
“A participação conjunta de um ucraniano e um russo [na via-sacra do Coliseu] distorce a realidade em que a Rússia mergulhou os ucranianos”, afirma o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros ucraniano. Foto © Vatican Media.
Se por um lado o governo ucraniano manifesta “profunda gratidão” ao Papa Francisco “pela sua preocupação com a Ucrânia e os ucranianos”, por outro afirma-se “desiludido” pelo facto de a Santa Sé ter juntado um jovem ucraniano e outro russo para fazerem as meditações da 10ª estação da via-sacra que decorreu na passada sexta-feira, 7, no Coliseu de Roma. Para Oleg Nikolenko, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros ucraniano, tratou-se de uma “tentativa de equiparar a vítima e o agressor”, que não contribui para a paz.
“As tentativas de marcar a igualdade entre o sofrimento da Ucrânia e o sofrimento da Rússia não são propícias à reconciliação. A reconciliação só pode vir depois da vitória ucraniana, a punição de todos os criminosos russos, o arrependimento pelo sofrimento causado e pedindo perdão aos ucranianos”, defendeu Nikolenko num comunicado publicado nas suas redes sociais.
Para o porta-vos ministerial ucraniano, “a participação conjunta de um ucraniano e um russo distorce a realidade em que a Rússia mergulhou os ucranianos, encarnando o genocídio contra eles. Mais ainda, tal passo mina os princípios da justiça e da moralidade humana comum, e desacredita o conceito de paz e fraternidade”.
A dor de ambos os lados
A 10.ª estação da via-sacra, que assinala o momento em que Jesus é despojado das suas vestes, teve este ano associada uma meditação intitulada “vozes de paz de jovens da Ucrânia e da Rússia”.
Na primeira parte da meditação, um jovem ucraniano contou que, durante a guerra na Ucrânia, o seu pai ficou retido para combater e que se sentiu “triste” por abandonar o país. Regressado à Ucrânia, a situação permanece difícil: “Há guerra por todo o lado, a cidade está destruída. Mas, no coração, ficou-me aquela certeza de que falava a minha avó quando eu chorava: ‘Verás que tudo passa. E, com a ajuda do bom Deus, voltará a paz’.
Já o jovem russo partilhou, em seguida, um “sentimento de culpa” pela guerra. “Ao mesmo tempo não compreendo porquê e sinto-me mal duas vezes. Despojado da felicidade e de sonhos para o futuro. Há dois anos vejo chorar a avó e a mãe. Uma carta informou-nos que o meu irmão mais velho morreu”, descreveu.
O jovem russo disse ainda que viu o pai e o avô partirem e que vive a guerra “com muito medo”. “Regressado a casa escrevi uma oração: Jesus, por favor, faz com que haja paz no mundo inteiro e que todos possamos ser irmãos.”
“Infelizmente, – conclui Oleg Nikolenko – somos forçados a afirmar que a procissão deste ano foi mais uma vez ofuscada por uma tentativa de equiparar a vítima e o agressor… Lamentamos que a Santa Sé não tenha levado em consideração os argumentos do lado ucraniano sobre o caráter ofensivo de tal gesto.”
Via-sacra de 2022 também havia gerado polémica

Sviatoslav Shevchuk, chefe da Igreja Greco-Católica Ucraniana, criticou duramente o texto da meditação que estava prevista para a via-sacra de 2022, relativa ao conflito na Ucrânia. Foto: Direitos reservados.
Esta não é a primeira vez que os líderes ucranianos questionam as palavras do Vaticano relativamente à guerra na Ucrânia. Também a via-sacra do ano passado gerou polémica logo após ter sido anunciado que famílias ucranianas e russas iriam levar juntas a cruz.
Estava previsto que o texto da meditação que mencionaria o conflito, na altura o da 13ª estação, refletisse sobre o horror da guerra, sem mencionar nominalmente a Ucrânia, mas este foi duramente criticado pelo arcebispo Sviatoslav Shevchuk, chefe da Igreja Greco-Católica Ucraniana, que o descreveu como “extemporâneo”. Acabaria por não ser lida nenhuma meditação e, em vez disso, foi feito um minuto de silêncio enquanto a cruz era segurada por duas amigas, Irina, da Ucrânia, e Albina, da Rússia.
Mais tarde, em agosto de 2022, o embaixador da Ucrânia na Santa Sé criticou o Papa Francisco por este ter lamentado a explosão de um carro-bomba que matou a filha de um aliado do presidente russo, Vladimir Putin. O embaixador, Andrii Yurash, discordou da referência do Papa à mulher morta como uma “vítima inocente”.










