Gen Verde em Évora (depois de Lisboa): A paz é uma escolha e a música pode ajudar

| 24 Mai 19

Gen Verde em espectáculo em Fátima, com os jovens que participaram na oficina de coreografia/dança. Foto © Gen Verde

 “A paz é uma escolha, temos de a construir no dia-a-dia. “E é uma escolha concreta, não apenas poética”, diz Adriana Martins, 44 anos, vinda de Porto Alegre (Brasil) e uma das cantoras do Gen Verde, banda de música internacional ligada ao movimento dos Focolares. Neste sábado, 25, o grupo dará o seu penúltimo concerto da digressão portuguesa de From Inside Outside (De dentro para fora) em Évora (Arena, 21h), antes da despedida da digressão em Faro (Teatro das Figuras, 30 de Maio).

É essa escolha que o Gen Verde faz através dos seus concertos, das suas músicas e discos. Como na canção Terra de Paz/A Nossa Terra Comum, que foi composta pela norte-americana Nancy Uelmen e a mexicana Jamaica C. Lyra. No concerto de sexta-feira, 17, no pavilhão da escola salesiana de Manique (Estoril), essa foi a música que, ao fim de pouco mais de meia hora, captou o entusiasmo do público. A peça fala das paisagens idênticas que se vêem de ambos os lados da fronteira, de ser possível “sonhar um tempo e um lugar onde as pessoas se possam compreender umas às outras” e dos muros que se dispensam.

Mas há outras que dizem que o amor é o mais forte, que a esperança e o sonho comandam a vida, que o coração não tem fronteiras ou que simplesmente pedem “que todos sejam um”. E, como em Not in my name (“Não no meu nome”), em que um amigo argelino das Gen Verde toca violão, numa peça de recusa do terrorismo em nome da religião. E cantam ainda o Uirapuru, título de música e nome de ave da Amazónia, contra a desflorestação e “porque a Amazónia não pode esperar”.  

 

Processo criativo “misterioso e íntimo”

Os espectáculos do Gen Verde querem, sobretudo, passar essas ideias e mensagens. Recorrendo a expressões musicais diversas: hip hop, k-pop, música ligeira, ritmos de dança ou mais meditativos… As peças, os sons, os textos e as influências têm a ver com as culturas que estão representadas na banda: várias latino-americanas e sul-coreanas, algumas europeias, uma norte-americana. “São as raízes das nossas culturas”, diz Raiveth Banfield, 43 anos, vinda do Panamá. “Faltam-nos ritmos africanos, que eu não posso imitar, mas devo ser autêntica e fazer aquilo que transporto da minha cultura.”

Raiveth Banfield, do Panamá: “Faltam-nos ritmos africanos, que eu não posso imitar, mas devo ser autêntica e fazer aquilo que transporto da minha cultura.” Foto © Gen Verde

 

Num encontro, sábado dia 18, em Lisboa, promovido pela Associação FaceSagrado e pelos Focolares, as músicas do grupo explicaram a espiritualidade que está por detrás das suas propostas: “Na base está o carisma de unidade do movimento dos Focolares”, diz Nancy Uelmen, uma das que compõe as músicas. O processo criativo é “misterioso e íntimo” e traduz-se em assumir a dimensão mística de cada uma na sua vida, desenvolver uma cultura do encontro mesmo a partir de diferentes géneros musicais, e em construir comunidade, com o sentido da unidade em primeiro lugar.

Adriana Martins acrescenta que, no actual momento da história da humanidade, a música permite ligar pessoas e culturas diferentes. “Vemos a nossa gente que morre” por querer fugir às guerras ou à pobreza. “Onde pode estar, nessa situação, o terreno comum para nos encontrarmos? Se eu fizer minhas as lágrimas de sofrimento de outros, talvez se possa conseguir alguma coisa…”

Adriana Martins, do Brasil: “Se eu fizer minhas as lágrimas de sofrimento de outros, talvez se possa conseguir alguma coisa…” Foto © Gen Verde

 
“Facilitar o caminho, criar uma atmosfera”

A mensagem do Gen Verde e este processo criativo de que falam as suas artistas passa de uma outra forma: durante três dias, antes de quase todos os espectáculos (na digressão portuguesa, só Faro é excepção), as músicas orientem várias oficinas de criação com jovens das escolas da zona onde se realiza o concerto.

Foi assim também em Manique, com cerca de 60 crianças e jovens de vários meios sociais, que participaram em oficinas de teatro, percussão, dança e canto – e que, depois, entraram também em vários momentos do concerto. Mariana, 16 anos, aluna na escola salesiana, fez a oficina de teatro e destaca o sentido de grupo que se estabeleceu. “O espírito de entreajuda foi mágico” e facilitou mesmo a integração de alguns jovens que estavam menos à vontade no início. Mariana, que já sonha com a possibilidade de um dia integrar o Gen Verde ou de vir a entrar na política “para poder fazer alguma coisa pelo mundo”, viu-se a trabalhar a arte como “uma forma de unir”, mesmo sem palavras.

Guilherme, 17 anos, tinha visto as Gen Verde em Braga, onde também participou na oficina de percussão. Em Manique, repetiu a dose, mas desta vez no teatro. “Implorei, pedi aos meus pais para vir… Foi uma forma de renovar a fé para amar e crescer neste sentido da unidade.” E, além de confessar que foi mais fácil em Braga – na encenação que acompanhou uma das músicas tinha um papel mais individual –, destaca a música Terra de Paz. “Tem uma batida muito boa e transmite a ideia da paz no mundo. Quando ouço música, também presto atenção à letra e às vezes até me arrepia.”

Oficinas de percussão, antes do primeiro concerto, em Braga. Foto © Gen Verde

 As oficinas, explica a brasileira Adriana, uma das vocalistas da banda, tem um itinerário: as coreografias estão alinhavadas, mas depois os jovens dão ideias, ajudam a compor. “O nosso papel é facilitar o caminho, criar uma atmosfera. Temos uma base, mas depende do grupo e da criatividade deles a forma como o trabalho evolui.”

A panamiana Raiveth Banfield, há 17 anos na banda, acrescenta que, depois do concerto, os jovens fazem um balanço da experiência. Falam dos medos que tinham, do que deram ao grupo e ao espectáculo, da forma como se sentiram a evoluir. “A idade não é um problema e também ajuda a romper barreiras de gerações. E, no final, é muito bonito ver como são capazes de entrar em si mesmos e, a partir disso, descobrir as diferenças e as complementaridades e as suas competências dentro do grupo.”

Ou seja, from inside outside.

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