
Roberto Vannacci, 2013. Comando “Col Moschin”
Um deputado no Parlamento Europeu da extrema-direita italiana criticou o Papa Francisco, no intenso debate que percorre a Europa, e neste caso a Itália (e em Portugal). E lá como cá, as mentiras são a arma de arremesso dessa extrema-direita contra o Papa.
Segundo a edição online do jornal Crux, que recupera a polémica este sábado, no meio de um debate italiano em espiral sobre a imigração, há duas personalidades que simbolizam cada vez mais as posições opostas. De um lado, está o Papa Francisco, enquanto no outro está o ex-general Roberto Vannacci, talvez a figura política mais polarizadora do país, como é descrito.
Atualmente membro do Parlamento Europeu pelo partido italiano anti-imigração Liga, Vannacci usou a sua conta no Facebook, na quinta-feira, para responder ao Papa Francisco, que tinha descrito, na sua audiência geral no dia anterior, a rejeição dos imigrantes como um “pecado grave”.
Para o editorialista do Crux John L. Allen Jr., a resposta de Vannacci não misturou palavras. “Com todo o respeito, o Vaticano sempre defendeu muito bem as suas fronteiras”, escreveu Vannacci, omitindo que hoje em dia a Cidade do Vaticano não tem quaisquer fronteiras. “Porque é que a Itália não pode fazer o mesmo?” “A única maneira de reduzir as mortes de migrantes [no mar Mediterrâneo] é impedi-los de sair [dos seus países], reforçando o conceito de que o direito de permanecer no próprio país prevalece sobre tudo”, insistiu o político extremista.
A comunicação social italiana reagiu com estrondo, nota o Crux. “A polémica entre o general e o Papa” era um dos títulos mais comuns — e apelativos. Apesar de não se tratar do primeiro político italiano a opor-se a membros da Igreja, como bispos e também o Papa, em matérias de migração, Vannacci tem um maior alcance mediático. O antigo pára-quedista de 55 anos e veterano de operações no Afeganistão e no Iraque, relata o Crux, explodiu no palco italiano em 2023, quando publicou o seu controverso livro Il Mondo al Contrario, que se pode traduzir como “O Mundo de pernas para o ar”.
No livro coleciona tiradas racistas e homofóbicas: Vannacci referiu-se à homossexualidade como “não normal” e disse sem rodeios aos gays para “ultrapassarem isso”; sobre Paola Egonu, uma estrela do voleibol de ascendência nigeriana que recentemente conduziu a Itália à medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Paris, disse que, embora ela possa ter cidadania italiana, as suas “características somáticas (…) não representam a italianidade”. Para completar o cardápio, Vannacci também é um cético das alterações climáticas, rejeita o aborto, e opõe-se à ocupação de estruturas não utilizadas ou degradadas por pessoas sem-abrigo, uma prática comum em algumas cidades italianas e que tem sido defendida pelo braço direito do Papa Francisco em questões de caridade, o cardeal polaco Konrad Krajewski.
Agora é a vez da migração, pedra de toque da extrema-direita europeia, que ignora princípios evangélicos e humanistas no seu discurso e política.
Também em abril, Vannacci tinha criticado o ensino público em Itália por alegadamente ter um fetiche pela igualdade, quando, na verdade, argumentou, os alunos com capacidades diferentes deviam ser tratados de forma diferente, propondo que os alunos com deficiência deveriam ter aulas separadas, o que lhe valeu reparos violentos de bispos.
É neste quadro — que o Crux detalha com mais pormenores — que se deve ler a primeira crítica pública de Vannacci ao Papa, na passada quinta-feira, “sugerindo, talvez, que o general sente que fazê-lo não é necessariamente má política para a direita italiana”, como aponta o editorialista.










