AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Georges Rouault, Ecce Homo, 1952, Città del Vaticano, Musei Vaticani.
Georges Rouault, Ecce Homo (pormenor), 1952, Città del Vaticano, Musei Vaticani.

[Dicionário particular III]

‘h’ de herói – Ecce Homo

| 08/04/2026

Os heróis, hoje em dia, aparecem em discursos inflamados, em fotografias de guerra, algumas delas cuidadosamente encenadas. Também surgem em campanhas políticas, prometem salvar o mundo enquanto o empurram para um abismo. Vivemos rodeados de heróis de plástico e, por isso, a palavra “herói” tornou‑se tão leve que parece flutuar. No entanto, e apesar da superficialidade, ser herói continua a pesar sobre nós quase como uma obrigação: sê forte, sê invencível, sê imbatível!

Há expressões que atravessam os séculos como se carregassem um segredo e esta é uma delas: Ecce Homo – Eis o Homem. Sempre que a oiço, sinto que alguém me está a pedir para olhar com maior atenção para este homem que o mundo expõe e celebra.

O primeiro Ecce Homo é o de Jesus, quando é apresentado ao povo por Pilatos. Um corpo ferido, coroado de espinhos, vulnerável, no limite. Não há triunfo, não há glória, não há narrativa de vitória, há apenas um homem que resiste sem devolver violência, mantendo a dignidade, quando tudo à volta tenta arrancá‑la. É desconfortável. Mostra‑nos a nossa própria crueldade, a facilidade com que condenamos o inocente e a rapidez com que escolhemos o mais forte e não o mais justo.

Séculos depois, Nietzsche escreveu o seu Ecce Homo. Não é um governador a apresentá‑lo ao povo, é ele que se apresenta a si mesmo. Num gesto teatral, mas profundamente honesto: “Eis o que sou.” Um homem frágil, doente, exausto, mas lúcido. Exposto ao julgamento intelectual, desafia o seu tempo e desmonta as certezas, recusando o conforto das respostas fáceis.

Georges Rouault, Ecce Homo, 1952, Città del Vaticano, Musei Vaticani.

Georges Rouault, Ecce Homo, 1952, Città del Vaticano, Musei Vaticani.

Se Jesus mostra o que fazemos aos outros, Nietzsche mostra o que fazemos a nós próprios quando fugimos da verdade. E é aqui que as semelhanças se tornam inesperadas: ambos são apresentados ao mundo num momento de vulnerabilidade extrema, revelando a condição humana sem filtros ou maquilhagem; ambos enfrentam a violência, Jesus a violência física, Nietzsche a violência das ideias; ambos obrigam a olhar para o que preferimos ignorar: a fragilidade que carregamos, a verdade que evitamos e a responsabilidade que tentamos delegar.

Neste sentido, ficam as perguntas: que heróis estamos nós, hoje, a oferecer aos mais novos? Os que gritam mais alto? Os que exibem força? Os que confundem liderança com arrogância? Ou os que, como estes dois homens tão diferentes, mostram que o heroísmo pode ser vulnerável, crítico, silencioso, teimosamente humano?

No fim, talvez o verdadeiro herói seja aquele que, diante do espelho, não precisa de disfarces para se reconhecer. E talvez a pergunta que realmente importa seja esta: quando chegar a minha vez de ser apresentado ao mundo, que espécie de herói quero ser?

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

São João da Cruz: poesia e mística

Ano Jubilar de São João da Cruz (9)

São João da Cruz: poesia e mística novidade

Até Dezembro decorre o ano jubilar de São João da Cruz, celebrando o terceiro centenário da canonização e os 100 anos da sua proclamação como Doutor da Igreja Católica. O jubileu tem como lema “A esperança alcança tanto quanto espera” e propõe itinerários de renovação espiritual e mística. A propósito do ano jubilar, o 7MARGENS propõe mensalmente, aos dias 13/14 (assinalando o dia da sua morte, a 14 de Dezembro de 1591), um conjunto de textos do padre carmelita e teólogo Armindo Vaz. 

Padre Telmo Ferraz

[Entre Margens]

Padre Telmo Ferraz novidade

Resumidamente, o Padre Telmo Ferraz nasceu na aldeia de Bruçó, Mogadouro, na região de Trás-os-Montes. Pertencia à Diocese de Bragança e Miranda. Ordenou-se em 1951. Foi Pároco em algumas Paróquias da Diocese, trabalhando muito afincadamente na Barragem do Picote, onde desenvolveu uma pastoral muito humanitária junto dos operários. [Texto de Serafim Falcão].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.