AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Irmã Maria de São João nasceu na casa à esquerda e fundou as Servas Franciscanas (ao fundo). Foto © Filipe Ribeiro.

Processo de beatificação aberto

Irmã Maria de São João Evangelista vivia “qualquer coisa de sobrenatural”

| 22/09/2024

Irmã Maria de São João nasceu na casa à esquerda e fundou as Servas Franciscanas (ao fundo). Foto © Filipe Ribeiro

Irmã Maria de São João nasceu na casa à esquerda e fundou as Servas Franciscanas (ao fundo). Foto © Filipe Ribeiro.

“Qualquer coisa de sobrenatural havia, isso é garantido”, assegura ao 7MARGENS Amândio Fernandes, de 76 anos, que nasceu em Pereira (Mirandela) “no fundo do povo”, numa casa vizinha à de Alzira da Conceição Sobrinho, mais tarde irmã Maria de São João Evangelista, cofundadora das Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado (SFRJS), de quem a Santa Sé acaba de autorizar a abertura do processo de beatificação e canonização.

Nesta “aldeia eucarística”, o parco movimento que acontece num dia de semana, à tarde, é impulsionado principalmente pela instituição das irmãs Servas Franciscanas, que “traz vida e ser à povoação”, conta Amândio Fernandes. Na aldeia, apesar de não se ver viv’alma em plena luz do dia, as portas das casas estão semiabertas e as chaves encontram-se na fechadura, no lado de fora. “Aqui ninguém rouba”, atira o habitante de Pereira, que, só com um gesto, nos convida a entrar.

“A minha avó e ela eram muito amigas. Ela sim, teria muita coisa para contar”, refere, gracejando. O contacto com a irmã aconteceu muito cedo, “principalmente a partir de 1957, quando surgiram os primeiros telefones públicos”. “O primeiro que veio para Pereira foi colocado em minha casa. Nem as irmãs tinham telefone. Por essa razão, a irmã Maria João estava muitas vezes por lá”, acrescenta.

Amândio e Julieta são de Pereira e contactaram de perto com a irmã. Foto © Filipe Ribeiro

Amândio e Julieta são de Pereira e contactaram de perto com a religiosa. Foto © Filipe Ribeiro.

Amândio cresceu a ouvir história místicas que ligam a irmã Maria de São João a acontecimentos inexplicáveis. Foram muitos os episódios que, ao longo de décadas, deixaram confusos alguns habitantes mais céticos. Mas admite: “Qualquer coisa de sobrenatural havia. Isso é garantido.”

Um dos acontecimentos diz respeito às hóstias que desapareciam, inexplicavelmente, do sacrário da capela da instituição. A irmã Maria de São João dizia receber, sem participação humana, partículas consagradas provenientes do sacrário da aldeia. “Para apurar a verdade, lacraram os sacrários e arranjaram testemunhas. Provou-se, no entanto, que a hóstia desaparecia do vaso sagrado e aparecia com ela. Ela recebia sempre a comunhão, quer fechassem, ou não, o sacrário”, atesta.

A esposa de Amândio, que nos apanha a meio da conversa, partilha outro episódio que ocorreu no seio da própria família. A sua avó, que padecia de cancro, tinha sido operada ao peito, de onde tiraram “três bichos grandes”. “Ora ela tinha um cunhado que não era religioso, nem acreditava nas virtudes da Irmã Maria João. Um dia, quando esta foi fazer uma visita à minha avó, que estava muito fraquinha – até já lhe estavam a preparar a despedida – a irmã disse ao tal cunhado: ‘não te aflijas, ela não vai morrer’. A verdade é que, de dia para dia, foi melhorando e até recuperou”, recorda, asseverando que o homem passou a assistir a todas as celebrações religiosas. “Quem lidava com ela sentia que havia qualquer coisa de especial, de sobrenatural. Alguma coisa se passava. Foram muitos os acontecimentos” – remata Amândio.

Ele, que esteve no então Ultramar, recorda que a Irmã Maria de São João, nessa época, garantiu que “ninguém da paróquia de Pereira, nem das paróquias vizinhas, ia morrer na Guerra Colonial”. “E cumpriu-se a profecia”, afiança.

Ao longos dos anos, Alzira da Conceição Sobrinho “inspirou muita gente” e não foi por acaso que teve “cinco sobrinhos padres e algumas freiras na família”. “Ainda hoje há muitas pessoas da aldeia com relatos impressionantes. Nunca me esquece que disse que Pereira ia ser uma nova Fátima”, concretiza.

A irmã Maria de São João faleceu no dia do Corpo de Deus, “a sua festa predileta”, na qual, durante anos, sempre se cumpriu uma cerimónia no varandim da instituição, onde era feita a bênção do Santíssimo Sacramento.

Irmã Maria de São João “era uma mística”

Interior da Capela das Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado em Pereira. Foto © Filipe Ribeiro

Interior da Capela das Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado em Pereira. Foto © Filipe Ribeiro

Depois da Santa Sé autorizar a abertura do processo de beatificação e canonização da irmã Maria de São João Evangelista, cofundadora das Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado, o bispo da Diocese de Bragança-Miranda, em sessão solene, realizada no passado dia 15 de agosto, disse que a irmã “era uma mística”.

“A irmã São João era uma mística. Muitas pessoas que a conheceram e com ela conviveram registam numerosos factos que as edificaram e sentem enorme gratidão pelas graças que, com a sua oração, obteve de Deus”, disse o bispo Nuno Almeida.

“A irmã Maria de São João está associada a diversos acontecimentos místicos”, além de “um intenso trabalho de apoio a meninas e jovens carenciadas”, confirma ao 7MARGENS a irmã Maria José, da Diocese Bragança-Miranda, responsável por todo o processo.

“Os diversos testemunhos e milagres serão tratados pelo Tribunal de Inquérito Diocesano. Os documentos existentes serão entregues a uma comissão histórica, orientada pelo bispo emérito, António Montes, que fará uma pesquisa das fontes, nomeadamente no arquivo da congregação, onde há escritos dela”, confirma a mesma irmã, aceitando que se trata de “um processo moroso, até pela quantidade de escritos que vão ser analisados”. Após a recolha e organização dos testemunhos e escritos, estes serão enviados para a Santa Sé.

Alzira da Conceição Sobrinho. Foto DR

Alzira da Conceição Sobrinho, a Irmã Maria de São João. Foto: Direitos reservados

A Irmã Maria de São João é a primeira mulher em processo de beatificação e canonização da Diocese de Bragança-Miranda, que tem já dois beatos que fazem parte de um grupo de missionários jesuítas que partiu para o Brasil. Um deles é de Chacim (Bento de Castro) e outro de Bragança (Nicolau Dinis); além do processo que ainda decorre referente ao Frei Casimiro, Mariano da Imaculada Conceição, do Convento de Balsamão (Macedo de Cavaleiros).

Alzira da Conceição Sobrinho, nome de batismo da irmã Maria de São João Evangelista, nasceu em Pereira, Mirandela, a 4 de abril de 1888, e faleceu em Chacim (Macedo de Cavaleiros), a 10 de junho de 1982, que nesse ano foi Dia do Corpo de Deus.

A congregação das Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado foi ereta canonicamente a 15 de agosto de 1950, por D. Abílio Augusto Vaz das Neves, bispo da Diocese de Bragança-Miranda, e em 1 de novembro de 1991 foi reconhecida como Instituto de Direito Pontifício.

A congregação conta com 32 comunidades, com mais de 140 pessoas: Portugal, Angola (desde 1962), Brasil (desde 1988) e Moçambique (desde 1998).

Entrada das instalações da congregação das SFRJS em Pereira, Mirandela. Foto © Filipe Ribeiro

Entrada das instalações da congregação das SFRJS em Pereira, Mirandela. Foto © Filipe Ribeiro.

Este texto foi inicialmente publicado no 7Montes.

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Das cantigas de amigo à vinha

[Metáforas vivas]

Das cantigas de amigo à vinha novidade

Este texto corresponde à homilia de domingo, 4 de outubro, [domingo xxvii do tempo comum ― a ― 2026; 1º dia da semana da educação cristã; 800 anos da morte de S. Francisco], proferida pelo padre Joaquim Félix na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This