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Padre a segurar Bíblia. Foto Ivan S Pexels
"É muito importante que os líderes sejam pessoas que guiam, e não aquelas que desviam e manipulam consciências.” Foto © Ivan S/Pexels

Jordi Bertomeu, comissário pontifício

Igreja Católica ainda não se preparou para proteger ‘adultos vulneráveis’

| 28/11/2025

“Esclarecedora, brilhante e, além disso, divertida.” Foi assim que uma mulher sentada ao meu lado descreveu a palestra sobre obediência saudável e tóxica que Jordi Bertomeu acabara de apresentar como orador de encerramento do Congresso ‘Pro+tejiendo’. O padre de Tortosa é um canonista singular, pois procura combinar os aspetos mais técnicos do direito com o cuidado pastoral, e a justiça com a misericórdia.

O palestrante estruturou a sua apresentação no processo por ele seguido, em conjunto com Monsenhor [Charles] Scicluna, contra o Sodalício de Vida Cristã, a associação peruana suprimida pelo Papa Francisco, e da qual o próprio Bertomeu é comissário de liquidação.

“Figari, o fundador do Sodalício, e os seus seguidores cometeram abusos de todos os tipos: sexuais, de poder e autoridade, de consciência e espirituais, e também económicos”, explicou. No entanto, enfatizou que a lei disciplinar na Igreja, “que é muito limitada e básica”, na verdade só é aplicada para proteger os menores relativamente ao clero. Em outras áreas, é praticamente desconhecida”.

Apesar do compromisso atual da Igreja com as vítimas, é muito difícil proteger criminalmente adultos vulneráveis se não houver outros casos criminais nos agressores, como, por exemplo, o abuso do sacramento da penitência. O caso Rupnik é uma boa prova disso.

 

Bispos não monitoram suficientemente os “novos movimentos”

Jordi Bertomeu deu uma palestra sobre obediência saudável e tóxica no Congresso ‘Pro+tejiendo’. Foto: Direitos reservados

O grande desafio, segundo Bertomeu, é como proteger toda essa população adulta vulnerável, composta por pessoas ligadas à vida religiosa, mas, sobretudo, por leigos e leigas pertencentes a associações e novos movimentos. Durante a chamada “primavera dos movimentos”, muitos deles foram aprovados canonicamente sem a devida avaliação. Isso foi feito de boa fé, mas à pressa, porque pareciam ser a solução para a secularização.

Muitos deles foram e continuam a ser uma fonte de vida para a Igreja. Noutros, porém, todos os tipos de abusos foram e continuam a ser cometidos, sistematicamente e com impunidade. Há muita pressão sobre as vítimas. O sistema legal não está a funcionar adequadamente.

Portanto, está a tornar-se cada vez mais claro nesta área que, naquela época, “havia um reconhecimento canónico deficiente e que é necessário aprofundar os critérios para discernir os verdadeiros dos falsos carismas originais”.

Isso ficou claríssimo no caso de Figari, que comprovadamente cometeu abusos mesmo antes de a instituição ser criada. “Poderia Deus conceder um carisma a um perpetrador? Será que Deus desejaria bons resultados, mas com ‘danos colaterais’, ou seja, a destruição da vida de muitos sobreviventes?”, questionou Bertomeu.

Ele, claro, concluiu que não.

O comissário pontifício para a liquidação do Sodalício também denunciou que “os nossos bispos não monitoram ou ‘episcopam’ suficientemente todas as realidades carismáticas e associativas nas suas dioceses. É seu dever. A proposta que fiz a muitos episcopados na América do Sul é que realizem um acompanhamento anual das associações aprovadas nas suas dioceses, pessoalmente ou por meio dos seus delegados. Em cada ano, eles devem conversar em particular com cada um dos seus membros, pelo menos uma vez.”

O palestrante argumentou que as aprovações canónicas diocesanas devem ser muito mais meticulosas no exame da pessoa do fundador. Por exemplo, “o magistério recente exige que o fundador, além de qualquer pecado pessoal, seja um membro ilustre dos fiéis e de virtude comprovada”.

Segundo Bertomeu, é preciso ter especial cuidado com os movimentos ou associações que enfatizam o “emotivismo na sua espiritualidade, especialmente numa sociedade que vive de pura emoção”. “Observei que muitos deles caem no que Santo Inácio definiu nos seus Exercícios Espirituais como consolações artificialmente provocadas”, acrescentou.

Além disso, segundo Bertomeu, “nunca antes houve tanta confusão entre o foro interior [consciência] e o exterior. Se a isso acrescentarmos a falta de preparação daqueles que oferecem orientação espiritual a outros, o problema torna-se inevitável”.

 

Como evitar que a obediência se torne tóxica ou abusiva

Para controlar os fundadores carismáticos, Bertomeu propôs uma obediência mais séria e rigorosa aos procedimentos canónicos. Foto: Direitos reservados

Como podemos viver uma obediência saudável ao fundador ou superior na nossa Igreja? Para evitar que se torne tóxica ou abusiva, ela deve ser baseada na “escuta em oração de todos, atentos à imagem de Deus que se promove dentro do grupo. O discernimento deve ser valorizado nesses grupos. Além disso, devemos considerar se o poder exercido fortalece os seus membros ou se os oprime, subjuga e sufoca. É também muito importante oferecer espaços para o diálogo e, sobretudo, que os líderes sejam pessoas que guiam, e não aquelas que desviam e manipulam consciências.”

Para controlar os fundadores carismáticos, Bertomeu propôs uma obediência mais séria e rigorosa aos procedimentos canónicos: “conselhos e órgãos de participação e deliberação, rotação de cargos, supervisão rigorosa e séria, limites disciplinares e justiça efetiva”.

A isso devemos acrescentar levar a sério a “sinodalidade e a transparência”, com “amplo conhecimento dos limites, clareza doutrinal, responsabilidade e comunicação”.

Bertomeu explicou a importância dada aos “mecanismos corretivos para evitar relações abusivas no grupo: submeter decisões importantes ao grupo, ouvir todos; poder expressar discordância livremente e com aceitação, sem qualquer medo de represálias; ter canais claros de reclamação para todos e, claro, um bom apoio para a pessoa abusada”.

Sem essa supervisão contínua, poderíamos cair na aberração de São Bartolo, algumas estruturas do Sodalício para os seus noviços, “uma espécie de centro de tortura, fechado na época, mas transferido por alguns sodalitas para o seio das suas famílias”.

Na sua opinião, “há pessoas que passam por esses movimentos e que, completamente ideologizadas, podem acabar a destruir os seus familiares”.

O discurso de Bertomeu foi recebido com uma ovação de pé pelas vítimas e seus apoiantes, membros do Repara e do Pro-Tejer, tanto presentes no local como online. Pelo menos desta vez, e ao contrário do que outros afirmam, Bertomeu foi praticamente aclamado pelas vítimas.

 

Texto publicado na edição de Religion Digital de 26 de novembro de 2025, traduzido e publicado pelo 7MARGENS no quadro de um intercâmbio de trabalhos jornalísticos.

 

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