Abusos sexuais em Espanha

Igreja exige “maior rigor” e mais dados à lista do “El País”

| 20 Dez 2021

Colégio São Tomás de Villanueva, em Valência, onde o El País situa alguns dos casos de abuso. Foto: Direitos reservados

 

“Faltam nomes de acusados, datas em que os abusos tiveram lugar e a indicação se se referem a pessoas já falecidas”, lê-se, segundo notícia do Religión Digital hoje, 20 de dezembro, numa nota enviada via Whatsapp a alguns jornalistas pela Conferência Episcopal Espanhola (CEE) reagindo à notícia do diário El País sobre a abertura de uma grande investigação para apurar atos de pedofilia em meios eclesiais na sequência de um relatório entregue pelo jornal ao Papa Francisco.

De acordo com o Religión Digital, a nota do episcopado pede ao jornal um “maior rigor” nas suas “denúncias”, cujo conteúdo “de natureza muito díspar, torna difícil tirar conclusões que possam servir para uma possível investigação”. Lembrando que “a Igreja insiste na importância de denunciar os abusos e encoraja todas as vítimas a apresentarem as suas denúncias nas instituições judiciais, canónicas, ou sociais”, os bispos espanhóis afirmam ser “necessário que essa informação seja entregue também aos gabinetes de proteção de menores e prevenção de abusos das dioceses e das congregações religiosas para estas poderem realizar a investigação que for adequada às informações recebidas”.

 

Informações contraditórias

“A Conferência Episcopal Espanhola distancia-se da investigação da pedofilia e alega que esta é conduzida pelo Vaticano” – titulava ao fim da tarde de hoje, 20 de dezembro, o diário espanhol El País, citando um porta-voz católico não identificado e acrescentando: “Surpresa na Santa Sé que supervisiona o processo de investigação da Igreja espanhola”.

O artigo é assinado por vários jornalistas, incluindo o correspondente do jornal em Roma.

O porta-voz garantiu ao El País “nada saber como se vai proceder ou como vai ser organizado cada processo, ou quais serão as medidas cautelares que poderão ser tomadas contra os acusados ainda em funções”.

Para além das informações contraditórias reunidas na notícia, o diário madrileno refere a existência de uma “grande confusão” sobre a grande investigação que ele próprio noticiara um dia antes. “A estação dos bispos, a cadeia Cope”, escreve o El País, “publicou esta manhã [20 de dezembro] no seu site um artigo que dizia exatamente o contrário, com a manchete ‘A Igreja Espanhola vai investigar as últimas denúncias de abusos, como vem fazendo há mais de dez anos’, indicando que “as dioceses espanholas estudarão cuidadosamente a lista de denúncias apresentada de supostos abusos por parte de 251 sacerdotes e alguns leigos de instituições religiosas”.

Parece, portanto, difícil dar crédito ao porta-voz não identificado citado pelo El País, uma vez que as regras definidas pelo Vaticano são muito claras quanto à imperiosa obrigação dos responsáveis eclesiais de iniciar investigações, denunciar às autoridades civis e suspender de funções todos os credivelmente indiciados em atos de abusos sexuais.

 

251 casos investigados

 

Foto © Lisa Runnels / Pixabay

 

Todos estes desenvolvimentos têm como origem a publicação pelo diário espanhol neste domingo, 19 de dezembro, da notícia sobre a abertura por parte da Igreja de “uma grande investigação, sem precedentes em Espanha, sobre 251 membros do clero e alguns leigos de instituições religiosas acusados ​​de abusar de menores”.

O processo surgiu na sequência de um relatório de 385 páginas que o jornal entregou ao Papa Francisco a 2 de dezembro, “aproveitando o contacto direto do Pontífice com jornalistas durante a viagem à Grécia”. O relatório sintetiza mais de três anos de investigação realizada pelos jornalistas do El País e foi alguns dias depois entregue pelo diário espanhol ao cardeal Juan José Omella, presidente da CEE.

O diário madrileno referia ainda que “o caso mais antigo do relatório data de 1943 e o mais recente de 2018. Todos são inéditos, exceto 13 já publicados, que foram incluídos porque surgiram novas denúncias contra esses clérigos”. O jornal sublinhava ainda ter aplicado “o critério mais estrito para calcular o número de vítimas”, tendo apenas registado os casos descritos por “depoimentos diretos das vítimas e de testemunhas”.

O jornal queixa-se também da “ausência de dados oficiais da Igreja ou das autoridades” e calcula, somando os 251 casos por ele investigados com os que foram sendo denunciados por outras fontes ao longo dos últimos anos, que se esteja perante “pelo menos 602 casos – cada um referente a um réu – e 1.237 vítimas, desde os anos 1930.”

 

Silêncio e campanha

Relatório é contestada pela Igreja em Espanha, mas já trouxe a polémica para a ordem do dia. Foto © karl-fredrickson | Unsplash

 

Por seu turno, o jornalista Jesús Bastante comentava no artigo do Religión Digital a nota enviada pela CEE, censurando os bispos que “se recusaram sistematicamente a investigar os abusos de menores cometidos na Igreja espanhola” por virem agora criticar “uma instituição externa, neste caso El País, que fez essa mesma investigação”. Aos bispos falta interrogarem-se, escreve Jesús Bastante, “por que razão as vítimas preferem entrar em contacto com os media, em vez de se dirigirem às instituições eclesiásticas”, aquelas que “há anos dão como resposta o silêncio total”.

A revista Vida Nueva publicou, na sua versão digital, também hoje, 20 de dezembro, uma súmula da mesma nota do episcopado espanhol referindo que esta era “a primeira vez” que a CEE respondia “oficialmente à campanha de denúncia de abusos sexuais dentro da Igreja promovida desde outubro de 2018 pelo jornal El País.”

A notícia cita declarações de José Luis Restán, diretor editorial da Cope – empresa de comunicação católica, – em que este afirma existirem “responsáveis de ordens religiosas que ficaram perplexos porque não sabiam de nada e se perguntam por que razão as denúncias não lhes foram enviadas para que eles próprios pudessem investigá-las”.

Num artigo publicado a 31 de janeiro de 2021, o mesmo El País titulava “Ordens religiosas admitem 126 casos de abusos – número total de vítimas na Igreja sobe para mais de 500”, a que juntava em subtítulo:

“Depois dos Jesuítas, sete congregações reconhecem 61 episódios de pedofilia, enquanto os bispos se recusam a rever o seu passado”. No desenvolvimento da notícia podia ler-se que “os abusos de menores na Igreja Católica na Espanha vão lentamente vindo à tona” e que “após os Jesuítas terem reconhecido 81 vítimas de 65 religiosos” [desde o ano 1927 até à atualidade], “outras congregações já seguem o mesmo caminho”.

Naquela data, El País tinha inquirido as 10 maiores ordens religiosas, das quais “sete revelaram que também realizaram investigações no passado, ou estão a concluí-las e concordam” tal como os Jesuítas, “em indemnizar as vítimas”.

Para o jornal, estas investigações eram “meras revisões de arquivos” e não “estudos rigorosos”. Mas, mesmo assim, os seus resultados “não foram tornados públicos e estão longe de refletir a realidade dos abusos em Espanha, quando comparados com os de referência em outros países.”  Por outro lado, dessas dez entidades, os Maristas, os Irmãos La Salle e os Agostinianos “continuam”, acrescentava o jornal, a “recusar-se a revisitar seu passado”, enquanto “os restantes admitem 61 casos de pedófilos religiosos”.

“Estes números”, contabilizava El País, fazem “disparar as estatísticas totais e elevam as vítimas de abusos sexuais da Igreja em Espanha a mais de 500” tendo em consideração, “na ausência de dados da Igreja e da Justiça”, informações recolhidas pelo jornal “em sentenças transitadas em julgado e em notícias saídas em meios de comunicação” e dados obtidos através da sua própria investigação.

 

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