Dominicano morreu dia 17

Frei Augusto Matias: três testemunhos e missas de 7º dia em Lisboa e Fátima

, e | 22 Fev 2024

O frade dominicano Augusto José Matias morreu no último sábado no Hospital de Leiria, como o 7MARGENS noticiou. Nascido em Franco (Trás-os-Montes) em 1947, fez formação nos dominicanos em Portugal e Espanha e viveu em comunidades da Ordem dos Pregadores em Lisboa, Barreiro e Fátima, tendo apoiado também a comunidade de Odemira. Como recorda o seu confrade José da Silva Nunes, Augusto Matias “viveu a fé cristã sempre ligado às causas sociais: na luta antifascista, nas comissões e grupos de Justiça e Paz, no CIDAC, no jornal Libertar, etc.” Autor da tese Católicos e Socialistas em Portugal (1875-1975), Augusto Matias é aqui evocado em mais três textos, escritos por pessoas amigas ou que com ele trabalharam. Nesta sexta-feira Augusto Matias será evocado em Lisboa e em Fátima, em missas do 7º dia que por ele serão celebradas nos conventos dominicanos: em Fátima, às 12h; em Lisboa (Alto dos Moinhos), às 19h15.

Inquieto e atento à Vida

Capa Isto Tem de Mudar, fr. Augusto Matias

Capa do livro Isto Tem de Mudar, de fr. Augusto Matias.

Há alguns dias um título do 7MARGENS interrogava-nos “Mas afinal não há homens bons?” Sim, há. Um deles deixou-nos há dias e todos ficámos mais pobres.

Frei Matias era alguém que nos deixa recordações de doçura, sabedoria, humildade. Um homem de olhar tranquilo, sorriso alegre (por vezes um bocadinho trocista, mas sempre bondoso), inquieto e atento à Vida e a tudo o que é humano.

Conheci-o antes do 25 de abril e lembro-o sempre pronto a lutar pela Liberdade. Depois dessa data tão feliz não ficou parado e continuou a chamar a atenção para o que ainda não era perfeito e precisava de mudar para que todos pudessem ter uma vida digna e feliz.

Interventivo, sem nunca procurar protagonismo, colaborava e dinamizava grupos e publicações. Reli agora alguns números do jornal Libertar, que ele animou, e mais uma vez fiquei surpreendida pela atualidade dos temas. No pequeno livrinho Isto Tem de Mudar” colocava questões desafiadoras aos leitores obrigando-nos a ir ao fundo dos problemas e a sair das nossas ideias feitas.

Uns anos mais tarde colaborou num grupo coordenado pela Conceição Moita no trabalho entusiasmante de pensar novas maneiras para a catequese (os catecismos daí resultantes não foram adotados embora sejam utilizados por alguns catequistas).

Lembro uma vez em que andava a tentar descobrir como explicar a Eucaristia às minhas netas de o encontrar numa rua de Lisboa e de lhe perguntar como poderia fazê-lo. Ele respondeu imediatamente “fala na mesa e na partilha do pão”.

Descansa em Paz, querido Matias. Obrigada por todos os horizontes que nos ajudaste a alargar.

Embora triste por não te ver mais nesta terra que tanto amavas, alegra-me saber que entraste na Plenitude e aí encontrarás resposta a todas as interrogações e dúvidas.

Lucy Wainewright

 

Junto dos que dele precisavam

Augusto Matias

O frade dominicano Augusto Matias (à dirª, de pé), com os colegas Rui Carlos Almeida Lopes e Pedro Fernandes (em baixo), que chegaria a ser provincial da Ordem dos Pregadores em Portugal. Foto: Direitos reservados.

 

Augusto José Matias, por opção, não quis ser ordenado presbítero, mas ficar sempre como simples irmão dominicano, irmão de todos nós.

Grande activista contra a Guerra Colonial, defensor acérrimo dos direitos humanos, tinha uma sensibilidade fora de série em relação aos pobres, aos desprezados, aos marginalizados, aos doentes de HIV.

Nos últimos anos em que esteve na terra para acompanhar a Mãe, sozinha e doente, não se limitou a cuidar dela, mas também de todos aqueles que não tinham alguém que os ajudasse. E mesmo depois de a Mãe falecer regressava regularmente à terra para continuar a sua “acção social” junto dos que dele precisavam.

Julieta Mendes Dias, Religiosa do Sagrado Coração de Maria

 

Libertar o melhor de cada pessoa

Capa Libertar, Augusto Matias

Capa de um dos números do Libertar, dinamizado por frei Augusto Matias: “Fora com os estrangeiros”, diz a legenda. 

Não é fácil condensar em breves linhas o enorme contributo e o trabalho partilhado com o Frei Matias em duas das nossas Comunidades de Irmãs Adoradoras e respetivas Casas de Acolhimento, em Lisboa, entre os anos de 1998 até 2007.

Quando no verão de 1995 o Frei Matias integrou a Comissão Justiça e Paz, da CIRP, a todos enriqueceu enormemente com o seu conhecimento do terreno “pé no chão”, bem como o seu apurado sentido crítico, baseado na experiência e análise da realidade. Deste modo, deu “músculo” a esta Comissão, impelindo os seus membros a sermos mais proactivos no conhecimento e na defesa das populações mais empobrecidas.

Em 1998, tempo de festa da Expo, o Frei Matias começou a colaborar connosco no apoio às mães-adolescentes que a nossa Comunidade acolhia e cuidava. Sendo esta uma realidade social que requer extrema delicadeza no acompanhamento, o Frei Matias pôs de relevo o seu olhar arguto, adotando uma excelente e adequada forma de estar, em saber lidar com as adolescentes-mães e seus filhos. Em todo o tempo sabia acolher de coração as múltiplas problemáticas e as complexas vulnerabilidades. A sua boa disposição e o trato sereno, somado ao seu temperamento destemido e livre, levava-o a arriscar na defesa de situações violentas e violadoras, dado estar em causa a proteção da dignidade humana e o respeito pelos direitos humanos.

Sem retóricas e banalidades, o Frei Matias corajosamente pisava “terrenos minados”, em zonas urbanas periféricas, no intento de ajudar a refazer laços desfeitos, sanar relações tóxicas – abusivas e abusadas – quebrando chicotes e pintando paredes, se fosse caso disso.

Do mesmo modo que ajudava as adolescentes a prepararem-se para o batismo dos seus filhos, com igual brio carregava colchões e móveis para acomodar as casas delas na saída das nossas casas de acolhimento.

As adolescentes-mães confiavam no Frei Matias como um ‘porto seguro’ sabendo que podiam contar com ele para o que desse e viesse. Posso afirmar que deixou marcas para a vida em tantas destas miúdas-mães, como de muitas outras pessoas. O Frei Matias tinha consciência do BEM que fazia, com o seu estilo humilde e discreto, respeitoso e decidido, rebelde e descontraído, ao jeito de Jesus. Tinha todas estas ferramentas para ajudar a Libertar o melhor que cada pessoa tinha dentro de si mesma.

Não esquecemos a maravilhosa relação e trato com as crianças da Casa; elas adoravam atirar-se para o seu colo e fazer brincadeiras endiabradas com o frei quentinho, como lhe chamavam.

A disponibilidade e a sabedoria do Frei Matias, a sua reflexão filosófica perspicaz e profunda iluminou e fortaleceu enormemente a vida das nossas Comunidades durante aqueles anos. Usufruímos e disfrutamos da fraternal Mesa partilhada, demos as mãos na dura e penosa caminhada ao lado das mais machucadas na sua dignidade, fomos mútuo suporte de lutos e de lutas, na superação de fragilidades sempre com o propósito comum de “não largar a mão de ninguém”.

Ir. Mª Júlia Bacelar, Irmãs Adoradoras

 

Catarina Pazes: “Sem cuidados paliativos, não há futuro para o SNS”

Entrevista à presidente da Associação Portuguesa

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“Se não prepararmos melhor o nosso Serviço Nacional de Saúde do ponto de vista de cuidados paliativos, não há maneira de ter futuro no SNS”, pois estaremos a gastar “muitos recursos” sem “tratar bem os doentes”. Quem é o diz é Catarina Pazes, presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP) que alerta ainda para a necessidade de formação de todos os profissionais de saúde nesta área e para a importância de haver mais cuidados de saúde pediátricos.

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Bahá’ís plantam árvores em Lisboa, para que a liberdade religiosa floresça em todo o mundo

Em memória das "dez mulheres de Shiraz"

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Quem passar pela pequena zona ajardinada junto ao Centro Nacional Bahá’í, na freguesia lisboeta dos Olivais, vai encontrar dez árvores novas. São jacarandás e ciprestes, mas cada um deles tem nome de mulher e uma missão concreta: mostrar – tal como fizeram as mulheres que lhes deram nome – que a liberdade religiosa é um direito fundamental. Trata-se de uma iniciativa da Junta de Freguesia local, em parceria com a Comunidade Bahá’í, para homenagear as “dez mulheres de Shiraz”, executadas há 40 anos “por se recusarem a renunciar a uma fé que promove os princípios da igualdade de género, unidade, justiça e veracidade”.

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