
“O dever de a proteger e garantir a continuidade da sua (Terra) fertilidade para as gerações futuras”. (Foto © Greve Climática Estudantil, novembro 2019)
Nestes tempos em que o início da Quaresma coincide com um estranho confinamento, explicado por uma pandemia que há um ano nos atinge e que vai afetar pelo segundo ano consecutivo a nossa Páscoa, importa recordar mais uma vez o que o Papa Francisco nos afirmou na encíclica Laudato Si’. Esta pandemia será ultrapassada, com mais ou menos esforço, mesmo que tenhamos de continuar a lidar com o vírus. No entanto, temos de tomar consciência de que este é apenas um sinal que nos obriga a prevenir-nos relativamente aos riscos inerentes à destruição do meio ambiente, de que o aquecimento global é sintoma.
Diz o Papa: “A terra existe antes de nós e foi-nos dada. (…) Se é verdade que nós, cristãos, algumas vezes interpretámos de forma incorreta as Escrituras, hoje devemos decididamente rejeitar que, do facto de ser criados à imagem de Deus e do mandato de dominar a terra, se deduza um domínio absoluto sobre as outras criaturas. É importante ler os textos bíblicos no seu contexto, com uma justa hermenêutica, e lembrar que nos convidam a ‘cultivar e guardar’ o jardim do mundo (cf. Gn 2, 15). Enquanto ‘cultivar’ quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, ‘guardar’ significa proteger, cuidar, preservar, velar. Isto implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza. Cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobrevivência, mas tem também o dever de a proteger e garantir a continuidade da sua fertilidade para as gerações futuras. Em última análise, ‘ao Senhor pertence a terra’ (Sl 24/23, 1), a Ele pertence ‘a terra e tudo o que nela existe’ (Dt 10, 14).” Esta reflexão remete-nos para a ameaça pandémica, à qual teremos de responder ligando o tema do desenvolvimento humano sustentável às ameaças globais no campo da saúde.
Assim, relativamente à doença, na mensagem para o Dia Mundial do Doente deste ano, o Papa lembra-nos: “A atual pandemia colocou em evidência tantas insuficiências dos sistemas sanitários e carências na assistência às pessoas doentes. Viu-se que, aos idosos, aos mais frágeis e vulneráveis, nem sempre é garantido o acesso aos cuidados médicos, ou não o é sempre de forma equitativa. (…) O investimento de recursos nos cuidados e assistência das pessoas doentes é uma prioridade ditada pelo princípio de que a saúde é um bem comum primário. Ao mesmo tempo, a pandemia destacou também a dedicação e generosidade de profissionais de saúde, voluntários, trabalhadores e trabalhadoras, sacerdotes, religiosos e religiosas: com profissionalismo, abnegação, sentido de responsabilidade e amor ao próximo, ajudaram, trataram, confortaram e serviram tantos doentes e os seus familiares.”
No entanto, ouvem-se vozes a colocar em primeiro lugar a autonomia individual relativamente à responsabilidade para com os outros. Devemos, porém, lembrar que a atenção e o cuidado inerentes à prevenção relativamente aos outros é um dever ético, com expressão jurídica. Estamos perante um estado de necessidade que deve ser considerado. O egoísmo mata. Não devemos esquecer que é a pressão sobre os hospitais que está em causa e que devemos aliviar em nome do direito à vida. Questão diferente é do necessário equilíbrio que impeça os abusos de poder de quem ilegitimamente se queira aproveitar da situação. Nos pratos da balança temos, de um lado, a defesa da vida dos que se encontram ameaçados, e de outro, a salvaguarda da qualidade para a existência de cada um de nós. E a relação é inseparável.
Daí a importância da proximidade como regulador da dignidade e da justiça. “Com efeito, a proximidade é um bálsamo precioso, que dá apoio e consolação a quem sofre na doença. Enquanto cristãos, (insiste a mensagem) vivemos uma tal proximidade como expressão do amor de Jesus Cristo, o bom Samaritano, que, compadecido, se fez próximo de todo o ser humano, ferido pelo pecado. Unidos a Ele pela ação do Espírito Santo, somos chamados a ser misericordiosos como o Pai e a amar, de modo especial, os irmãos doentes, frágeis e atribulados (cf. Jo 13, 34-35).”
A distância preventiva não deve, assim, pôr em causa a necessária relação pessoal com o irmão e o próximo – já que o outro é a outra metade de nós mesmos. Trata-se, pois, de estabelecer um pacto entre as pessoas carecidas de cuidados e aqueles que as tratam. São a confiança e o respeito mútuos que estão em causa como formas de “superar toda e qualquer barreira defensiva, colocar no centro a dignidade da pessoa doente, tutelar o profissionalismo dos agentes de saúde e manter um bom relacionamento com as famílias…”

“A distância preventiva não deve, assim, pôr em causa a necessária relação pessoal com o irmão e o próximo”. (Gravura: Átrio dos Gentios 2020, Brasil, Ilustração O Bom Samaritano, de Caio Beltrão)
Guilherme d’Oliveira Martins é Administrador Executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.










