
“Deste sínodo gosto de reter a metodologia dos trabalhos, enquanto exercício supremo de atenção e escuta, predisposição e disponibilidade para acolher o contributo do outro, em liberdade e respeito pelo reconhecimento daquilo que ele é.” Foto: Lançamento do Caminho Sinodal no IUJP com o padre João Alves, da Diocese de Aveiro. Direitos reservados.
Pede-nos o Papa que rezemos com ele e com a Igreja, durante os trabalhos do sínodo, que terminam no próximo dia 27. A oração, como bem sabe quem a ela recorre, é intimidade de Deus, onde tudo e todos têm lugar, refúgio e fortaleza, tempo dissipador de trevas, ocaso de sombras, mar de luz a entrar.
Deste sínodo gosto de reter a metodologia dos trabalhos, enquanto exercício supremo de atenção e escuta, predisposição e disponibilidade para acolher o contributo do outro, em liberdade e respeito pelo reconhecimento daquilo que ele é.
Para quem cresceu a conjugar o método ver, julgar e agir, tropeçar neste desafio do sínodo, como é o convite para escutar, só pode deixar-se levar em entusiasmo e envolvimento por esse tempo novo que, devagar, devagarinho, parece estar a entrar na vida da Igreja Católica.
E que tempo novo é esse?
É um tempo que vai muito para além do ver, julgar e agir porque em lugar do “eu” de outrora, surge agora, pela predisposição da escuta, a possibilidade de libertação desse “eu” de poeiras instaladas, e de o colocar perante a experiência do “outro”. Frente a frente, sem reservas nem preconceitos, em novo modo de agir.
E, aqui está, a meu ver, a grande revolução deste sínodo.
Dir-se-ia, assim se espera, que a Igreja Católica (leia-se estrutura hierárquica), para exercer o magistério, se mostre disponível a abandonar a posição majestática de séculos e dar-se à franqueza de privilegiar a escuta.
Retenha-se, pois, a metodologia.
O exercício de escuta do outro, a capacidade de verbalizar e aceitar o que se ouviu, de espírito aberto, quer se concorde ou discorde.
Interromper a escuta, dar lugar à oração, pedindo e agradecendo a graça de escutar.
Voltar à escuta, recolher e anotar pontos de concordância.
Retomar a oração.
Recuperar a escuta, anotar pontos de desacordo.
Regressar à oração…
Escutar e tomar nota de campos de pensamento e ação onde é possível continuar a caminhar na mesma direção, com igual capacidade de deixar, para outras ocasiões, pontos onde ainda não foi possível ultrapassar dissonâncias.
Tudo isto torna o ambiente do sínodo verdadeiro incentivo para a Igreja Católica refletir sobre a missão e responsabilidade que tem no aprofundamento de temas colocados pela história da humanidade, aprender com eles, ter a ousadia de deixar-se caminhar em diversos planos.
Já sobre o enunciado da agenda de trabalhos deste sínodo, não alimento ilusões nem grandes expetativas quanto às suas conclusões. Enfim, não diria como Lampedusa, tudo deve mudar para que tudo fique como está, mas, na prática, algo parecido.
Vejamos. Este sínodo oferece-se à Igreja como processo para se elencarem temas que mais preocupam a humanidade: uns, serão talvez mais consensuais, como sejam os da guerra e paz, emergência climática, economia e emprego, justiça social, pobreza, fome, tolerância zero contra abusos sexuais; outros, continuam a comportar dificuldades de entendimento comum, designadamente, o das mulheres, a quem é reconhecido grande e insubstituível missão a desempenhar na Igreja mas fora do presbitério, o ensino nos seminários, a ordenação de homens casados, a moral sexual, enquadramento de católicos LGBTQ, o das famílias reconstituídas que podem contar com as comunidades e por elas serem acolhidas, mas impedidas de participar plenamente na eucaristia, enfim, o clericalismo, e o lugar e participação de leigos em diferentes serviços. Registem-se, ainda, sinodalidade e ministério dos bispos, desvendem-se múltiplas encruzilhadas de poder e, por esses caminhos, aí se encontrarão inúmeros escolhos.
Culturas diferentes de geografias diversas têm entendimentos díspares sobre problemas iguais para umas, diferentes para outras, decorrentes, aliás, de quadros sociológicos e antropológicos próprios. A Europa não é igual à América, nem à Africa ou à Ásia, muito menos à Oceânia ou à Antártida. Os continentes são distintos, periferias e centro estão a mudar. Daí considerar que apenas por ingenuidade se consentiria a possibilidade de se esperarem conclusões deste sínodo, capazes de levarem a pequenas ou grandes modificações no modo de ser e fazer Igreja.
O que somos hoje é expressão do caminhar de dois milénios!
O Papa Francisco, com o dom e graça do seu pontificado, revelou o rosto de uma Igreja em saída, deseja que ela seja lugar para “todos, todos, todos”, recuperou fundamentos essenciais do Concílio Vaticano II que foram ignorados e adormecidos nas últimas décadas, e muitos ainda teimam continuar a manter no esquecimento.

“Quanto a futuras assembleias sinodais, porventura, haverá o direito à esperança de uma recomposição da estrutura representativa mais proporcional e consentânea às realidades do momento?” Foto: Papa Francisco na sessão de abertura do Sínodo, 2 outubro 2024. Vatican Media
Ora, nas sessões de trabalhos do sínodo, sejam de grupos ou congregações gerais, diria, na aula sinodal, tomam lugar seguidores de Francisco e outros, pese embora não contestem a autoridade petrina, mantêm apego a tradições teológicas e sociais do passado.
Assim, quanto tempo será, ainda, necessário para erguer consensos em lugar de dissensões anotadas por este sínodo?
Quanto a futuras assembleias sinodais, porventura, haverá o direito à esperança de uma recomposição da estrutura representativa mais proporcional e consentânea às realidades do momento?
Seja como for, este tempo, o futuro próximo, será tempo de a Igreja Católica aproveitar dinâmicas sinodais, prosseguir a conjugação da sinodalidade. Cada comunidade em sua geografia, cada um no seu ponto cósmico, na relação de um com o outro, em busca de soluções que ainda parecem longínquas.
Tão longe e tão perto da aspiração de João para que todos seja um (Jo 17:21).
Finalmente, deste sínodo e das suas recomendações ao Papa, certamente, deverá surgir a consequente exortação apostólica de Francisco.
Como herança, ficará o processo.
José António Santos é jornalista










