Guerra no Iémen: pior é difícil

Mapa do Iémen. Fonte: Al Araby.
Vale a pena relembrar o Iémen. Vale a pena ler e perceber o que ali se passa que, para além de estar esquecido por muitos, continua a ser palco da pior crise humanitária do Mundo. E se o mundo parou devido à pandemia de covid-19 e se na Europa a economia sofreu um abalo forte, imaginemos o que está a passar-se naquele que ocupa a primeira posição de Estados falhados no mundo. E juntemos a isso o facto de o novo coronavírus não ser o único surto a atacar o país: nos últimos anos, a cólera, para além da malária, atingiu 1,2 milhões de pessoas. Vale mesmo a pena relembrar o Iémen: desde um anterior artigo no 7MARGENS, tiveram lugar alguns acontecimentos relevantes.
O país continua tremendamente dividido. São muitos os grupos e organizações com objetivos contraditórios e isso é visível no mapa que anexamos. O conflito que, entre outros problemas, envolve essencialmente a coligação internacional e os houthis, tem sido marcado recentemente por dois outros atores que aqui vamos examinar: os Emirados Árabes Unidos (EAU) e o Southern Transitional Council (STC, Conselho de Transição do Sul). Se o primeiro dispensa apresentações, o segundo é um movimento que pretende declarar a independência do sul do Iémen, voltando a dividir o país de acordo com as fronteiras pré-1990, entre a República Democrática Popular do Iémen, a sul, e a República Árabe do Iémen, a norte. Apesar de não ser a única organização que pretende a secessão do sul – o Al Hirak é o principal grupo a defendê-lo –, depois de fundado em 2017 ganhou muita proeminência e destaque graças ao apoio diplomático e financeiro – para além do recrutamento e treino de tropas – dos Emirados Árabes Unidos.
Desde há meses, os acontecimentos têm vindo a estar enquadrados num novo pacto: o acordo de Riade, assinado a 5 de novembro de 2019, que propunha a partilha de poder entre o Governo internacionalmente reconhecido do Presidente Abd Masour Hadi, e o STC. O acordo começou a ser negociado pelos sauditas em agosto de 2019, quando o STC ameaçou expulsar de Aden – a capital temporária do país depois dos houthis terem capturado Sanaa em 2014 – forças leais ao Presidente Hadi.

Iémen: Quem controla o quê? A situação em outubro de 2019; legenda, de cima para baixo: Coligação Pró-Presidente Hadi a aliados; Conselho de Transição do Sul; Houthis e aliados; Al AQaeda da pensínsula Arábica e aliados; controlo partilhado ou indefinido. Fonte: Political Geography Now
Sauditas isolados
Este ponto é essencial para perceber a complexidade do conflito. Os EAU foram, durante cinco anos, os principais aliados da Arábia Saudita no apoio ao governo internacionalmente reconhecido e, ao mesmo tempo, controlavam o STC que, no Sul, combatia as forças do Governo. Tudo se complicou para os sauditas e para Hadi quando, em julho de 2019, os EAU anunciaram que iam começar a retirar-se do Iémen, o que se oficializou a 9 de fevereiro de 2020.
Esse importante aliado, que apoiava e, desde 2017, controlava o STC deixou, por isso, os sauditas totalmente isolados na liderança da coligação, perdendo estes um aliado enquanto combatiam os houthis a norte e o STC a sul. Este foi um revés enorme para a Arábia Saudita, acentuado pelo facto de os EAU continuarem a exercer influência no país através do controlo de vários grupos armados que perfazem um total de 90.000 combatentes. Os EAU foram essenciais para conter a expansão dos houthis para sul – o que reforçaria a sua presença no Mar Vermelho – e foram fulcrais para que, no sul, a AQAP (Al-Qaeda da Península Arábica) perdesse território, tendo sido responsáveis pelo seu abandono do importante porto de Mukalla.
Por tudo isto, era essencial que os sauditas contivessem os movimentos a sul e foi por isso que nasceu o acordo de Riade negociado durante três meses e que prevê várias clásulas. Entre elas, a reorganização das forças militares e de segurança, o combate a grupos terroristas, a garantia de direitos individuais e a criação de um governo de unidade que inclua membros do STC.
O acordo tinha inscritas duas particularidades interessantes: não previa que o Presidente Hadi voltasse a Aden, levantando dúvidas sobre que tipo de governo de unidade existiria e confirmava que o STC era um parceiro do governo, que era reconhecido como o grupo mais forte no sul e que continuava a controlar a capital temporária, Aden. No entanto, rapidamente o pacto foi infringido quando as forças do STC entraram em conflito com as forças governamentais, nas províncias de Abyan e Shabwa (ver mapa) com o objetivo de controlar estas regiões.
A necessidade de controlar essas províncias justifica-se pela importância geopolítica e estratégica que o Iémen assume na região. Conseguir o controlo das províncias a sul significa controlar a costa do Iémen e as rotas marítimas na Península Arábica. Apesar das boas intenções, o acordo não foi até agora concretizado e os sauditas passaram a ter duas frentes de batalha muito complexas – houthis a norte e STC a sul – numa altura em que estão mais fragilizados militarmente, com muito menos recursos e mais expostos à pressão internacional.
Geopolítica vale mais que vidas e direitos
A situação agravou-se para a Arábia Saudita e para o governo quando, a 25 de abril, o STC declarou a “administração autónoma” sobre o antigo território da República Democrática Popular do Iémen (sul do país). O objetivo foi claro: demonstrar que é o STC e não o Governo internacionalmente reconhecido que domina o sul. A situação ganha contornos mais perigosos se lembrarmos que o STC controla a capital temporária, Aden e que o Presidente Hadi não tem acesso à mesma e porque o STC anunciou que as províncias de Marib, Al Mahra, Shabwa e Soqotra (uma ilha a sul do Iémen) estão já a ser “autonomamente controladas” e que pretendem que outras sigam o mesmo modelo.
A Arábia Saudita está muito isolada na defesa do governo iemenita e parece dar sinais de querer vir a abandonar o Iémen. O próprio Governo, depois de perder a capital, Sanaa, para os houthis, também já perdeu o controlo da capital temporária Aden para o STC e a saúde de Hadi está mais débil, depois de um ataque cardíaco que sofreu recentemente. O país também está a ser atacado pela pandemia da covid-19, mas a essa juntam-se a malária e a cólera. Esta era a altura – porque vigora um cessar-fogo, apesar de ineficaz – para sauditas e a ONU negociarem um acordo de paz com os houthis. No entanto, os primeiros vêem-se obrigados a negociar e combater o STC. Para além disto, não é seguro que a AQAP continue “adormecida” principalmente sem os EAU para a combater. O país está completamente fragmentado e mesmo a perspetiva dum prolongar do recente cessar-fogo, apesar de parecer possível, não é uma certeza.
Por tudo isto vale a pena relembrar o Iémen. Haverá poucos sítios no mundo a passar por situação igual, sendo que pior é difícil. O Iémen continua a mostrar que, na geopolítica, a geografia e o controlo de zonas estratégicas continua a superiorizar-se às vidas humanas e aos direitos individuais. É preciso parar o conflito o mais depressa possível, elaborar uma nova Constituição e reconstruir o país. O problema é que, neste momento, nem sequer se sabe se o Iémen continuará um só país ou se voltará às fronteiras anteriores a 1990.
José Monteiro Limão é jurista, a concluir o mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais na UCP-IEP, tendo escrito a sua dissertação sobre o significado do Iémen no Grande Médio Oriente; é vogal da Comissão Política Nacional da Juventude Popular, com o pelouro das Relações Internacionais; zelimao15@hotmail.com
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