta o conduziu à oração silenciosa. Uma sólida formação teológica (Jalics foi, durante o período argentino, professor de teologia, antes de regressar à Alemanha e se dedicar ao acompanhamento espiritual) permeia o seu conhecimento da vida espiritual, marcada pelas ilusões do pecado e redimida pelo Espírito de Cristo. Um caminho de purificação ou de não-conhecimento acompanha o exercitante, desvelando os falsos ídolos que permeiam a nossa oração: a busca de um ganho ou rendimento, a exposição pública, o moldar a imagem de Deus à nossa imagem. Apenas o silêncio – que caminha a par de uma vida de serviço e de conhecimento das Escrituras, mas sem ser por estes absorvido – pode purificar essa vida de oração.

Ancorado na mais sólida tradição cristã – de que os Exercícios de Santo Inácio serão a referência na vida do autor – Exercícios de Contemplação constitui a herança mais bela e fecunda de Jalics. Pelo menos a mais universal, pois as experiências pessoais de quem com Jalics encontrou o caminho da oração permanecem no coração de cada um. Enquanto se aguarda por um melhor recepção em Portugal do fecundo caminho percorrido por Jalics (inclusive pela tradução de Exercícios de Contemplação!), fica esta breve nota de agradecimento.

 

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