O evangelho de João diz-nos o seguinte:
¹⁴ E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. ¹⁵ João testificou dele, e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. ¹⁶ E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça. ¹⁷ Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. ¹⁸ Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.” (1:14-18)
Jesus foi cheio de “graça e de verdade”: a graça sempre foi mais importante do que a mera defesa da verdade. “Quando a defesa da verdade gera pessoas inclementes, ela é essencialmente má” (R. Gondim).
O que é a Graça (charis)? É o favor de Deus, favor imerecido, mas é sobretudo a essência de um Deus amoroso que se move em nosso favor, com “entranhas de misericórdia”. Graça é a própria natureza divina.
O que é a Verdade (fidedignidade, confiabilidade, justiça)? Jesus trouxe a verdade de Deus, a revelação do Pai, ele é “o resplendor da sua glória e a expressa imagem da sua pessoa” (Hebreus 1:10). A Verdade é a simplicidade de quem Deus é, em oposição à complexidade do entendimento do homem; é o absoluto divino em oposição ao relativo humano.
O Verbo é cheio de Graça e Verdade de Deus, e essa é a sua glória (14): “vimos a sua glória”. Por isso Jesus surpreendia tanto as pessoas.
O Verbo (isto é, a Graça e a Verdade de Deus) é o cumprimento da profecia (15): “João testificou dele, e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu.” A revelação de Deus é progressiva. A religião é estática e apenas muda raramente e forma lenta; mas a fé é dinâmica e muda todos os dias.

São João em Patmos, Mestre da Lourinhã, Col. Edifício e Igreja da Santa Casa da Misericórdia da Lourinhã. Foto © Museu da Santa Casa da Misericórdia.
O Verbo contém em si a plenitude de Deus, uma plenitude partilhada (16): “E todos nós recebemos também da sua plenitude”. Deus faz-nos comparticipantes com Cristo (Hebreus 3:14): “Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim.”
A lei de Moisés, afinal, não era a verdade profunda de Deus (17): “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.” A lei mosaica era apenas uma sombra, uma nuvem; segundo o apóstolo Paulo era o “aio” que conduziria os judeus a Cristo.
A única forma de ver Deus é através da revelação que Jesus nos trouxe (18): “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.” Cristo interpretou (“exegeomai”, revelou) o Pai.
Verdade sem Graça é apenas religiosidade estéril. Cria fariseus, religiosos frios, fanáticos, santarrões, pessoas sem misericórdia nem compaixão, hipócritas religiosos. Não há Verdade fora de Jesus Cristo, mas também não há um Jesus Cristo sem Graça (“cheio de graça e de verdade”).
Graça sem Verdade gera uma espiritualidade ilusória e doentia. Uma espiritualidade balofa, sem identidade nem autenticidade, sem santificação. Não há Graça fora de Jesus Cristo, mas também não há um Jesus Cristo sem Verdade (“eu sou o caminho, a verdade e a vida”).
Graça e Verdade são os dois pilares do Evangelho de Cristo. Se Cristo se fez o “cordeiro de Deus” devido à Verdade (personificada na Lei), isto é, devido à Justiça de Deus que importava satisfazer plenamente (“sem derramamento de sangue não há remissão de pecados”), por outro lado, Cristo ressuscitou devido à Graça divina, pois a Verdade, só por si, não gera vida eterna, se não for acompanhada da Graça.
Não estamos mais debaixo da Lei mas da Graça, por isso entreguemo-nos nos braços do Deus de Graça a fim de usufruirmos, gozarmos, apreciarmos, recebermos, vivermos!
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.










